// HEGEL E A CONVERSÃO EUROPEIA DA HISTÓRIA 3
ELIANE COLCHETE
ESTE BLOG PROTESTA CONTRA A SABOTAGEM DA CULTURA QUE ESTÁ SENDO FEITA PELA DOMINAÇÃO INFO-MIDIÁTICA NO BRASIL = AS PARTES DO BLOG QUE NÃO PODEM SER MOSTRADAS NA ÍNTEGRA DEVIDO A OPERAÇÃO DE CENSURA PARA FINS DE REDUÇÃO DA ESCRITA A NÍVEL DE IDIOTA NESTE PAÍS, ESTÃO EM BLOGS COM O MESMO TÍTULO QUE ESTE //// NÃO NOS DEIXAMOS SEDUZIR PELA IDIOTICE DA MÍDIA/// FORA CALHORDAS
ELIANE COLCHETE
ESTE BLOG PROTESTA CONTRA A SABOTAGEM DA CULTURA QUE ESTÁ SENDO FEITA PELA DOMINAÇÃO INFO-MIDIÁTICA NO BRASIL = AS PARTES DO BLOG QUE NÃO PODEM SER MOSTRADAS NA ÍNTEGRA DEVIDO A OPERAÇÃO DE CENSURA PARA FINS DE REDUÇÃO DA ESCRITA A NÍVEL DE IDIOTA NESTE PAÍS, ESTÃO EM BLOGS COM O MESMO TÍTULO QUE ESTE //// NÃO NOS DEIXAMOS SEDUZIR PELA IDIOTICE DA MÍDIA/// FORA CALHORDAS
Estamos
pois, na localização da Lógica como referencial hegeliano do
problema do vir a ser do pensamento.
Antes
de examinar o
mapa
das tríades que Bréhier reportou
como
problematização
hegeliana
da Lógica,
será oportuno observar a crítica de Althusser a Hegel, que se
endereçou não apenas
ao
que seria a teoria social das esferas suponíveis estamentais. Mas
endereçou-se como crítica da origem
do desenvolvimento teórico possível,
dada como simples, visando pois, o contexto
da
Lógica.
O
que é coerente com um projeto cujo âmago é o desacordo relativo
à posição usual das relações Marx-Hegel em termos de inversão.
Althusser assim a ironiza: "Compreendemos muito bem: tudo isso é
simples, e claro! E
apressamo-nos a colocar as coisas, isto é, a abstração,
no lugar, por uma 'inversão' libertadora - posto que não
é o conceito (geral) de fruto, não é ele, que produz os frutos
(concretos) pelo autodesenvolvimento, mas ao contrário os
frutos (concretos) é que produzem o conceito de fruto (abstrato).
Estamos de acordo? Não,
a rigor, não podemos estar de acordo, não podemos estar
de acordo sobre as confusões ideológicas que estão implícitas
nesta
'inversão' em questão, e
que simplesmente permitem falar nela".
("Sobre
a dialética materialista", in: "A
favor de Marx", Rio de Janeiro, Zahar, 1979, p. 166)
Sendo
porém
o
marxismo mesmo, naquele
significado histórico de si que compreende todas
as interpretações orientadas pelo consenso da inversão, o
que Althusser
não isenta
assim
de seu rol ideológico,
na categoria do que é contrário à ciência. Nem sempre neste
artigo trata-se de separar
Marx do
que Althusser está portanto colocando na categoria de um
marxismo ideológico.
Assim
como o Lire le Capital só aceita um marxismo científico na obra da
maturidade de Marx, o Capital, e exclui a crítica
da economia política
dos Manuscritos de 1844,
como obra de juventude
de Marx,
ideológica por sua concepção "antropológica", isto é,
filosófica.
Aí
sendo o caso da
história universal
da
redenção pelo trabalho e do
conceito universal de alienação, no
artigo sobre a dialética materialista em
Pour Marx trata-se
também de
rejeitar alguns conceitos
marxianos bem
precisos.
Aquilo
que o Lire le capital rejeitava
como não científico na obra de juventude, era expressamente a
influência do
"Lições sobre a filosofia da história', de
Hegel,
conforme se expressa Jacques
Rancière
("Le
concept de critique et la critique de l'economie politique des
'manuscrites' de 1844 au 'capital'. In: Lire
le capital,
Paris, Maspero, 1967, tradução minha,
p.
119).
Mas,
em Pour Marx, o que Althusser rejeita como ideológico do texto
marxiano não é atribuído a influência hegeliana.
Pelo contrário, vemos
Althusser rejeitar conceitos que, embora da juventude de Marx, foram
por ele construídos "para sair da ideologia, para libertar-se
dos mitos e tomar contato com o original deformado
por Hegel" (op.
cit. p.
263). Contato
crítico. Ei-los:
"O conceito de 'volta para trás' que servia de réplica à
'superação'
de Hegel" e "sugerindo um retorno ao 'real', ao 'concreto
anterior à ideologia", criticado por
Althussser assim
porque "roçava o positivismo'".
Como "outro exemplo", Althusser designa "a refutação
polêmica
da possibilidade de uma história da filosofia:
"ainda aí estivemos na fronteira do positivismo, a dois passos
de reduzir (como a Ideologia Alemã é tentada a fazer)
toda ideologia (e, por conseguinte, a filosofia) ao simples fenômeno
(provisório) de uma formação social)".
Porém
sabemos
como Althusser supera esse perigo. Os seus
Aparelhos
Ideológicos de Estado
também não são diretamente um conceito marxiano
("Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado",
in Um
mapa da ideologia,
Rio de Janeiro, Contraponto,1996, p. 112-14).
Ao esclarecer aí
em
que não são,
Althusser recorre contudo,
e
expressamente,
ao conceito de "superação",
que o vimos acima especificar como hegeliano e rejeitado por Marx.
Na medida em que os Aparelhos Ideológicos de Estado imbricam
duas teorias, da ideologia e do Estado, quanto à segunda Althusser
considera que Marx produz
apenas uma teoria "descritiva'".
Ela
"representa uma fase na constituição da teoria, a qual exige a
'superação' dessa fase".
O
raciocínio empregado
é
bem singular. A teoria
do Estado de Marx,
digamos, fenomenológica, é
um "começo
da teoria marxista de Estado"
que "nos
dá
o ponto essencial,
isto é, o princípio decisivo de qualquer desenvolvimento posterior
da teoria".
Porém na medida
em
que, por cingir-se à "definição do Estado como um Estado de
classe, que existe no aparelho repressivo de Estado", permite
essa fenomenologia um tipo de evidência que
implica asserções como "É,
é isso mesmo, isso é realmente verdade!",
mostra-se
algo que "não faz progredir a definição do Estado, isto é, a
teoria científica do Estado". Inversamente, ela "corre o
risco de bloquear o desenvolvimento da teoria, embora esse
desenvolvimento seja essencial".
Como
efeito de evidência fenomenológica,
os
fundamentos da teoria marxista do Estado são ao mesmo tempo a
alma da ideologia - sendo esse efeito de reconhecimento imediato o
que é aí
considerado ideológico e
assim definido como tal
-
e
o princípio decisivo do desenvolvimento científico da teoria
do Estado que ainda está por ser feita.
Na qualidade de ideológico, assim como expresso na Ideologia Alemã,
o
princípio da teoria do Estado marxista,
de novo, não é marxista,
mas positivista, assim
como toda partição pré-freudiana,
dicotômica
de fantasia ou sonho e realidade. (p. 124)
Na qualidade de princípio, porém, a qualificação reza apenas que
não existe - como formulação de uma teoria geral da
ideologia,
que não diz apenas os efeitos de ideologias particulares
(religiosas,
éticas,
jurídicas,
políticas)
relacionados ao contexto da luta de classes de que se trata
historicamente, mas sim as fundamenta. Não
existindo a teoria geral da ideologia, nem na fase ideológica
de Marx,
nem em O Capital. (p. 123, 123)
A
reversão dessa
lacuna por Althusser
consiste em mudar o sentido da incompatibilidade de ideologia e
história, expresso na "Ideologia
Alemã",
que reserva a história apenas
à realidade da luta de classes, para considerar que realmente a
ideologia não
tem
história,
mas num sentido inverso
ao que Marx pressupõe
ali.
Em vez de ser porque elas são quimeras, puros sonhos opostos à
realidade, em Althusser é pelo fato de
serem as ideologias "oni-históricas",
o reflexo do fundamento que sua teoria geral expressa como o
transcendental da história - nesse sentido apenas, "a-histórico".
Mas
em
Pour Marx, a
posição da ciência como dialética materialista, assim somente o
que Marx introduziu
como um continente que não havia antes ou que antes
estava
ocupado pela ideologia,
conforme
o pronunciamento althusseriano no
colóquio Hyppolite que
já estudamos,
devendo
ser expressamente não evidente nesse sentido suposto fenomenológico,
de fato permanece definida
pelo
Lire
le capital
como o avesso da filosofia.
É
por isso que estes dois textos,
o althusseriano de Pour Marx e o rancièriano do Lire le capital
devem estão correlacionados tematicamente, porém de um modo que
concede ao segundo
uma
função de teoria geral,
desta vez da ciência.
Rancière
reflete sobre "o problema da
relação
entre este dois objetos (objeto do conhecimento e objeto real),
relação que constitui a existência mesma do conhecimento".
(op.
cit.
p. 65)
E define a filosofia como "produção
teórica da ideologia"
tal que, se a filosofia burguesa pode se reduzir ao problema do
conhecimento que colocou, não obstante ela o coloca apenas como a
predisposição da resposta que pretende dar, a qual não correponde
ao enunciado do problema, e sim à sua pretensão
estranha
ao problema, de
expressar como
"solução" apenas o que atende ao seu interesse"
moral,
prático,
religioso
ou
político.
Como
capaz
de produzir esse efeito
que desde Lacan se designa
de "reconhecimento especular"
("reconnaissance en miroir", p 66) é a posição mesma do
problema que define a filosofia enquanto "modo de produção
teórico
da ideologia", como Marx denunciara na forma de uma
"mistificação"
que não pertence apenas à resposta mas à questão ela mesma.
E
se a fenomenologia em geral se explicita como "círculo da
teleologia da Razão hegeliana ou husserliana",
(p. 67)
isso não implica que se possa escapar dele, pelo contrário, o fecha
mais ainda. Nem
basta limitar a possibilidade do pensamento numa abertura que seria
apenas a meditação do a priori desse fechamento
circular,
como faz Heidegger. O requerido aqui é a ciência, que
permite romper o círculo, transitar a um outro espaço, este
"requisitado para uma justa posição do problema, que não
prejulga a sua solução".
Eu
gostaria de intervir nesse ponto. Primeiro,
vemos que a negação por Althusser de uma teoria geral da ideologia
em Marx, está relacionada como demonstração, ao que em Rancière
(op. cit. p. 66) emerge, inversamente, como a definição por Marx da
ideologia em
si mesma,
a "mistificação" construída
em nível de questão. Sendo
esta mistificação toda a filosofia como teoria do conhecimento, e o
texto citado de Marx sendo a Ideologia Alemã. Em Althusser, quando
se trata de negar a relação de Marx e Hegel, mesmo à base de
inversão, a
demonstração da incompatibilidade originária desses dois
pensadores vai ser justamente a tese de Rancière exposta por outros
termos, se esta é a perquirição da teoria do conhecimento
marxista,
ou
seja, só ela
materialista - o
que significa não ideológica.
Segundo,
minha
intervenção incide sobre a
insuficiência da dicotomia espacial, tal que ao espaço fechado da
ideologia filosófica pode se opor um espaço livre da ciência real.
Ora, se
a figura da teleologia é
a que
Rancière mesmo
utilizou
para caracterizar a fenomenologia,
é
um
interesse
orientado
aquilo
que a fenomenologia - deixando de lado por ora de quem e qual -
definiu como a condição do círculo,
transitando
assim do problema clássico metafísico do conhecimento para a sua
crítica.
Mas Rancière não assinala qualquer ruptura histórico-critica na
teoria do conhecimento. Toda ela é oponível ao materialismo de
Marx.
Mas se assim vemos que a filosofia tem, sim, história,
é o interesse
ou
desejo,
também, aquilo que fundamenta
a travessia da
crítica ideológica
althusseriana,
do positivismo à
ciência marxista e freudiana.
Não há um fora da filosofia em que o materialismo poderia
instalar-se.
Ao
contrário, Althusser
et. alii
supõem
um fora definível, o
que é o fundamento de todo positivismo,
a oposição simples e irreversível de filosofia e ciência
que é a sua contradição manifesta, já que ao mesmo tempo uma
epistemologia (filosofia da ciência) enquanto define o que é
ciência, e a tábula rasa de toda filosofia como
sem sentido (ideológica),
não científica.
Resultam
coisas bem singulares desse
contexto pelo
marxismo
althusseriano.
Uma crítica da ideologia que é ela mesma ideológica, um Marx que
não é marxista, e tudo isso na conta do positivismo.
Havendo
contudo
um outro Marx que não é marxista, o hegeliano pré-científico de
Rancière
em
Lire
le capital. E, em Pour Marx, o da primeira fase da carreira marxiana,
que
Althusser estabelece como "dominada por um humanismo
racionalista-liberal, mais próximo de Kant e de Fichte do que de
Hegel" (op. cit. p. 197).
Mas
o
que me parece o mais importante, quando se trata da questão das
relações Marx/Hegel: O
que é o positivismo?
Indagação que encaminha a reversão metodológica anti-romântica
que não considero descartável enquanto temática essencial à
questão. O positivismo
não
é obviamente a fenomenologia, e se o Lire le capital considera
exequível reunir a ambos como dois inimigos reduzidos ao mesmo laço
de parentesco, pela utilização da ciência de Marx
enquanto a descoberta da estrutura, avessa a ambos,
contudo o que é o positivismo quando se trata da "Ideologia"
de Marx, a "Alemã"
- enquanto o que se atribui realmente
a Marx?
Não
obstante dizer-se que
"de fato, A ideologia alemã nos oferece, depois dos Manuscritos
de 1844, uma teoria explícita da ideologia, mas... ela não é
marxista", e sim "positivista-historicista"?
("ideologia e aparelhos ideológicos de Estado, op. cit. p. 123,
125).
Vemos
portanto a equiparação de positivismo e historicismo - quando
o que me parece verdadeiro é a antítese de ambos assim como de
positivismo e romanticismo. Ou
seja, opondo-se um conceito de história como epifenômeno de um
determinismo objetivo, a um conceito de história como fenômeno real
das relações humanas
intersubjetivas.
Marx
pode assim ver
o positivismo
que é o seu como
uma inversão do romanticismo, porque ele não abandonou o escopo de
totalização da história de
um progresso,
mas ao contrário do romanticismo em geral e Hegel em particular, não
crê que ela seja interior à história, assim é o progresso que
explica a história e não o contrário. O progresso foi seccionado
da história
para se tornar o seu motor
oni-histórico,
a partir do momento em que o positivismo o posicionou como
exclusivamente técnico, adaptação objetiva ao meio determinista.
Compreende-se
o alvo da crítica do
marxismo althusseriano, ao mesmo tempo anti-humanista e
anti-positivista. O Capital é ciência não por ter definido
o progresso técnico, mas porque,
definindo a estrutura, ao mesmo tempo explicou as condições
determinantes da distorção onírica da filosofia em geral e da
ciência smith-ricardiana em particular, enquanto ideologia burguesa;
e explicitou o que ela não pode ver - sendo esse efeito de cegamento
a condição determinante. O sonho do valor trabalho é apenas a
distorção ativa da realidade da mais-valia,
o que a ideologia não pode dizer,
mas por algo mais, o que o capitalismo assim
já não
pode ver,
como a lei do fim de si próprio, na equação que relaciona capital
constante
e variável.
Equação da
origem da mais-valia
neste sistema capitalista
que,
também ao contrário do que a ideologia pode ver, é
apenas histórico e não
"a forma natural, eterna, de toda produção em uma sociedade",
conforme denunciou Marx.
(op. cit. p. 296)
Ser
histórico significa pois, ser finito, necessariamente
ter
um fim. Sobre esse conceito de fim,
onde se trata da ciência positiva do marxismo, o objeto que a
autentifica como tal é a mais-valila, mas como
o que pode ser explicado quanto à origem, e nessa origem da
mais-valia estando
inscrita o fim, na medida que a
origem é "o motor do processo de produção capitalista".
Ou seja, algo que não move outros horizontes da
realidade econômica, além do capitalista, e sendo esse motor "uma
distinção ausente de todo o disscurso da economia clássica, a
distinção do capital variável e do capital constante".
Rancière
se limita nesse trecho a esclarecer: "Ora, a posição dessa
distinção dissipa
o
mistério da mais-valia. Ela faz aparecer o motor do processo de
produção capitalista: a oposição entre o capital e o trabalho
assalariado". Desse modo porém não se define qual é o fim. A
revolução proletária ou o que sabemos que implica a distinção
na teoria marxista, a saber, que a lei da concorrência, implicando a
minoração dos proventos hauríveis dos negócios, o faz por um
mecanismo suposto
por Marx
inexorável,
que é a diminuição do capital variável (dinheiro)
em relação à soma do
capital constante (máquinas e instalações).
O
mecanismo estrutural
define
metodologicamente o deslocamento da intersubjetividade
no campo da história. É
esse anti-humanismo o pivô comum de estruturalismo e positivismo. Ao
estabelecer a mecânica estrutural da inversão da mais-valia em
forma-valor, e
o "motor" do modo de produção capitalista, o Marx de O
Capital teria anulado todas as bases do discurso que ainda era o de
Marx raciocinando sobre a base humanista feuerbachiana a partir do
modelo hegeliano do prefácio das Lições sobre a filosofia da
história. O
discurso se produzia pela representação por
Marx, da
feuerbachiana "exterioridade sensível em que o homem se
reconhece",
em termos de resultado do traalho alienado criador da riqueza. Assim
que esse resultado
da riqueza
é visível no capitalismo, e
em termos de desenvolvimento das capacidades do homem, o motor - esse
desenvolvimento - se torna revelado, e capaz de assumir sua
independência. O motor era ainda a essência humana.
Para
considerar que assim Marx está sendo hegeliano, Rancière deve ler o
prefácio da Lições sobre a filosofia da história naqueles termos
que já criticamos acima,
da Ideia como distinta do sujeito. Conforme Rancière, para Hegel "O
verdadeiro sujeito da história se serve das subjetividades ilusórias
para impor sua lei. O verdadeiro motor da história é a essência
humana". (p. 119) Inversamente, ao se opor à concepção de
Della Volpe, sobre que o trabalho crítico operado por Marx consiste
em substituir as abstrações gerais indeterminadas ou hipóstases -
como o próprio Marx considerou o que designa a hipostasiação
sistemática do predicado relativamente ao sujeito em Hegel -
por abstrações determinadas (históricas), Rancière argumenta
que em O Capital toda "determinação da sociedade como sujeito
se encontra de fato condenada
por Marx", sendo "incompatível com os conceitos que ele
torna operantes no Capital".
(p. 125, 127)
Como
Rancière expõe, contudo, a cientificidade do objeto será
considerada a partir de sua transformação por Marx em relação
social.
Transformação que não
será considerada de modo algum subjetiva. (p.
140) A
oposição sujeito/sociedade persiste, ao
contrário do que a objeção a Della Volpe afirma, apenas
aparentemente mediada por um determinismo que faz da relação social
a relação de produção.
Eis
porque o objeto pode aparecer
como mercadoria:
primeiro, pôde aparecer como coisa. A diferença de
coisa e mercadoria é
entre relações de produção,
não de essência e aparência.
Mas
se
há
determinação do sujeito
pela ideia na concepção de Hegel, é o que me parece bastante
duvidoso. A
meu ver, em
Hegel e como o substrato criticista da modernidade, o sujeito é a
base da sociedade, a ideia ou a priori é subjetividade. O
que caracteriza a inversão positivista de Hegel por Marx, é que
neste a sociedade é a priori, o sujeito é epifenômeno, e a
sociedade não é - prodigiosamente - intersubjetividade por isso que
se reduz ao mecanismo das relações de produção. Se
Hegel fosse lido em termos de um idealismo determinista,
pondo a sujeito como epifenômeno da sociedade, creio que Della Volpe
estaria mais próximo do acerto do que negar que Marx teria feito
apenas o deslocamento da sociedade ao modo de produção, e, assim,
considerar Marx como neohegeliano. Seria
contudo ainda um outro tipo de inversão. O
curioso é que a modernidade teria assim desaparecido por completo.
Sendo a sociedade tradicional, na Europa o Antigo Regime anterior ao
Estado constitucional, justamente fundado sobre a premissa de redução
do sujeito à sociedade.
Já
o curioso
na tese de Althusser, visando refutar a inversão de Hegel por Marx,
a partir do que seria uma ausência cabal de relações assinaláveis,
é pois que mesmo o declarado positivismo de Marx não é considerado
inversão de Hegel.
Quando
se trata do outro artigo de Pour Marx, em que se designam as fases da
carreira
deste,
Feuerbach
é o titular influente da segunda fase,
entre
1842 e 1845. Não há necessidade de pensar na inversão de Hegel,
tão clara nele, porque Althusser
enuncia
que essa fase é apenas um outro modo de continuar com o humanismo
típico da primeira. Esta,
como vimos, Althusser atribuiu à influência de Kant e Fichte, por
onde a crença na racionalidade do Estado e na comunidade racional da
imprensa. A
segunda fase viria pela
decepção da época, a monarquia constitucional tendo virado um
despotismo.
Essa decepção não
é por Althusser assumida pelos jovens hegelianos - que todos sabemos
serem Marx e Feuerbach.
Althusser registra apenas
"jovens radicais da época", e o que se seguiu foi uma
mudança na concepção de Estado, que já não erra apenas por
acidente, e sim pela "contradição real entre sua essência
(razão) e sua existência (desrazão)".
Althusser considera pois que desde aí, a
ação política contra o Estado se
tornou
a reapropriação da essência do homem.
Ao
mesmo tempo o veículo do progresso sendo esse trabalho do negativo
representado pela opressão de classe estatal, porém Althusser não
se exprime nesses termos dialéicos
hegelianos.
Ele reporta apenas o objetivo de união da filosofia e do
proletariado, como teoria que diz o que o proletariado é, e o
proletariado assim informado sobre si que se torna a prática armada
da filosofia. A revolução é não apenas política, mas humana.
Após 1945, Marx se torna Marx, a ciência que rompe com todo
humanismo. Assim
Althusser não equaciona aqui a síntese do humanismo por Rancière,
que como o vimos o localiza em Hegel, a partir do postulado de um
motor da história como essência humana, que porém se serviria das
subjetividades particulares e não se confundiria com elas.
Mais
uma vez, nenhum traço de modernidade. Nada que detecte a assunção
por Hegel, do Estado constitucional como o momento do saber absoluto
que é o da autoconsciência como
a dos sujeitos
(para si)
particulares,
aqueles que se tornaram o referencial das leis do Estado, que
por isso veio
a ser o da legalidade.
O
que se pode ler
na tese althusseriana
dos
Aparelhos Ideológicos de Estado, é
justamente que ela é a atribuição à natureza da subjetividade
daquilo que não apenas tem sua causa na objetividade, mas da relação
entre ambos como o que está distorcido. Ou seja, não
apenas porque se sonha uma vez que se desconhece, mas porque se
deseja
aquilo que se designa o poder estatal apropriado para a consecução
desse desejo, ao contrário do que se designa por Estado da
legalidade.
Mas
o que se poderia objetar a essa tese, é que não
existe um modo de se colocar um campo transcendental da história,
na objetividade
exterior
à consciência,
que
não seja positivismo.
Um círculo epistemológico nítido, porém irrefletido, pelo qual
algo é dado como objetivo na acepção de dado fenomenicamente
explicativo, porém sem que possa explicar-se a si mesmo nesse
estatuto de ser dado.
Círculo que reconhecemos na definição, como origem da mais-valia,
do que é apenas o mecanismo,
a lei seu funcionamento
enquanto modo de podução capitalista, uma
vez surgido na efetividade, da
qual decorre a apropriação de um capital constante por parte de
certos agentes da produção
que assim
destituem a coletividade de sua posse.
Ora,
é óbvio que não basta a designada burguesia como oposto do
proletariado por ela oprimido, assumir que de fato está oprimindo e
que isso decorre do ser natural das coisas, a luta pela vida
que premia os fortes,
de modo que é essa a lógica da sobrevivência da espécie,
dependente da
conservação de
um
nível abundante
da
força,
para que se levante a objeção contra ela como sujeito de um
discurso ideológico.
Não
vamos dizer que isso não é ideologia,
e na verdade é a essência do spencerismo que, como doutrina
econômica, nada tem de diverso do neoliberalismo de Friedman.
Assim
como este, não
é antitético à prática de cartel, representação melhor a
concentração da força do que a livre concorrência.
Mas
se consideramos não ideológico
o objetivo da tomada do poder estatal pelo proletariado, se esse
objetivo é o de suprimir assim que possível o aparelhamento estatal
da força
dominante
de um grupo sobre outro, como da burguesia
sobre o proletariado, onde vamos
encontrar
a origem dessa
concepção, se não a supomos ideológica por atribui-la como
universal
do ser humano,
e não como interesse de uma classe alternativa como sujeito da
dominação de
outrem? De que modo não é essa universalidade atribuída como a
moralidade da nossa consciência, isto é, da nossa subjetividade?
A
tese do
Marx positivista,
como tese
da objetividade,
respondia a isso
do mesmo modo que me parece ser o que o Lire le capital defende. Por
um lado, poderíamos interpretar que o Lire le capital não escapa ao
círculo fenomenológico, como posição explicitamente
conceitualista do modo de produção em Marx. Mais
profundamente porém, a questão material da ideologia
- quem domina?
- pressiona a uma solução no âmbito da história. A posição
conceitualista radical do Lire le capital fica,
porém, propositadamene
fora
da história
assim como vimos na tese dos Aparelhos Ideológicos de Estado, ou
seja, como uma posição transcendental. Mas
pretendendo-se não subjetivista, esse conceitualismo redunda na
justificação positivista da crítica da ideologia.
Não
é que não seja uma questão de consciência, mas sim que esta não
explica e
bem inversamene é a que
deve ser explicada.
E
o
que podemos objetar é somente que não sabemos como
se a explica, de modo a não estar já nela mesma.
A
clínica psicanalítica não é com
o
que conta Marx, e mesmo assim
conforme Althsusser,
ele fez a crítica científica, mesmo não tendo feito a teoria
geral. Contudo, não parece que o Lire le capital negue que o fez
quanto à ideologia.
Em
todo caso, a explicação de Marx não seria
estranha à de Freud, enquanto objetiva.
Consiste em atribuir ao capitalismo como um dado de fato da
exploração, a elevação da exploração à racionalidade, ou seja,
cingir-se a si mesma enquanto tal. Assim que isso é feito,
iluminou-se a verdade da coisa, explicitamente.
Eis o fim da ideologia como possibilidade da ciência da exploração
da força do trabalho. Que Althusser fale em continentes ideológicos
que a ciência poderá despojar dos antigos ocupantes, não é uma
metáfora, ao menos pelo sentido esclarecido do Lire le capital. Tudo
o que não é capitalismo, moderno-ocidental, é a ideologia do
próprio modo de produção, ao contrário do capitalismo, não
cedendo portanto a autoconsciência dos agentes
enquanto não-sujeitos.
Mas
por causa do seu interesse, a
burguesia é ao
mesmo tempo agente
da auto-conscientização da universalidade, e inconsciente, fugindo
a ela pela ideologia que sanciona sua posição de classe (não
universal). Ora,
o capitalismo, esse agente de um imperialismo elevado a meio da
evolução da consciência, é nele
mesmo,
ao mesmo tempo,
a
exploração de classe. O que ele põe enquanto dado não é o
universal. É
a burguesia enquanto lógica de classe, segregação apropriadora dos
meios de produção. Marx
localiza a contradição na economia clássica, segundo o Lire le
capital, na medida em que ela
localiza a geração do valor no trabalho, mas ao mesmo tempo define
o trabalho como mercadoria entre outras, dotado pois de um valor
entre outros. Contudo, se a contradição é sintoma do que o
capitalista não pode ter consciência assim como do próprio fim
inscrito na condição de produção, o fim como lei científica
determinada, decorre,
sim,
da exacerbação da concorrencia.
O que já aconteceu, uma vez que uma lógica de classe burguesa que
não fosse do indvíduo mas corporativa, é o contrário do
capitalismo segundo Marx, porém o modo pelo qual o capitalismo
continuou a existir após a derrocada da unfair competition, modo
possibilitado porém, na forma de cartel, pela prática já
corporativa da alocação de mercados pelo favor de governo, como já
estudamos.
É só como contingência histórica que
o fim do capitalismo
poderá decorrer por outro meio
que não o que já não pode vir a ocorrer, como exacerbação da
concoerrência,
esse
outro meio sendo a
revolta do proletariado progressivamente depauperado. Porém,
independente do reconhecimento como fato histórico da incorporação
do proletariado ao way of life burguês, ao menos em países centrais
como equacionou Lucien Goldman,
nada disso explica porque o proletariado é a classe universal, e sua
revolta seria a evolução da humanidade a um estágio
da consciência
acima da dialética de interesse e ideologia.
Os
outros modos de produção, designados pré-capitalistas, não
tinham a lei do fim inscrita justamente pela liberação da produção
relativamente à ideologia - os produtores eram ideologicamente
protegidos por aparatos de oligarquização tradicional, não
concorrencial, da classe exploradora. É
o fundamento do cartel, porém "racional" e não
ideológico, descontando a circunstância do nazi-fascismo
tradicionalista.
Mas
por isso mesmo os
modos de produção tradicionais
eram situáveis de um lado de lá da racionalidade relativamente
ao capitalismo
-
por uma teoria que
assim como
Marx não antecipa de maneira
alguma
o capitalismo de carteis, por ser axiomaticamente definida
a racionalidade capitalística
como evolução
histórica da livre
iniciativa do sujeito individual. A
explicação do vir a ser da autoconsciência na modernidade
pelo modo de produção,
e
não o contrário,
a
evolução do sujeito individual explicando a livre iniciativa. Se
alguma vez Marx posicionou de outro modo, então não há meio de
separar marxismo e humanismo, e vimos que para Rancière este é o
modelo hegeliano
importado pelo jovem Marx. Não
obstante supor aí que a evolução é da humanidade servindo-se do
sujeito individual,
em todo caso tudo ao contrário de O Capital.
Esse
problema do
caráter abstrato da consciência universal do proletariado, não foi
reolvido, já
estando
amplamente reconhecido
mesmo no retorno positivista da teoria marxista após o humanismo,
que a tornou solidária à fenomenologia. Aqui a teoria do
inconsciente surgiu a princípio como o meio termo necessário, mas
de fato a teoria
freudiana
é "burguesa", não tem qualquer
objetivo revolucionário. Ela parece ter sido tão
útil
por ser portadora de uma explicação da subjetividade
enquanto
correlato da episteme objetiva
que
ela mesma esperava ser, mas assim ela é um corolário antropológico
do
imperialismo. Minha
posição da defasagem difere pois basicamente da de Elizabeth
Roudinesco, para quem o problema aí é que a psicanálise não tem
qualquer relação com a teoria social.
Pelo
lado do marxismo, vimos que o conceitualismo althusseriano não
deixou de ser positivista por sua insurgência radical à
premissa subjetivista de todo conceitualismo coerente.
A psicanálise tornou-se a homologia do conceito, de modo que a
posição conceitual de elementos básicos, seria anterior à
consciência comum
que
só pode lidar com o efeito totalizante da combinação
seja esta qual for, e assim a consciência comum não é una, mas
correlatos de fases de desenvolvimento.
Mas não se compreende como o inconsciente do modo de produção, em
termos desses elementos básicos, foi
obtido de modo não "consciente".
Esse
problema
é de fato homólogo à psicanálise, e o motivo pelo qual a
compreendo como uma teoria transcendental da cultura. Nela
a resposta é aparentemente mais fácil, pois se trata do inferido na
escuta clínica, não introspecção. Mas não há clínica do modo
de produção. O que Marx hauriu de sua crítica ao discurso da
economia política, foi, pois, apenas a irracionalidade - e isso é
nominalmente explícito por
Jacques Rancière no
Lire le capital:
“a
posição de uma relação impossível que dissimula a relação
verdadeiramente determinante”
é como Marx designa uma "expressão irracional'"
(
op. cit. p. 147).
Mas
assim como o
referencial da
escuta psicanalítica não
expressa obviamente o
desenvolvimento social, sendo
a homologia de fases subjetiva
e social em
termos de animismo tribal
narcisista
entre a oralidade e a esquizofrenia,
totem religioso imperial
sádico
e fálico, cientificidade constitucional
angustiosa-genital, um
pressuposto
metodológico, daquilo
que se constata como a irracionalidade da
produção capitalista
não se poderia haurir o
desenvolvimento racional
equivalente à consciência do sujeito epistêmico moderno-ocidental.
E
que o constatado aí é,
ao
contrário, o irracional,
é o que expõe Rancière comparando Marx e Proudhon a propósito. Em
Proudhon, a irracionalidade
da defasagem
do valor do trabalho a si mesmo como fonte do valor,
é interpretada como sendo o valor de trabalho apenas
uma
"expressão
figurada"
em
uso na
teoria econômica. Em Marx, inversamente, a expressão é
"irracional",
mas a condição de
"expressões
irracionais"
é
que "tem sua fonte nas relações de produção elas mesmas.
São categorias que exprimem formas de aparição de relações
essenciais",
conforma a citação de Rancière.
A
razão da irracionalidade é pois a exploração, porém assim, se a
exploração se tornou explicitável, o que ela explicita é somente
ela mesma. Nada
além dos interesses dos sujeitos envolvidos no conflito social. Como
a consciência
do explorado se faz universal? Como
o capitalismo se faz evolução e
razão
da consciência universal?
A
temática do
althusserianismo propriamente,
entre os dois textos que visamos a propósito do objeto científico
enquanto componente da teoria do conhecimento,
de Althusser e Rancière,
responde
como a amplição
que se tornou necessária, do
horizonte problemático.
Já não se trata
do que o capitalismo faz ver, mas de como Marx o pode reduzir a
objeto de ciência
e assim o viu.
Ora, o problema é propriamente filosófico. Ele
é o da consciência, como vimos, enquanto por si mesma, desde Hegel,
já nao considerável comum, mas relativa ao seu desenvolvimento
assim como ao seu interesse posicionado na intersubjetividade
dialética da dominação do senhorio sobre o escravo. O
desenvolvimento em Hegel é função da consciência historicizada do
escravo.
A
consciência desenvolvida de Hegel é a do escravo, mas o que ela
liberta, ao libertar-se é a
autoconsciência enquanto humana, o
reconhecimento da realidade de si como
subjetividade. Esta
explica, não é explicável, e se assim a episteme é um círculo,
não o é senão da consciência capaz de criticar algo como
irracionalidade, por um lado, e colocar algo mais como a inaceitável
iniquidade, por outro lado. Kant
já havia separado as razões
pura e prática, mas Hegel lida com esse problema pelo qual se
somente nossas ações portam teleologia, por que produziríamos
conhecimento puro
em vez de apenas o gozo do
signo?
A
resposta hegeliana
pós-kantiana é
pois que a consciência é esse suprasensível que porta entretanto
uma legitimidade do seu objeto, que a teleologia
é essa legitimidade enquanto realização da
consciência na supressão dos seus erros, tais
que resultavam apenas no desconhecimento de si enquanto sujeito, o
ser de suas relações humanas, que são em última instância
relações
sociais,
porém enquanto relações entre sujeitos.
Marx,
cujas
relações com Kant, conforme
Ranciére,
deveriam ser mais esclarecidas ao invés de apenas com Hegel, muda
a
seu ver o
kantismo.
O
kantismo
estabelece
(p. 139)
um corte tal que por um lado ficam o objeto , o sensível e o
fenômeno
(Gegenstandt,
Sinnlich, Erscheinnung); do outro lado, o superassensível e a
aparência como aquilo que pode ser enganoso (übersinnlich, Schein).
Marx
altera esse esquema, nisso
pelo que define o suprassensível não como o erro de projeção
abstrata da Razão, que o entendimento pode corrigir;
ou como a Razão em si mesma, em conformidade com suas faculdades a
priori entre as quais o entendimento. Em todo caso, como o que é
oposto ao sensível assim
como ao objeto.
Marx
situa numa sequência, em vez de um corte, o objeto e a forma de
aparição (Gegenstandt = Erscheinungform),
sobrepondo-se ao que aparece na linha inferior como o complexo
sensível-suprassensível (sinnlich-übersinnlich) ligado por uma
seta lateral às relações sociais (geselschaftlich), e por uma
seta descendente vertical à aparência ou fantasia (Schein). Aqui
explicando-se mais o que antes já havíamos assinalado. Marx
coloca,
segundo Rancière,
desse
modo, o
suprassensível em termos de
componente
do objeto, conceituado este
em
termos de sensível-suprassensível, tal que o suprassensível como
desconhecimento (méconnaissance) sensível são as relações
sociais (de produção).
Marx
assim
é
pré-kantiano.
Ele desfaz, segundo Rancière, o que Kant designou a sua própria
revolução copernicana da filosofia, ao centralizar o sujeito como
constituinte dos fenômenos. A "revolução anti-coperniciana de
Marx", é designável porém nos termos kantianos, para quem
Copérnico significa aquele que colocou algo outro na posição
central. Ela é estritamente coperniciana em sentido estrito,
confomre Rancière, enquanto puramente objetiva,
isto é, jamais tendo colocado o sujeito como constituinte central.
Porém
no mesmo trecho Ranciére designa "a relação do fenômeno ao
objeto transcendental = X"
como
o que de fato Marx
considerou seriamente:
"os fenômenos são as formas de aparição desse X ausente que
é a incógnita que resolve as equações.
Mas este X não é um objeto, é o que Marx chama uma relação
social".
E o que se designa aparência é justamente o objeto surgente como
simplesmente sensível, suas propriedades como se fossem naturais.
Agora,
pois, (p.
140) Marx
é
pós-kantiano, mas mantendo
Rancière
que "Assim a constituição dos objetos não pertencem a uma
subjetividade. O que pertence à subjetividade é a percepção. É a
cisão (l'écart) entre as condições da constituição dos objetos
e as condições de sua percepção que determina sua aparência".
Mas
se temos que o objeto transcendental =X não é um objeto, e
sim uma relação social,
de que modo o que ocorreu foi o deslocamento do sujeito do campo
transcendental, e inversamente, a instituição nele da pura
objetividade?
Uma relação social, na terminologia do Lire le capital, não é
intersubjetiva, se ela dispõe
os sujeitos, como apenas suportes (Träger) das posições
estruturais que a definem. Dela
os sujeitos são o efeito, não a causa, sendo a causalidade
estrutural social o modo de produção.
Porém é bastante singular a oposição de subjetividade e relação
social, de modo que a condição de efeito anula a subjetividade, mas
a causa é em todo caso relações
sociais.
O
positivismo
aí
é
nítido. As relações sociais, uma vez reduzidas a relações de
produção,
não ocorreu apenas uma mudança na concepção de sociedade, para
abarcar o conflito
social.
Mas uma mudança na concepção filosófico-antropológica, pela
qual a produção é a
economia da
técnica,
o homem o produto do meio, supondo-se
metodologicamente que há um número que mede o conhecimento
técnico,
este que determina todas as instâncias da formação social - o tipo
de família, de crença religiosa, de temperamento, em suma, o que o
positivismo designava a cultura em sinonímia com a "raça".
Aqui
estou considerando válido o testemunho de Engels sobre que Morgan
"descobriu de novo, e à sua maneira, a concepção materialista
da história - formulada por Marx quarenta anos antes - e, baseado
nela, chegou, contrapondo barbárie e civilização, aos mesmos
resultados essenciais de Marx". ("A origem da família, da
propriedade e do Estado", Rio de Janeiro, Civilização
brasilelira, 1974, p. 1)
Assim também é algo singular a afirmação de Althusser sobre que
Marx não tem uma teoria geral do Estado. Se
nesta concepção o Estado é explicado como a aparição da
propriedade na história, após a guerra dos sexos que determinou a
segregação da mulher pelo homem, para efeitos de procriação
patronal hereditária e não livre.
Porém
é
muito justo que a posição seja dita transcendental. Pois não
ultrapassa de modo algum a filosofia, isto é, uma posição a priori
que não pode portanto, se
não reconhece o seu próprio círculo,
evitar
uma das consequências dentre as já recenseadas
por Hanz Albert:
da
petição de princípio,
de
argumento interrompido pelo meio, da
regressão
ao infinito. Ao que acrescentei uma quarta, na
eventualidade de se ripostar pelo argumento da contradição
performativa, de modo a fazer ver que este recenseamento seria ele
próprio um transcendental. Pelo
que se considera o fato de não ser possível decidir entre os
transcendentais assim reassegurados, qual seria verdadeiramente o
transcendental - de Kant,
Husserl, Habermas, Apel, estrutural, etc.
Aqui
pois voltou a ser oportuno considerar dentre o que se designa
fenomenologia, qual e de quem. Husserl
de fato não dispõe um círculo, se este é o oposto de um
transcendental.
Ou
ao menos não,
se o seu operador da consciência não é o que ela reflete de sua
realidade enquanto o problema dela mesma, e sim apenas a
intencionalidade como o dado objetivo
e não conflitivo ou mutável, do seu correlato de experiência.
Isto,
inversamente, é o que fez Hegel.
Assim
o interesse da crítica geoegológica
na compreensão do hegelianismo.
Inversamente
a tudo a que procede como a modernidade, ele mesmo
não
a instaura como transcendental
da história, o
que equivale a observar que em Hegel a Ideia é ela própria a
historicidade, é Ideia do mundo ou que se faz mundo e se realiza
nesse devir. Assim
o seu enunciado como "teodicéia" repercute ao contrário
de tudo que poderia parecer - a teodicéia feita apenas história e
mundo coíbe o transcendental, não
o personifica.
Impede a projeção de
um fundamento acima do círculo do enunciado circunstancial, e,
assim, as questões históricas,
que se espraiam desde a filosofia da história e teoria da
modernidade, até as problematizações das ciências humanas, se
cingem à
colocação,
e à reflexão sobre o modo da colocação, da
materialidade das circunstâncias
que concretizam o que vem a ser pensado como fenômeno na
circularidade do que circunstancialmente afeta a "consciência"
histórica.
A
materialidade mesma está blindada contra um determinismo puramente
idealizado - e não há alternativa para o determinismo que ser
idealizado.
É por isso que um
dos interesses subjacentes à emergência da terminologia do
"inconsciente", é hoje em dia melhor servido por um
retorno da terminologia da consciência, que não é ingenuidade, do
que pela utilização de nomes que apenas ressoam a ideologia do
imperialismo transcendental.
Não
desmentimos que há nessa estrutura ideológica, inconsciente - nesse
sentido de um cegamento sintomático - mas sim que isso é algo tão
antigo
e simples
quanto o mecanismo de resíduos e derivações de Pareto, um
interesse óbvio de domínio
que se traveste de desinteresse em prol da verdade.
E, no
limite
pós-paretiano, a
exaustão das tentativas de manter
a limpidez do construto na fricção das descobertas que desmentem as
previsões
sobre o arcaico
reverte na assunção de
que não há tal verdade porém assim porque não há nenhuma e essa
é a verdade que liberta, porém com que ninguém atinaria por si
senão viesse o Ocidente
juramentado pelo nome do seu teórico moderno
-
ou pós-moderno, conforme se atribui a Stanley Fish - para
nos revelar.
A
alteregologia é a repetição do
nome
da teoria,
a senha de entrada na história, como Modernidade, de quem estava até
aí fora dela porque não sabia.
Uma
vez que também esse dispositivo já foi quebrado, destino
de tudo que é mero dispositivo, hoje
em dia o saber ocidental já não está na condição de inteiramente
partilhável como repetível. A reserva do Saber é outra coisa. Mas
não é a mesma?
Com
ela se conseguiu
algo
melhor do que uma linha do sub-desenvolvimento virtual, uma atual.
Porém o que significa, se não a imposição por via das armas, da
mesma importação do saber disponível, com a mesma condição de
anular o que se tem nesse estatuto, e quanto ao não disponível,
esse é o que produz o que se deve importar apenas como produto. A
destruição das agências
de
desenvolvimento real, isto é, efetivamente localizadas, continua a
mesma, como o que define a revolução industrial no centro, a saber,
a contra-revolução industrial que ela
promove
a custa de armas
e testas de ferro de status local,
na margem, e, assim, criando-se a maravilhosa oposição
centro-margem,
moderno-arcaico.
Na
globalização o alter-ego do centro não precisa saber a teoria, não
reproduz o teórico, precisa apenas se identificar com os ídolos da
televisão
reproduzidos na internet,
esgrimindo a sério, como antes se fazia em prol de uma teoria que se
pretendia impor a um departamento universitário inteiro, que é
nerd, que não se deve criticar o seriado do nerd, que se identifica
tanto com o nerd - e quem critica é um só, os que defendem são
todos,
a amostra sendo de professores universitários. Ao
professor
"estadual"
que chamou o seriado nerd de estereótipo fascista, uma chusma de
outros
"federais"
respondeu indignado que chamar algo de fascista é condenar algo de
antemão. Outrossim,
a mesma turma
que não teve salários atrasados porque são do departamento do
temmer,
conhece muito bem um grupo de fascistas assumidos, que está
organizado em revistas e programas dirigidos ao público, sem
que ninguém os condene, etc.
Não
vamos a ponto de dizer que, do mesmo modo
que a geoegologia cria as oposições de centro e margem, moderno e
arcaico, também a de
normal-patológico. Pelo contrário,
a
teratologia ocidental é que já existia antes, daquilo que se
utiliza para a composição da oposição requerida pela forma. Se
Freud ouve uma mulher adulta dizer que sua mãe tem falo, mas ela
não, ele não pensa imediatamente que essa mulher é um espanto. Se
ela é anormal porque
o
diz,
é que
o primitivo é a normalidade porque
o pensa.
Apenas
essa normalidade precisa ser recalcada, para que haja história e
ninguém já o venha dizer.
Se
não há explicação além da
história,
esse caráter circular da explicação que ela preside é o do
próprio fenômeno, que assim se furta ao círculo não assumido que
é o transcendental kantiano, determinismo
racional da causa inteiramente fundada,
posicionado
portanto
ao invés
de Hegel
como lógica não dialética.
Porém
o fenomenismo, feito circular, coloca algo mais como o sujeito que
circula. Não há abstração geométrica, a coincidência de
princípios e fins somos nós mesmos, e o que há para pensar é como
pensamos.
O
próprio Althusser resume a
regressão kantiana da filosofia após Hegel, nesse sentido de uma
continuada perquirição do transcendental contudo já
historicizado, o Ocidente que já não é apenas como veio a ser em
termos de sujeito de enunciação do devir, mas como dever
ser acima da história, Razão em si e não para-si
- Geo-ego-logia, com o detalhe incômodo de uma sempiterna ladainha
contra o sujeito do desconhecimento apenas dessa
subjetividade.
Se
não consideramos que o althusseriano processo sem sujeito escapa de
ser essa ladainha, vemos que na sua teoria geral da ideologia o
resumo da história do transcendental na modernidade é feito com
total ingenuidade e credulidade: "...
nossa proposição de que a ideologia não tem história pode e
deve...
ser
diretamente relacionado com a proposição freudiana de que o
inconciente é eterno, isto é, não tem história.". Agora, o
fervor do crente: "Ser eterno não significa
transcendente a toda a história (temporal),
mas oni-presente, trans-histórico, e portanto imutável em sua forma
em toda a extensão da história, adotarei a expressão de Freud
palavra por palavra e escreverei: a ideologia é eterna, exatamente
como o inconsciente. E acrescento que julgo essa comparação
teoricamente fundada pelo fato de que a eternidade do inconsciente
guarda alguma relação com a eternidade da ideologia em geral."
("Ideologia e aparelhos... op. cit. p. 125).
A
althusseriana
teoria geral da ideologia
é com efeito uma teoria do sujeito,
que o limita na efetividade histórica a função do fascismo,
imaginação do Outro personificado-personificante que, como o deus
do aparelho religioso, interpela um eu na delimitação imperativa
de sua identidade - és Pedro ou João, és apóstolo da igreja
com esta ou aquela missão. Os aparelhos de Estado transcendem assim
a teoria do Estado como apenas o aparelho repressivo,
para abranger todas as instituições socializantes.
Althusser
pôde ainda pensar que a educação era o "aparelho"
principal da atualidade - hoje em dia existe o business
info-midiático nessa pretensão, mas em plenos anos setenta já não
se o sabia? É incrível como o pós-estruturalismo nunca suspeita
dele, não obstante já existir o "Empire
Americaine"
de Cl. Julien e o "The
Powers that be",
de David Halberstam. Coisa de americano, ripostaram os Arons da vida.
No
Figaro
como
na França,
com exceção de um ou dois itens de eleição do dono do jornal,
fala-se do que se quiser. Contudo,
ninguém ignora hoje em dia a magnitude do problema. Vale deter-nos
algo a propósito.
///
É
algo oportuno hoje lembrar que
quando já não se pode pensar de outra maneira quanto à seriedade
da posição do business info-midiático nesse papel
de principal "aparelho ideológico"
mundial,
é porque o
papel mesmo
veio a ser construído pelo business como articulação
mídia/executivo, ao longo de todo o século XX,
até estar plenificado como sistema na era Nixon, o
que
demonstrei em estudo especialmente dedicado (blog "A escalada do
império").
Ao
longo do século XX com inícios na década de noventa do século
XIX, ressalva importante porque toda a articulação coincide em
nível de planejamento com a injunção imperialista dos USS,
projetada portanto desde os clãs oligárquicos cujo capital foi
compor o business de mídia,
e não primeiramente em nível de Estado.
Bem
pelo contrário,
a
atuação foi ilegal em grande medida, o que sobrou foi penetração,
por outros meios, nos esquemas de Estado de modo a solapar do mesmo
modo a livre deliberação democrática do executivo, e a neutralizar
o peso político do legislativo.
Os
presidentes foram sistematicamente coordenados pelas estratégias do
business, independente muitas vezes de sua decisão pessoal, como o
próprio Julien mostrou em
exemplos de resistência
presidencial ao curso imperialista do Estado, desde
a transição ao século XX até a altura de 1945,
uma tensão que Halberstam documentou em nível de documentação
biográrica. Similarmente, os
honestos e talentosos profissionais da midia,
com exceção dos que se submetiam totalmente,
foram de
modo sistemático
sabotados
pelo patronato organizador das mensagens.
A censura mais rigorosa, protagonizada desde
o editor de jornal ao diretor de rádio e televisão, foi o pão
cotidiano do público norte-americano, em nível não só de oclusão
da informação como de positivo falseamento dela.
Após
1945, deveríamos lembrar hoje que um período com fisionomia própria
já está delineado, culminando na dessovietização. Porém esse
período em
termos mundiais não poderíamos compreender como função da
performance do comunismo, da ascenção à queda. O período é
o cenário bélico da
descolonização,
que abrange os movimentos anti-imperialistas nos demais pontos do
terceiro mundo além de Ásia e África propriamente. E que esse
cenário é o fenômeno que define o período pode ser demonstrado
por isso que é
nele que se concretiza a guerra fria, designação geral do
enfrentamento bipolar dos mundos capitalista e comunista.
Assim
os USA que depois de 1945 já exibiam uma integração maior da
articulação mídia/executivo, já estavam atuando não
solitariamente, mas em conjunção à Europa como antagonista da
descolonização na guerra,
de modo a determinar o futuro dos acontecimentos, o status
geopolítico de cada país independente que dela emergisse. Ou seja,
assegurar a vigência do imperialismo capitalista, confrontando a
possibilidade alternativa de um imperialismo soviético
de tipo comunista.
Entre ambos, não havia um objetivo não geoegológico envolvido.
A
atuação dos USA envolveu a estratégia da qual emergiu o
capitalismo asiático, e a ajuda norte-americana com base na política
do cordão sanitário de Truman explica a posição atual do Japão,
mas também se pode afirmar que só se delineou factualmente numa
aliança com a expansão da indústria europeia.
A
globalização como cenário atual, tendo inícios nos anos noventa
do século passado, tem ostentado o terrorismo como o capítulo
seguinte da guerra fria imperialista. A
atualidade, em que está havendo a troca em nível de governo, da
representação que por um longo tempo tem sido a de um partido
constante como esquerda porém na realidade apenas promotor do
neoliberalismo econômico, demagogia e corrupção generalizadas,
renovou
muito paradoxalmente as nossas esperanças de
um retorno da legalidade.
Nas
eleições presidenciais estadunidenses, enquanto o partido contrário
declarava na imprensa apoio à assim
designada ditadura
do proletariado petista, que sofria impeachment por corrupção
comprovada
num meio de opressão de atendimento e extorsão monetária
generalizada,
após
o meu citado estudo, de 2015, eu mesma exultei com a eleição do
republicano Donald Trump.
Com
a eleição de Macron na França, também, podemos considerar que
está havendo
uma representação que escapa à reação da extrema-direita, na
circunstância atual do terrorismo, porém
não comprometida com o fracasso da esquerda,
e é sintomático que o discurso da mídia não se mostrou
a princípio
inteiramente favorável a
essa representação.
Podemos
designar portanto, um "momento"
da esquerda
como o cenário histórico inicial da globalização, que a eleição
de Trump
superou
historicamente. Estamos em um novo momento, e se torna necessário
refletir sobre o sentido do que passou.
Se
o que designamos "momento da esquerda" como o cenário de
total reversão dos valores políticos, foi imediatamente precedido
pela emergência da retórica da "pós-modernidade",
vemos que a esquerda que historicamente introduziu a globalização,
não foi obviamente a que estava sendo deposta na Russia, mas sim a
que estava se compondo com o Estado capitalista, tanto na América do
Norte como aqui e em outros lugares,
protagonizada por expoentes diretamente ligados àquela emergência.
Essa
é porém uma asserção problemática, dado que o pós-moderno não
foi a princípio considerado como esquerda, entretanto
sendo
o que se considerava estar acontecendo
como invalidação rápida
do sovieticismo. Se
o que hoje podemos observar é a alternância das esquerdas na
balança do poder, saindo a
Leste,
entrando a
Oeste, também
vimos que as esquerdas ora superadas que entraram não representaram
nem mesmo a problemática que envolve o terrorismo
como o contraponto contestatório da globalização recolonizadora
neoescravista.
Na
verdade ninguém o representa, na
qualidade de protagonista da única contestação
política de
hoje,
que
nesse status não pode deixar de ser a que se caracteriza como
problemática do terceiro mundo,
isto é, relacionada sem mediação à história da colonização.
Assumir
essa evidência não significa ser terrorista, mas cortar
a insidiosa falsificação que trafega como único discurso a
propósito, sem qualquer sentido além de mero estereótipo
preconceituoso, que não vai resolver o problema, apenas contribuir
para a neurose social do imperialismo, hoje em nível de mecanização
da regressão psíquica como dominação tecnológica
info-midiática.
O
vácuo da esquerda globalizada, não politicamente representativa,
não significa porém que ela tenha sido o ponto pacífico da
história, que revelou apenas ineficiência ali onde são
requeridas ação e decisão. O
que decorreu como corrupção generalizada foi de fato o que ela fez,
porém em termos de sociedade, localmente temos testemunhado
resultar
um outro tipo de terrorismo, não político, não suportado
por um discurso histórico,
mas sim
protagonizado pelo crime organizado,
e que acarretou a
reconfiguração urbana.
Hoje
a "cidade" aqui é um conjunto de "comunidades"
(favelas)
independentes, regidas pelo crime organizado, impondo cada comando a
sua própria lei, não
ajustadas entre si mas potencialmente rivais, independente
da malha de habitação legalizada, onde se
perpetua
como pode o aparato constitucional.
Sempre
menor o território não favelizado, naquele o comando do crime
organizado local convive apenas com os aparatos religiosos
populistas, amiúde relacionados aos grupos corruptos de domínio
eleitoreiro
- que obviamente mantem ligação com a geografia
dos comandos.
A
intervenção do poder público armado ocorre apenas em casos de
guerras de comandos, cuja violência costuma se alastrar à região
da malha legalizada, o que é frequente.
A administração da fronteira, entre a malha legalizada e as
"comunidades", é feita por "milícias"
para-militares,
assim sem controle da legalidade.
O
pós-moderno como um repertório de controvérsia teórica que
emergiu nos anos oitenta, tem sido um meio de propagação ideológica
que podemos reconhecer como nódulos do tipo de mentalidade dita
de
esquerda que se coadunou com este resultado da reconfiguração
urbana. Um
continuum
discursivo
info-midiático que une pelo
consenso passional
da
autoridade de grupo, classe
média e
lumpesinato
- embora não sejam os mesmos grupos.
A
retórica do pós-modernismo desembocou num indesejável consenso de
substituição do ético pelo político, como
estabilização subsequente ao primeiro estado da teoria. Entre
esse resultado e o estado inicial,
algo em comum foi a desestabilização da legalidade como o
referencial do
que se devia desejar. O equacionamento do viés imperialista da
retórica da modernidade, foi feito de modo indevido, portanto. Isto
é, sem sair do a priori da modernidade
pelo
qual a legalidade é
o
Ocidente industrial, que se tornou agora
o
suporte de todos os males, do machismo ao racismo
e à ignorância da ecologia,
quando antes o era de todos os bens, da constituição à ciência e
à indústria da fartura
para todos.
Ou
seja, por um viés perfeitamente absurdo, a ampliação do horizonte
da denúncia,
além da classe também de gênero e cultura, resultou
na incompatibilização da
denúncia
com a legalidade como o perfeitamente exterior a si. Cada grupo
tornou-se "legitimado" em sua pretensão crítica, por uma
fantasia de si como outro transcendental, outro originário ético,
da
consciência encarnada, etc.
A
posição "modernista" do proletariado teve até aí o
"mérito" de desviar essa consequência "anarquista",
porque mesmo sendo uma propaganda anti-estatal, preconizava-se porém
como objetividade universal.
O
poder estatal devia pois ser tomado, para a partir dele construir a
sociedade desestatizada definida como sociedade sem classes. Já
vimos
o caráter ideológico imperialista desse procedimento, assim não
surpreende a trajetória que aportou no contrário do
universal como objetivo da esquerda, porém concretizado no avesso da
inteligência, pela infeliz redução da universidade a veículo de
projetos de desletramento total das escolas, que passariam a servir
de veículo de produtos de mass midia, grupos supostamente
"originários" e religião, todos os tres compactados por
um mesmo a priori de linguagem limitada ao modelo de cartilha
- frases limitadas a sujeito, verbo e objeto, com vocabulário
reduzido ao extremo, e nenhuma mensagem que destoe do consenso de
grupo ou que soe como algo que não comando de consenso.
Assim
também a cartilha é realmente manual de comportamento de grupo -
se a info-midiática faz apartheid da terceira idade, a "cartilha
do idoso" publicado em nome da uerj na internet, é única
alternativa circulando.
Se
conhecemos porém o que era o projeto anterior, da esquerda
universalizante,
compreendemos que um
resultado contrário
em nível de esquerda seria
bem vindo e esperável.
Tenho o projeto de um segundo livro do "Escalada..." que
cobriria a manipulação censória da mídia pelos projetos da
esquerda
histórica, geralmente marxista.
Cobri algo a propósito
em meu "O pós-moderno: poder, linguagem e história"(Rio
de Janeiro, Litteris Ed.:Quártica,
2012, p. 62),
reportando
um artigo da esquerda histórica em que "todos
os meios de comunicação
e todas as vantagens da tecnologia"
eram
conclamados
para - nada menos que -
extirpar "uma
perspectiva poética, literária e sonhadora",
da "nossa juventude"
que devia assim
"aprender a ser"
fabricada
como
personalidade
"exata,
firme e criteriosa".
O que significa nesse contexto, destinada a profissão de ciências
naturais e tecnológicas,
explicando-se a dependência econômica
local como um efeito da personalidade errada local.
Porém
se o
que se seguiu como contestação a esse monstruoso autoritarismo
de
esquerda foi
tão
deplorável,
já vimos que dele não difere em nada quanto à forma autoritária
do projeto,
apenas quanto ao conteúdo. Se
afeta a forma, é por um obscurantismo tão profundo que traduz
apenas o ódio tradicional do despotismo ao exercício livre do
pensamento, assim como aos produtos da inteligência.
O
que vimos nesse trecho autoriza deduzir, pois, que não
é seguro acreditar que as sociedades são fragmentadas em aparelhos
de Estado, com
um
principal que as define historicamente. Primeiro,
porque os aparelhos ideológicos não são redutíveis a instituições
de Estado,
pelo contrário, atuam de modo geral ilegalmente.
Mas
especialmente
porque se um aparelho ideológico pode ser visado como dominante,
é porque ele produziu esse resultado por meios não estatais, e de
fato o resultado em si não é compatível com a vigência
constitucional. Uma
dominância desse tipo não pode a priori ser estatal, pois
ela
teria
que estar acima
do Estado
para meramente poder concentrar em si o domínio.
Lembrando
aqui o fato indiscutível, porém sempre abstraído, de
que a redução do Estado constitucional à sociedade de classes pode
ter sido feita uma vez que o Estado que Marx
podia
ver era uma monarquia, onde a posição da nobreza e do príncipe
dela oriundo é legítima. Na democracia nenhuma classe separada é
legítima, assim
como nenhuma personificação do Estado é legítima, do
que a ninguém é facultado não sa ber, e
Marx
mesmo atuou
em prol da democracia. A sobreposição de conquista da democracia e
ditadura do proletariado como
estações obrigatórias na trajetória à sociedade sem classes não
é algo imediatamente compreensível em Marx, e
voltaremos a isso à frente. Mas desde já podemos observar que seus
intérpretes,
além da assim designada ortodoxia
sovietivista - que na prática pulou decisivamente a etapa da
democracia - se
cindiram entre a social-democracia, que dispensava
a ditadura, e o
anarquismo proletário
de
Sorel,
contra a democracia.
Quanto
a Sorel,
é verdade que em inícios do século passado o
projeto parlamentar como o modelo europeu de
democracia pudera
parecer um projeto de classe que excluía na prática
os mal vestidos,
ou seja, tratava o proletarido como
subalterno.
Não obstante já se expressava como um projeto em termos de
"democracia", ao contrário dos primeiros tempos do
capitalismo prussiano.
Porém
já não se trata desse cenário na época de produção do artigo de
Althusser. Pelo contrário, era
já o caso da mentalidade de compromisso social,
em que a subalternidade estava erradicada,
possivelmente associável à vigência do Welfare State,
o que não significa que se houvesse obtido a superação do
imperialismo.
O que descobrimos de lá até aqui é,
além disso, que a subalternidade não é um fenômeno redutível a
violência imposta "de cima para baixo", conforme a
oposição que ela cria, mas dentro dessa oposição, é o
que se reproduz "de baixo para cima". É
um caso comum leis anti-discriminação serem criadas para
encontrarem a resistência da sociedade, e não o contrário. A lei
anti-racismo estadunidense que previa a entrada de alunos negros nas
escolas comuns, foi tão rechaçada na California que o própro
governador anunciou o seu apoio aos motins contrários a ela, até
que o problema foi resolvido pelo envio de força militar federal ao
estado - conforme reporta Halberstam. Pelo
que sei, na França de inicios do século XX a adoção oficial da
escola única - aquilo que entre nós se designa escola pública -
foi amplamente rejeitada pela classe média.
A
meu ver o fenômeno
recente de booling e burneau pode ser interpretado como um
redirecionamento da oposição de subalternidade, quando as oposições
clássicas como de raça,
classe ou gênero já devem ter cedido por causa do tempo de vigência
de leis anti-discriminatórias. Uma
vez que esse fenômeno
é estruturado nas linguagens de business info-midiático, de
fato a viga mestra do seu discurso desde a Globalização, ele
é coordenado à ação contra o Estado movida pelo neoliberalismo
econômico.
E este
é o maior argumento contra a tese da ideologia estatista. O fato de
que o capitalismo não
deseja o Estado - compreensivelmente, se neste é que as leis de
proteção à cidadania podem existir.
Assim
na farsa das esquerdas coordenadas ao neoliberalismo econômico, o
que se implementou como globalização é -
ainda não foi desmontado - um
regime de extorsão monetária e opressão de atendimento cujo eixo
autoritário
é estruturado pelos postos "subalternos".
Estes
são
agrupados em cliques de funções que passam a utilizar
ditatorial
e fraudulentamente os
aparelhos
de atendimento
que penetram
na intimidade dos cidadãos.
Em
todo caso, ainda que muita pesquisa empírica fosse necessária aqui
para amparar o ponto de vista, é certo que a letra constitucional
que temos hoje não autoriza qualquer aparelhamento ideológico de
segregação de classe.
Não
atribui qualquer classe como identidade legítima da cidadania, que é
subjetiva.
Mentalidade
subjacente a programas de governo e modo de fazer valer a lei não se
confundem com a letra constitucional, assim como a população que a
esta ampara não se confunde com as levas sócio-apartheidistas.
Althusser
não distingue pois, Estado
constitucional,
governo
e
sociedade, tratando de modo extremamente simplista de uma unidade
inexistente.
Minha
crítica a Althusser não é pois que não haja uma instância
ideológica dominante, mas que ela não é - nem pode ser - a priori
da ciência social. Mas
a formulação desse a priori é o que vemos estar na base da
controvérsia althusseriana ao marxismo de base hegeliana. Vejamos
como se interligam esses tópicos, voltando ao exame do Pour Marx, em
que o materialismo
é o pivô da crítica à dialética de Hegel.
Pode-se
afirmar que basicamente Althusser não entende o Estado
constitucional, ou pelo menos não o entende enquanto relacionável à
filosofia de Hegel. Repetindo,
isso não é de todo culpa dele, já que entender a universalidade do
proletariado, em termos de legalidade, é algo difícil, e até mesmo
vemos que depois do positivismo, em que a técnica explicava tudo, já
não há um discurso sustentável além da tomada de poder soviético.
Sorel é um referencial importante, pois restando na via
revolucionária, insistia porém que da greve geral proletária que
poria fim ao Estado - como à segregação de classes - pela
violência, nada se poderia prever quanto ao futuro. Era inexequível
afirmar que estado de coisas se seguiria.
Porém
Althusser não se limita a desenvolver sua própria interpretação
do processo do proletariado, lacunar ou não. Sua questão filosófica
é polemicamente endereçada ao hegelianismo, como à doutrina do
Estado, um ponto que podemos explicar no bojo do que foi o princípio
das dores no movimento esquerdista. Ou seja, ao inverso da exigência
de aprofundamento do compromisso social do Welfare State, e ao invés
de uma vigilância sobre as garantias que assegurava, houve uma
retórica feroz de
princípio
contra ele - e é sintomático que nos textos dessa época, é
praticamente certo que onde se encontram citações estatísticas não
se segue essa via
contrária ao Welfare State,
e onde se segue essa via, a ausência de citação estatística se
traduz por ignorância crassa do que se afirma como fenômeno social
para fins de argumentação.
Como
a via fôra aberta por lideranças que assim alcançavam uma espécie
de estrelato, como Habermas e Foucault, não
é necessário prosseguir aqui o comentário. Porém apenas notar
como a posição de Althusser mostra-se frágil, já que ninguem que
daí se
tornou proeminente pronunciou-se
althusseriano. Mas
o marxismo mesmo era o que estava sendo colocado em segundo plano,
para efeitos de evidência de posições filosóficas - o "discurso"
em Foucault, a ética comunicativa em Habermas que informou grande
parte da nova esquerda à exemplo do sujeito encarnado anti-rawlsiano
de Seyla Benhabib, a Escritura derridiana, a "esquizoanálise"
guattari-deleuziana,
o Outro lévinasiano,
e extratos de ativismos relacionados a situações específicas de
gênero e etnia cujas origens são reportadas por exemplo no estudo
de Linda Hutcheon sobre o pós-moderno.
Em todos esses exemplos, o
anti-estatismo se converteu em anti-legalismo,
ou seja, todos são projetos de redução do político ao ético.
O que não é bem o que se poderia esperar de alguma posição que se
quisesse conservar marxista.
Na
atualidade,
o já citado
"Um
mapa da ideologia"
ostenta a última defesa que conheço do freudo-marxismo de extração
lacaniana que, como arcabouço da legalidade, foi o esteio do
althusserianismo. Porém os seus representantes ali, Jameson,
Eagleton e Zizeck, não são althusserianos propriamente
- obviamente além do próprio Althusser.
Mas
uma posição
antropológica
rigidamente
"progressista" já está transparente como desejo
imperialista, não tendo força de resposta àquelas opções que
podemos enfeixar como esquerda "nova".
Minha
tendência interpretativa de Um mapa da ideologia, salvo o
importantíssimo salto à frente de Stuart Hall reportado por Michèle
Barret, foi de que os artigos não representam ruptura importante
quanto ao quadro que acima delineei. E de que, quanto ao
freudo-marxismo, ele na verdade deve muito mais a Althusser do que
querem fazer crer os seus defensores mais recentes. Ora, o
que se torna complexo em Althusser é portanto
-
uma vez Althusser sendo esteio da esquerda "histórica" -
sua
polêmica contra Hegel.
Na
medida em que a relação Marx/Hegel vinha sendo bem ou mal o
referencial histórico da legalidade na teoria do proletariado.
A carta de politização do marxismo.
Mas
assim vemos que a legalidade em Hegel é o correlato da sua teoria do
Estado - algo que como constatamos, tem se mostrado esquecido na
retórica ética da
esquerda nova.
É de fato algo que não se pode ultrapassar enquanto a expressão
da legalidade
como
o reconhecimento dos direitos iguais enquanto pensado
a
realidade ontológica e existencial.
Esse
algo inultrapassável
não
significa o conteúdo do hegelianismo, mas a forma que ele
instaura
como
o caráter pensável da legalidade nesses termos. Ou
seja, a forma pela qual a legalidade só se torna pensável em
conexão com a liberdade, de um modo que torna a recíproca
verdadeira.
Em
outros termos, o político
- leia-se o universal -
é tão efetivo como a posição dos corpos no espaço.
Tão efetivo como essa geografia.
Que
Althusser não entende o
nexo de legalidade e Estado
em Hegel, podemos
apurar pelo
enunciado crucial do que Althusser pretende rejeitar.
Consta em "Contradição e Sobredeterminação", também do
Pour Marx:
"Para mostrar, com efeito, que a estrutura específica
da contradição marxista se fundamenta na concepção
da história marxista, é
preciso que se esteja seguro de que essa concepção não é pura e
simples 'inversão' da concepção hegeliana".
Em seguida ele esboça o fundamento dessa inversão
que
almeja derrubar. "Ora, é verdade que numa primeira aproximação
poder-se-ia
sustentar que Marx 'inverteu'
a concepção hegeliana da História. Mostremo-la rapidamente... Como
Marx já disse uma vintena de vezes, Hegel explica a vida material, a
história concreta dos povos, pela dialética da consciência
(consciência de si de um povo, a sua ideologia). Para Marx, ao
contrário, é a vida material dos homens que explica a sua história:
a sua consciência, as suas ideologias não sendo mais, então, do
que o fenômeno da sua
vida
material., Todas as aparências da 'inversão' estão bem reunidas
nessa exposição". (op. cit. p. 93)
Antes
de averiguar como Althusser procede o que considera suficiente para
desfazer tais aparências, o
notável aí é a distorção da dialética da consciência num
parêntesis cujo interior expõe a
definição da identidade.
A dialética da consciência é o Si de um povo, e o Si de um povo é
sua ideologia. Nada aí lembra a ideia da liberdade, em que o Si de
um povo expressa,
enquanto suas instituições de Estado, o grau
de desenvolvimento das
relações conflitivas senhor/escravo, conforme
a escala do desaparecimento do senhorio, ou
seja, o
limite da
efetividade política da dominação.
Nem
se equaciona que em Hegel, essa escala sendo a da consciência, o que
a mede é sua
tradução
em Saber
-
o
horizonte de sua proximidade a História como ciência,
e seu contexto, a autonomia das ciências empíricas.
E
não a ideologia.
A
fórmula geral do conflito se traduz
por
sua vez
em nível de consciência,
a
dessa verdade de que o senhorio é a ignorância da subjetividade
- de que o outro é sujeito assim como o próprio numa relação de
atribuição mútua.
Liberdade
política
é o correlato da
consciência da
Subjetividade.
O
"assim como" só põe a igualdade em nível político. A
substituição do poderio de um homem sobre outro
(s)
pela instituição
de um totem sobre todos, pelo qual o que tem poder é simbolizado,
não seria nada além do nível mais tosco do desenvolvimento, mas o
importante é que o desenvolvimento
segue-se
em todo caso,
como o movimento necessário
da
consciência.
Uma vez que o momento de instauração do senhorio, quando o escravo
foi subjugado pela força na luta, não decorre senão porque o
embate mesmo das consciências corresponde ao problema lógico, em
seu desenvolvimento como autoconsciência, posto pela alteridade
de consciência.
Não
decorre de qualquer necessidade puramente material ou instintiva. Não
decorre da lógica da produção, por exemplo.
Esse
problema da
consciência
não pode ser logicamente resolvido pelo modo como se tenta
inicialmente, a subjugação, justamente porque o escravo não é
supressão da alteridade, mas um modo alternativo da presença. O
conflito,
ao invés de terminar na vitória de um dos oponentes, encontrou um
modo de se perpetuar, porque é efeito da natureza mesma dos
oponentes
que é porém
s é dialética, não fixável.
Assim porque a natureza
deles
é em devir, a perpetuação do conflito se verá que é apenas um
outro modo de superação do mesmo conflito, na transformação do
devir em História e liberdade.
Uma
via inicial alternativa pela qual o senhor suprimiria o vencido, não
sendo possível,
porque a luta é pelo reconhecimento de si
como sujeito. Ou
seja, o que se desenvolve aqui já não é a representação,
a relação
do
sujeito com
os seus
objetos,
mas
o
reconhecimento
intersubjetivo,
a relação de um sujeito com outro sujeito.
O
que deve resultar categorialmente nesse
segundo momento do desenvolvimento não
são atributos predicativos do "sujeito" apenas
proposicional - que é qualquer. Mas sim leis como legitimidade de
direitos e deveres mútuos. A
expressão instituições de Estado é aí cabível porque se a lei é
o interpretante do desenvolvimento, as instituições são em que
elas são - ou não são - cumpridas.
A
representação é pois, livre conforme a heterogeneidade subjetiva,
se há constância, ela diz respeito ao interesse de um ser que não
veio do nada, mas pertence a uma espécie
e interage, interessado em manter sua vida, num meio ambiente.
Porém o reconhecimento é intersubjetivo, ele engendra
comportamentos prescritivos mútuos, e aquilo que se segue desse
conceito, as noções de norma e valor
- não no sentido heideggeriano condenatório de "preço",
mas de conveniente, belo e bom. O agathon não é platônico. Não
está acima das ideias porque não restam ideias de um tipo único.
A
história não se reduz
à letra
morta da lei, mas expressa uma constante da
consciência.
Primeiro que ela é dupla, representação e reconhecimento. Segundo
que entre ambos, ela é dupla também nisso pelo que não pode
transitar da capacidade de um à de outro, sem instaurar-se como um
estágio de si em que a transição
mesma
ela só pode conceber como empresa de redução do segundo ao
primeiro, do outro sujeito a um objeto seu.
Aristóteles,
o pai da escravatura, que nunca fez obra de ética e política senão
como ideologia do senhorio, o
expressa da forma a mais límpida. O escravo é instrumento do
senhor, e se ele é vivo,
então é para o senhor um animal de carga.
O senhor - cidadão grego não pobre - o é pela inteligência e
denodo com que conquista escravos orientais, que, portanto, estão
destinados pela natureza a serem
escravizados,
isto é, sendo "oriental" uma criatura lânguida, carente
de conceito.
Ao mesmo tempo a inteligência é universal, e só pertencente a uma
"raça",
a única que provou possui-la, pelo correlato da inteligência que
são a
Polis
e a filosofia. E Polis, a substância do político, é essa
consciência de si,
essencialmente filosófica, de
um governo como
instituição humana, ao contrário da passividade oriental ao
déspota como ao sobrenatural, etc.
A
insituição humana é ao mesmo tempo não sobre-natural e
meta-física, saber do "universal".
Minha
concepção da Grécia pensante e da democracia ateniense não a
reduz a Aristóteles, e devemos lembrar que junto a Platão ele
moveu, inversamente, a oposição aos sofistas
como a uma mentalidade típica da época da democracia. A convicção
sofística
atacada desde o platonismo, era a oposição physis-nomos,
natureza-cultura. Assim os sofistas não viam
as condições politicamente representadas - na letra da lei - como
naturais, mas como
produtos mutáveis da convenção, da cultura. Hegel tem em alto
preço a sofística, de um modo bastante irredutível a toda
filosofia tradicional que de Roma ao feudalismo cristção, se
concentrou na Europa em torno da metafísica platônica e
aristotélica.
Porém
na
interpretação
árabe
medieval
de
Aristóteles, parte de sua contradição entre physis e metaphysis
foi abstraída, de modo que os árabes pensavam a inteligência
universal sem condição de senhorio. Já
studamos,
no
blog inicial deste, com
E. Bloch,
como os árabes desde
Avicena naturalizaram
Aristóteles
no sentido das ciências empíricas, e como, na transformação da
noção aristotélica de potência
aí ocorrendo, o aristotelismo redefinido veio a ser importante na
Europa pós-feudal
como uma linha de continuidade da imanência, desde David de Dinant,
ainda no medievo, até Bruno, com ressonância em Spinoza e o
"naturmensch" iluminista. Eu mesma,
ali, desenvolvo a consequência da tese de Bloch no pós-kantismo,
que ele não referenciou.
É amplamente testemunhada. Porém o importante nessa minha
descoberta é o que ocorre em
Hegel.
A
transformação da noção de ato, de
um modo que se pode constatar por exemplo em Heidegger, no seu
Nietzsche 2, ao contrário do que ele parece pretender não é
original, pois expressa apenas o que é coerente a essa linha, e já
pode ser visto por exemplo no Bruno, de Schelling.
Mas
nessa
linha,
Hegel introduz
na história da filosofia a transformação capital da modernidade,
pois nele
não
se trata da potência ativa - paradoxo para o aristotelismo
tradicional,
o tomista
- em termos
da propriedade das coisas. Mas sim como ontologia da Ideia, essa nova
realidade do pensamento filosófico que é a "consciência".
A "potência" veio a ser pensada por Hegel exclusivamente
como cultura, isto é, "poder" na acepção infixável do
"político".
A
citação que vimos de Althusser, ignora pois o Saber na obra da
consciência, e como lugar da transição política. Ou seja,
oblitera que em Hegel, o segundo estágio da consciência, em que ela
compreende que o trânsito da representação ao reconhecimento não
pode ser
a redução deste àquele, é a consciência mesma do
escravo - a
primeira é a do senhorio. A primeira não se desenvolve, a segunda
só começa, pois, como desenvolvimento -
não como a ciência feita desde o início. O
escravo pode começar por querer ser senhor.
Em
Hegel, nenhum povo personifica o senhor ou o escravo. Todos são
visados por suas fórmulas políticas, seus regimes que expressam
momentos nesse desenvolvimento que culmina necessariamente
na maturação do reconhecimento, fim da dominação
como desaparição das condições de senhorio e escravidão,
qualquer que seja o modo dessas condições.
O
que significa essa necessidade, é algo irredutível a supor que
Hegel tenha querido fazer obra de profeta ou que fosse positivista.
Mas significa que ele interpretou o que assistiu como a transformação
efetiva da legalidade, na emergência do Estado constitucional
- antes, porém, da mudança do cenário da independência das
ex-colônias, para o do imperialismo industrial primeiro inglês e
logo depois, neocolonial.
A
partir daqui espero condensar a crítica de Althusser à luz do que
vimos.
///
Ao
longo desse trecho, acumulei propositadamente duas citações de
Althusser
que se estruturam do mesmo modo,
a
paródia
a tese da inversão de Hegel por Marx
servindo de prelúdio
à refutação dessa tese. Ambos os trechos são
referenciadas dos textos do "A favor de Marx", que se
ocupam das relações Marx/Hegel:
"Contradição e Sobredeterminação", e "Sobre a
dialética marxista". Em
nenhum deles é abordada a questão da dominação em Hegel.
Althusser
não procede qualquer
paralelismo da
dialética
hegeliana
do
senhor e do escravo, à
noção de luta de classes marxista. A
dialética hegeliana é tomada como um conceito puro do entendimento.
O segundo texto procede o ataque naquilo que seria a frente lógica
desse conceito, mas repete algo
do primeiro, que se concentra no contraste sociológico. Iniciarei
pela lógica.
Já
estudamos nesta "continuação", o que Althusser designou
"o paradoxo de Hegel", em seu pronunciamento
intitulado 'sobre a relação de Mar com Hegel",
no colóquio
Hyppolite
.
Ali ele afirma, como vimos, que a dialética hegeliana começa por
ser processo sem sujeito,
o funcionamento puro da Aufhebung vista como alienação,
mas retrocede dessa honrosa posição à
afirmação da subjetividade
porque reintrojeta a teleologia.
Não há tampouco aí menção ao sentido do sujeito em devir, que é
político. A
ênfase do paradoxo é a Lógica de Hegel, como origem
afirmada-negada,
do processo sem sujeito à reintrodução da teleologia.
Althusser
concede que poderia parecer que
o por ele
considerado
verdadeiro marxismo, o processo sem sujeito ou estrutura do Capital,
é
inversão de Hegel nisso que utiliza a afirmação da origem mas a
depura da negação. Destituindo o caráter paradoxal da lógica
hegeliana, o marxismo seria ainda a lógica dialética hegeliana. Mas
para Althusser isso seria apenas meia verdade, já que se pode
atribuir a Marx algo que já
não deve nada
a Hegel.
A
saber, as
relações imanentes à estrutura.
O
processo só existe submetido a determinadas relações: as relações
de produção e as político-ideológicas. Observei
que as relações de um processo, se é dito que o "submete",
são evidentemente
o
sujeito dele. Para Althusser, basta que elas não sejam teleológicas
para não haver
subjetividade inerente. Contudo isso mesmo é duvidoso, pois se trata
justamente de que na tese da inversão, está subjacente a noção
teleológica do motor da história. Assim
a negação dessa tese depende de uma petição de princípio pelo
qual se não há o motor da história em Marx
- a preconcepção da luta de classes como processo necessário
da
história -
é porque nele
o processo é sem sujeito.
Althusser
prosseguirá pois, ainda que numa linha estruturalista,
a posição já assumida pelo marxismo do século XX, que vimos por
exemplo em Ponty, de que Marx não colocou nenhuma "necessidade"
imperante na luta de classes, mas a enunciou como circunstância
coerente ao
modo de ser da História.
Posição
francamente ambígua. Vejamos o rastro dessa ambiguidade na restante
obra
crítica.
Já
em "Sobre a dialética materialista", não há paradoxo
algum
na
Lógica
de Hegel.
Althusser aí enuncia, inversamente, a objeção de que a Lógica não
parte de algo que poderia ser positivo, não fosse negado em seguida.
Ao contrário, ela se inicia por algo extremamente criticável como a
pura abstração do conteúdo.
O
que ressoa com o pronunciamento que estudamos é só a consideração
de que a
dialética de Marx
é processo submetido a relações de produção. Inversamente,
"ainda é necessário voltar a Hegel para mostrar que nele,
finalmente, as 'circunstâncias' ou as 'condições' também não
passam de fenômenos, portanto, evanescentes...". Estes
fenômenos não atingem nunca a necessidade que não a exteriorização
- ele dirá, "manifestações" - do movimento da Ideia. De
fato, não considera seriamente a Entausserung hegeliana. A seu ver,
trata-se "sob o pretexto da simplicidade que se desenvolve em
complexidade, de uma pura interioridade, cuja exterioridade não é
mais do que o fenômeno". (op. cit. p. 183) Mas o que significa
a restrição - não ser nada além de
fenômeno?
Como
nesse
estatuto
algo poderia ser anulado enquanto exterioridade? Até
aqui vimos que o crucial de toda essa problemática é justamente
especificar o que significa necessidade em Marx.
Nesse
trecho, o que Althusser coloca em contraste à evanescência
entretanto fenomênica hegeliana, é
o que designa "'o dado-sempre-já-dado' da existência do todo
complexo". Este todo complexo sendo o conjunto das relações
que submetem o que foi antes chamado processo, tanto relações de
produção como político-ideológicas, aqui trata-se
do "absoluto real" como as condições de existência que,
integrando a contradição entre forças de produção e relações
de produção,
abarcam
ainda organicamente a relação com a natureza. Essa
realidade simplesmente dada é pois o complexo estruturado pelos dois
tipos de relação, de produção e político-ideológica, cada um
deles por si estruturado em elementos tais
que o primeiro tem dominância sobre o segundo, mas mantendo-se que
ambos são formalmente independentes.
A
dominância relativa de que se trataria assim designou-se
'determinação em última
instância". Essa
famosa expressão
que todos associamos ao Lire le capital como cromo do século XX, na
verdade é de Engels,
conforme o próprio Althusser atribui, em Contradição e
Sobredeterminação. (p. 91)
De fato o texto de Engels citado em nota é uma confidência
autobiográfica de que, se nem ele nem Marx desejaram dar "mais
peso do que o necessário ao lado econômico", não obstante
serem disso responsabilizados, a culpa é parcialmente deles mesmos,
mas devido à circunstância da polêmica. Face aos adversários,
o principal era fazer ver "o princípio essencial negado por
eles", sem que tenha havido por
isso muita
ocasião oportuna de
conceder
a ênfase requerida aos "outros fatores
que participam da ação recíproca".
Mas
o que Althusser não tangencia aí é o uso que Engels e Marx fizeram
da "determinação
em última instância". O modo pelo qual as duas pontas do
processo foram considerados unidos. A tese da inversão
poderia muito bem
observar
o encadeamento morganiano dos
fatores político-ideológicos pelo determinismo do modo de produção
econômico, que era então entendido como nível
da divisão do trabalho em função do limite dos conhecimentos
técnicos.
Tipos de família, de
religião, de temperamento, seriam assim diretamente previsíveis
desde que se conhecesse o limite da técnica em qualquer sociedade -
o que a pesquisa in loco refutou cabalmente. Além
da revolução dos depauperados, ou da exacerbação da concorrência,
na "Ideologia Alemã" Marx e Engels também falaram da
supressão do capitalismo pela simples alteração do nível técnico
já obtido, de modo que o futuro seria o de um nível superior que já
não necessitaria monopolizar
funcionalmente o trabalhador. Assim um trabalhador faria o que
quisesse, atuaria em qualquer setor da produção num mesmo dia, ao
bel prazer. Esse seria o homem total, integralmente emancipado, na
consideração de Marx e Engels.
Como
veremos
a seguir com mais minúcia,
a "sobredeterminação" é o termo que Althusser utiliza
para a relação dialética entre base e superestrutura. Mas aqui é
oportuno manter o foco da crítica à
Lógica
de Hegel.
Ora,
não é a toa que
ao tratar da Lógica,
Althusser sempre
resvale à sociologia
-
que
ao longo do século XIX foi sempre uma filosofia da história ainda
que para isso valendo-se, no caso de Marx, da Economia política - a
qual, como ciência em geral era abominada por Comte.
A
célebre "revolução epistemológica de Marx", o seu
"estruturalismo perfeitamente insólito", como conceitos
tão popularizados do Lire le capital, não atinge o nível
propriamente
epistemológico.
Em que se trataria de compreender,
à luz do enunciado de
uma
ciência, que
formas de raciocínio estão sendo utilizadas na sua
construção
conceitual,
isto é, que tipo de metodologia está sendo aplicada em função de
que tipo de posição frente ao Real enquanto o que valida o próprio
acesso conceitual. O
próprio Real nesse caso é a
condição de existência já estruturada na concepção
econômico-política do Capital.
A epistemologia prometida se resolve na ciência mesma que ela
deveria explicar.
Essa
imbricação de Real e existencial, é a mesma de Hegel, porém neste
ela é propriamente a filosofia que expressa a imbricação na
consciência, e por isso o Real é fenomênico. Só
deixa de ter sentido perguntar como temos acesso ao objeto porque a
isso já se respondeu pragmaticamente como a possibilidade mesma da
pergunta, uma vez que não se trata de um objeto dado, mas da
generalidade objetiva como condição posta pela consciência.
Hegel,
na Fenomenologia do Espírito
("Introdução",
parágrafos 85, 86),
ressaltou ainda em nível de representação,
a duplicidade do objeto da consciência. Para a consciência houve
dois objetos. Primeiro o "em
si",
na qual o
objeto foi visado, isto é, houve consciência dele mas como
simplesmente dado. E depois
o "para si", quando
a consciência se compreendeu como a instância pela qual o objeto se
essencializou.
Na troca
de figura da consciência
em que veio a ser
para ela
o "novo objeto",
Hegel ressaltou
que não
ocorre a
ciência da consciência. Isso
foi o que aconteceu com ela, mas se ela mudou seu modo de ver o
objeto, ela não tem necessariamente nessa
mudança a consciência do sentido
de si mesma em processo. Para ela houve apenas a retificação do
ponto de vista.
Primeiro
ela construiu a generalidade - ela sempre sabe o objeto, então o
objeto não é o que ele parecia
como,
cada um, todo
por si, é em
geral,
qualquer que seja, objeto
para ela. Mas assim atinge o "para si"
e sua experiência se torna prática indiferente a qualquer
onipotência do dado singular.
A
ciência
do que está subjacente,
porém, como a distinção de
singular
e
general
e
a mudança de um a outro como um movimento necessário da consciência
- isto é, que não tem sentido fora dela -
só vai ser atingida quando a própria consciência se problematizar
enquanto a instância que não apenas põe objetos na sua interação
prática ou "experiência",
mas que se
desenvolve, que muda. Conforme Hegel, "Mas o conteúdo do que
para nós vem surgindo é para a consciência: nós compreendemos
apenas seu aspecto formal, ou seu surgir puro. Para ela, o que surge
só é como objeto; para nós é igualmente
como movimento e vir a ser" (par. 88). Este "para nós' é
o ponto de vista que "se eleva a um processo científico"
(par. 87).
O
"prefácio"
vinha colocando insistentemente que esse ponto de vista só é
atingido quando o processo da consciência se completou
(p.
ex. par.
29),
e então o que ocorreu foi "a intuição espiritual do que é o
saber".
Ou seja, não o fenômeno kantiano, ao cabo do que Althusser manteve
na condição inferior de "problema do conhecimento", porém
por uma inferiorização que o pós-kantismo mesmo já havia
denunciado na contingência do outro ponto de vista, c+++++++++++++++++++++++++omo a
alternância dos sistemas filosóficos, serem vistos como de fora da
consciência. Assim como o novo objeto naquele momento originário,
para
a consciência sem a ciência, aquilo
que "encontramos de modo um tanto casual e extrínseco."
(par. 87) Mas
sim o fenômeno enquanto parte de um processo que conduzirá ao
conhecimento científico - aquele cuja validez não foi preconcebida,
mas de fato conceituada.
O
que esperamos ter bem nítido aqui é, pois, que em Hegel a
consciência e a ciência são distintos, porém a distinção mesma
é um problema por explicar pela ciência da consciência que é a
fenomenologia. A posição de Althussser a propósito de Hegel, como
veremos à frente, não condiz com
o
que assim verificamos aqui.
Althusser
não recua porém, desse pós-kantismo
que estipulamos como propriamente hegeliano.
O
seu conceito de "'sobredeterminação" ele atribui a um
empréstimo feito da linguística e psicanálise, mas em seguida
concentrando-se nesta última como o referencial
mais adequado à ressalva de que,
como em todo empréstimo conceitual, a adequação provém de um
parentesco real. (p.
182,
nota 48).
Porém não explicita qual é o parentesco.
O
Lire le capital é mais abundante a propósito
das relações Marx-Freud,
mas apenas quanto ao conceito de estrutura como inconsciente,
cuja verdade é necessariamente impossível de ser refletida pela
consciência.
Se
aqui só podemos especular, ao que parece o referencial psicanalítico
que Althusser está utilizando é exatamente o conceito freudiano de
Sujeito,
a entidade complexa formada pelas três instâncias: id, superego e
ego. Mas assim ele teria que falar de
processo
sem ego,
não de processo sem sujeito.
Ou
nem mesmo poderia falar de um processo sem ego, mas daquele em que o
ego é posicionado de um modo ou de outro - como sujeito do saber de
si, por exemplo o psicanalítico, ou na ingenuidade da consciência
-
sem
a
ciência
de si
que é a
fenomenologia à Hegel.
Ou
seja, sem essa espécie de autoconsciência
cujo correlato não é possivelmente a reflexão imediata.
O
que Hegel moteja como aquilo
que é "o
impossível, ou seja, a obtenção do fim sem os meios." (par.
29)
Na
verdade é difícil decidir se Althusser pensa que o ego como a
consciência ingênua da história é fenomênico, no sentido
kantiano de algo necessariamente
produzido por outra coisa; ou se ele é a
contingência
de uma ideologia. Em todo caso, o sujeito psicanalítico não é
destituído
de ego,
ainda que em Lacan ele não resulte ao modo freudiano, como uma
força agente de um dinamismo inconsciente, mas como uma espécie de
vazio produzido na tópica
da castração
- a clivagem transcendental dos dois gêneros sexuais (o masculino e
o feminino), que define a personalidade por um excesso (homem) ou uma
carência (mulher) daquilo que é a instância única do gozo (o
falo).
Ora,
na partição pela qual a criança só compreende tardiamente que o
corpo da mãe não é igual ao do pai, porque só este tem falo, o
transcendental ou imperativo inconsciente implica que a criança não
verá a mãe como apenas diferente do pai, mas como castrada. Esse
princípio, de que emerge
a consciência clivada do inconsciente - uma vez que neste a
castração não é suportada -
é
pois realmente algo oposto a Hegel.
A
diferença nessa condição, como
categoria da
consciência,
vai
aparecer sempre como
adesão
a valores de dominação.
A consciência que lida com objetos de modo intelectualmente
satisfatório, sempre exibe,
segundo a psicanáliser,
o que a nosso olhar civilizado é a discrepância
aparentemente inexplicável
de sua profunda adesão aos valores de domínio como se fossem
naturais.
Mas
algo acontece na história, que é o vir a ser da consciência de que
a dominação não é natural, paralelamente ao incremento dos
poderes intelectuais como da ciência. Então
se produzirá o Estado, mas só com a autoconsciência psicanalítica,
proposta como anamnese ou lembrança do inconsciente a partir da
escuta clínica, é
que se poderá realmente atingir o nível das causas, e assim - de
algum modo - não reproduzir as condições da dominação por
identificação ao dominador, ainda que fosse o do partido
proletário.
Vemos
que assim como em Hegel, o vir a ser da consciência é na história,
mas devido ao modo de ser da consciência. Porém Hegel vê o momento
do reconhecimento intersubjetivo como a emergência da consciência
conflitiva do escravo.
A autoconsciência é a resolução do conflito muito tempo depois da
origem, na História.
Repetindo
o que já examinamos, o
sentimento originário do desenvolvimento é o medo que o escravo
experimenta ao ser subjugado pelo senhor, não a angústia, segundo
Hegel.
Lacan,
pelo contrário, vê naquele momento,
logo após a angústia originária da castração, a
profunda acomodação dos papeis em torno da função do domínio
(pai/ falo/ ativo). A
consciência conflitiva é o próprio efeito do desenvolvimento da
consciência, e não a causa dele. A
consciência conflitiva é só despertada como a consciência do
proletariado marxista, e, assim, ela só desperta como o meio de
resolução do conflito. "o
homem que trabalha na produção em nossa sociedade, se conta na
categoria dos proletários - segundo tempo, em nome dessa
pertinência, ele faz a greve geral."
("Função
e campo da fala e da linguagem em psicanálise', in, Escritos,
São Paulo, Perspectiva, 1988, p. 150).
Porém,
não obstante a virulência contra Hegel que estudamos em "O
avesso da psicanálise",
Lacan também expressa
o drama
da criança na época da "castração"
em
termos hegelianos. O
drama se explica não apenas porque essa época culmina outros
processos da libido relacionada ao pais, mas porque
ela vinha pensando a
sexualidade segundo o imperativo anal, de
modo inteiramente oposto ao que constata na realidade, como imperativo genital,
e, além disso, desde aí todo confronto com a feminilidade não
acomodada ao
papel de gênero repete a angústia originária da castração.
Primeiro,
há nesse outro texto
lacaniano,
o dos Escritos, utilização da terminologia hegeliana. O desejo "se
faz reconhecer" na "experiência intersubjetiva", pois
não basta ao homem identificar-se com o signo, como com a lei.
É
essa identificação que deseja o reconhecimento do outro "pelo
acordo da fala ou pela luta de prestígio". (op. cit. p. 144).
Logo
depois, Lacan
concorda aí
expressamente
com Hegel quanto a função
subjetiva
da doença orgânica, que é "a
introdução do vivente na existência do sujeito",
como "essa hiância do seu ser individual em sua essência".
Função de manutenção da consciência, assim como também a
percepção que segundo Lacan é organização de imagens segundo a
oposição husserliana do Umwelt e do Innenwelt, o mundo em si e o
mundo subjetivo, ambas para lá da neurose quando ela existe. Ou
seja, funções que mantem a consciência
de si,
o que não subsiste na psicose. (p.
144;
145)
Ora,
o ego mesmo em Lacan,
é
afetivamente orientado pela hiância, o hiato da clivagem, entre a
consciência e o que está no inconsciente - a mãe dotada de falo,
sem diferença, da infância anterior ao momento da percepção da
"castração". Ele
é o efeito desse hiato, seu comportamento sendo orientado para a
satisfação do desejo em
geral,
o que está oculto à consciência como essa generalidade do desejo
é o horizonte inconsciente da mãe fálica, ausência de diferença
eu-outro.
Mas
em Althusser, se o ego é produzido na ideologia, a dúvida sobre
contingência e necessidade se justifica porque não sabemos porque
ou como a ideologia produz justamente isso - o ego,
e não apenas o papel social que poderia ser incorporado, digamos, à
base de
receitas automáticas como prescrição de ações possíveis, como
na
sociologia de
Alfred Schutz. De
certo modo Althusser pensa que é isso o
que
na realidade acontece: "A
ideologia fala de atos; nós falaremos de atos inseridos em
práticas. E pretendemos assinalar que essas práticas são regidas
por rituais
em
que elas se inscrevem, dentro da existência material de um aparelho
ideológico..."
("Ideologia
e aparelhos ideológicos de Estado, op. cit. p. 130,
o grifo é dele).
Althusser
cita aí o modo como entende Pascal: "Pascal diz mais ou menos o
seguinte: 'Ajoelhe-se, mexa seus lábios numa oração e você terá
fé. Assim ele inverte escandalosamente a ordem das coisas, trazendo,
como Cristo, não a paz, mas a discórdia, e além disso, algo que
dificilmente seria cristão
(pois triste daquele que traz o escândalo ao mundo!) o próprio
escândalo.
Um escândalo afortunado, qeu o fez ater-se, pela provocação
jansenista, a uma linguagem que nomeia diretamente a realidade".
Porém
essa é apenas a primeira parte da teoria geral da ideologia
althusseriana: "não existe prática, a não ser através de uma
ideologia, e dentro dela".
A
segunda é que - eis o mistério - "não existe ideologia,
exceto pelo sujeito e para sujeitos",
o que significa expresamente, conforme a sua
"tese
central",
que "a ideologia interpela os indivíduos como sujeitos."
(p.
131)
Na
concepção materialista do século XIX desde Darwin, o ego como
autoconceito é o que coalesce na história somente devido ao
capitalismo ocidental. Marx refletiu expressamente a mudança,
na "Introdução
à Crítica da Economia Política":
"O caçador e o pescador, individuais e isolados, de que partem
Smith e Ricardo, pertencem às pobres
ficções
das robinsonadas do século XVIII.
Estas não expressam de modo algum - como se afigura aos historidores
da Civilização - uma simples reação contra os
excessos de requinte e um retorno mal compreendido a uma vida
natural. Do mesmo modo, o contrat
social
de Rousseau, que relaciona e liga
sujeitos independentes por natureza,
por meio de um contrato,
tampouco repousa sobre tal naturalismo. Esta é a aparência,
aparência puramente estética, das pequenas e grandes robinsonadas.
Trata-se, ao contrário, de uma antecipação da 'sociedade'
(bürgerlichen Gesellschaft), que se preparava desde o século XVI, e
no século XVIII deu larguíssimos
passos em direção à sua maturidade. Nessa sociedade da
livre concorrência, o sujeito aparece desprendido dos laços
naturais que, em épocas
históricas remotas, fizeram dele um acessório de um conglomerado
humano limitado e determinado". (Coleção
"Os economistas"; São Paulo, Abril cultural, 1982, p. 3)
Ao
contrário,
Althusser assim se expressa: "... essa destinação da ideologia
só é possível pelo sujeito, ou seja, pela categoria de sujeito e
seu funcionamento. Com isso quero dizer que, mesmo que ela só
apareça com esse nome (o sujeito) com o advento da ideologia
jurídica, a categoria do sujeito (que pode funcionar com outros
nomes, como, a alma em Platão, Deus etc.) é a categoria
constitutiva de qualquer ideologia, seja qual for sua determinação
(regional ou de classe) e seja qual for sua datação histórica - já
que a ideologia não tem história". ("Ideologia e
aparelhos... op. cit.
p. 131)
Em
Marx, portanto, há um desenvolvimento inerente à produção que
define qualquer "grau determinado do desenvolvimento
social,
como da produção dos indivíduos sociais", na qualidade pois,
do que
chamaríamos hoje papeis sociais. (Introdução à crítica da
economia política") op. cit. p. 5) O desenvolvimento produtivo
supõe duas coisas. A primeira é a unidade do que se desenvolve, e
na Introdução Marx designa expressamente "a produção em
geral" como tendo um unico sujeito, a humanidade, e um único
objeto, a natureza. Não se trata aí portanto, nem quanto aos usos
de indivíduo e sujeito, destes termos enquanto a questão do ego e
da subjetividade individual. Mas, quanto à segunda, trata-se dos
elementos que cada grau superior, na escala do desenvolvimento,
agrega aos elementos gerais e comuns da produção enquanto
abstração da generalidade.
Ora,
o
crucial aqui, o
verdadeiramente essencial, é
que a
abstração conceitual
em Marx não
pode ser feita a partir do menos
desenvolvido. Só pode ser feita a partir do mais desenvolvido, do
qual os casos anteriores serão então vistos como faltosos de alguns
elementos só constantes na forma mais desenvolvida. É esta que
permite a abstração da qual resulta o conceito da generalidade, por
exemplo da produção, que abrange todas as formas de produção
escalonáveis no tempo.
Como
pudemos ver, Marx pratica uma verve altamente irônica com relação
aos estágios anteriores da sociedade, inversamente ao
folclore do comunismo coletivista. A gesta do homem total de "A
ideologia alemã"
já o comprova, uma vez que nem mesmo a função especializada
do
trabalhador já dobrará sua livre
vontade subjetiva a obrigações impostas pela produção.
Algo do mistério que ronda esse conceito marxista do futuro homem
integral, poderia a meu ver se aclarar justamente por essa lição de
Marx, na Introdução..., a propósito do desenvolvimento.
Se
o trabalho em geral é a categoria que permite lidar com o trabalho
como o
que
se desenvolve, não obstante o trabalho tomado como generalidade na
prática,
do qual se segue a possibilidade do conceito de trabalho em gerqal,
só
vem a existir na sociedade mais avançada, o capitalismo. "Então
já não pode mais ser pensado somente sob uma forma particular.
Por outro lado, essa abstração do trabalho em geral
não é apenas o resultado intelectual de uma totalidade concreta de
trabalhos.
A indiferença em relação ao trabalho determinado corresponde a uma
forma de sociedade na qual os indivíduos podem passar com facilidade
de um trabalho a outro e na qual o gênero determinado de trabalho é
fortuito, e, portanto, é-lhes indiferente."(p.17)
Mais
uma vez verificamos
prognósticos marxistas sobre o capitalismo que não se cumpriram de
fato, pois o que ocorreu, pelo contrário, foi a especialização
crescente da mão de obra ali onde justamente se trata das sociedades
mais "avançadas" do ponto de vista do desenvolvimento
econômico. Porém
assim constatamos também de onde Marx tirou a concepção de que o
futuro da produção seria de escolha de momento quanto à atividade,
ao invés do modo conhecido de atribuição de certa função a certo
empregado. Ele
aí
pensava
estar
mais de acordo com o capitalismo norte-americano que o europeu: "Esse
estado de coisas se encontra mais desenvolvido nos Estados Unidos.
Aí, pois, a abstração da categoria 'trabalho', 'trabalho em
geral', trabalho sans
phrase,
ponto de partida da Economia moderna, torna-se pela primeira vez
praticamente verdadeira". Porém
ele desqualifica
assim a mesma
disponibilidade
como
disposição natural, exemplificável
na Russia, em
termos da mola que resultou em conceito. "Mas que diferença
danada entre bárbaros que tem uma tendência natural para se deixar
empregar em todos os trabalhos, e os civilizados que se empregam a si
próprios. E, por outro lado, a essa indiferença para um trabalho
bem determinado corresponde na prática, entre os russos, a sua
sujeição tradicional a um trabalho bem determinado, do qual só
influências exteriores podem arrancá-los".
Althusser
não é menos anti-coletivista
que Marx,
porém não é na história que
ele vê a ruptura possível, ao menos como constatamos ser concebida
em Marx e Hegel, isto
é, como
correlato do sujeito humano e, portanto, realizando-se como
emancipação da subjetividade, ainda
que conforme
o
primeiro,
como progresso da consciência,
e o segudo o veja como progresso da produção.
O
cerne da argumentação althusseriana é contra o humanismo. Mas
a
Introdução à
Crítica da Economia Política não foi escrito antes de 1945, e sim
em 1857. A partição de fases de carreira tais que o humanismo de
Marx constaria apenas da primeira,
é uma concepção que depende de se deixar muita coisa do que Marx
expressa de lado, como apenas circunlóquio
ou modo de falar, conforme o que os althusserinos atribuem ao que não
se coaduna com o que consideram o extrato científico do Capital.
Mas
o paralelismo metodológico
althusseriano entre Marx
e Freud,
esclarecido apenas pela noção de um processo inconsciente,
também
não é ainda o que Althusser esgrime contra Hegel, quando se trata
do ponto de partida da Lógica.
Aqui Althusser está citando o próprio texto da Introdução..., que
acima referenciamos, e
a
questão é propriamente o significado de ciência em geral e do
marxismo científico em particular. O
escopo althusseriano expresso
em "Sobre a dialética materialista", é
submeter toda
e
qualquer
atividade
científica,
ao que designa a Teoria Geral do marxismo científico. Não
se trataria de "aplicação", mas de
algo verdadeiramente absurdo, cujo despropósito só não excede o
quanto de poder reclama
para um
só:
"A aplicação exterior de um conceito jamais é o equivalente
de uma prática teórica.
Essa aplicação em nada mudaria a verdade recebida do exterior,
salvo o seu nome, batismo incapaz de produzir alguma transformação
real nas verdades que o recebem. A aplicação das 'leis' da
dialética a tal resultado da Física, por exemplo, não
é uma prática
teórica,
caso essa
aplicação não mude uma letra sequer da estrutura e do
desenvolvimento da prática
teórica em Física: ou pior ainda, pode-se transformar em entrave
ideológico". (op.cit. p. 147-
grifos sempre dele)
O
que Althusser está combatendo é o que designa "a
espontaneidade das práticas teóricas existentes", e por essa
expressão indefinidamente repetida ("prática teórica")
ele designa qualquer ciência. A
espontaneidade ou simplesmente, a liberdade na pesquisa científica,
ele rejeita por que "sabemos que naõ existe prática teórica
pura, ciência pura, que em sua história seja sempre preservada npor
não sei que graça das ameaças e atentados do idealismo, isto é,
das ideologias
que
a assaltam". O contrário do idealismo, não sabemos por que
graça da verdade absoluta
acima de todo erro e de todas as consciências,
como
se estas não comportassem heterogeneidade de perspectiva alguma,
seria
então o marxismo
ou, conforme a letra althusseriana, a dialética de Marx. Ela
passa a ser designada Teoria Geral, ou materialismo histórico.
Para
Althsuser, a
dialética nesse estatuto de Teoria Geral deve
ser a Teoria única que condensará numa unidade todas as ciências
enquanto um mesmo exercício unificado pela
autoridade
da Teoria única apta para definir qual é ele,
enquanto "Teoria
da prática teórica"
(p.149). Assim também teria poder para destituir do caráter de
cientificidade aquelas disciplinas a que nega que sejam "verdadeiras
práticas teóricas"
porque só tem "a unidade das práticas técnicas",
nomeadamente a psico-sociologia, a Sociologia e a Psicologia. (p.
148)
Se
não se pode compreender como algo meramente designável materialismo
histórico poderia prescrever de antemão a prática teórica da
Física, Química, etc., assim como seus objetos mesmos, a noção
althsuseriana
de prática é bastante elucidativa. É o mesmo que atividade
industrial. Toda prática é a transformação de uma matéria prima
por certos meios de produção, em produtos. Assim Althusser não
poderia pensar uma prática que visasse justamente evitar uma
transformação, uma prática de conservação.
Mas
o
erro fundamental que veicula a vontade de domínio do marxismo
althusseriano, cujo parentesco ao de Gramsci é reivindicado por
Althusser, está
aí, do ponto de vista da epistemologia. Pois implica
que haja algo definido como matéria prima, que
é "de natureza ideológica preliminar"
(p. 160), "sobre"
a qual se fará passar uma teoria
e um método como os "meios de produção",
(p. 150)
resultando
assim um produto definido como conhecimento.
Ao
contrário do que Althusser diz, nenhum empirismo jamais pensou que
uma ciência se elaborasse sobre algo como
sensações ou indivíduos, ao contrário de
fatos
em sua generalidade.
Mas após atribuir ele próprio à matéria prima a possibilidade de
ser puramente "dada" (p. 150), em caso de ciências novas,
também sendo possível ser ela o conceito já elaborado se a ciência
já estiver estabilizada, agora, tratando-se da condição de
generalidade, ele a opõe a "um 'dado' puro objetivo que seria o
de fatos puros e absolutos", tratando-se ao invés de
cada ciência
"elaborar os seus próprios fatos científicos, atraves de uma
crítica dos fatos ideológicos elaborados pela prática teórica
ideológica anterior".
Utiliza-se do termo de Marx, Vorstellungen, para designar como
Generalidades todos os três componentes da prática como atividade
industrial de transformação de matéria prima em produto pelos
meios de produção definidos. Generalidade
I sendo a matéria prima, a II sendo a teoria ou meio de produção,
e a III sendo o conhecimento produzido ou produto.
O
erro aí é flagrante. Antes
mesmo de enunciá-lo vemos que se
Bachelard é utilizado para mostrar como uma ciência rompe com uma
prática pré-científica, conforme o conceito de corte
epistemológico, não é ele quem está sendo seguido quando
Althusser unifica
toda prática pré-científica num mesmo estatuto de "ideológico".
De
fato não poderíamos imaginar que monstro isso seja, já que tendo a
mesma natureza que
relações familiares e prescrições de conduta moral, aparelhos
escolares modernos, e todos os demais "aparelhos ideológicos"
definidos socialmente por Althusser como se isso não
fosse sociologia.
E
não
importando
ainda
se,
enquanto especificamente conhecimento
pretendido como tal,
fruto de observações empíricas embora inexatas, experimentos que
envolvem disposições espirituais
como magia caldaica
ou
alquimia, muito diferenciadas entre si mas sempre tendo sido formas
de pesquisa
material levadas
à frente por classes sacerdotais de Estados arcaicos,
paralelamente aos seus deveres de culto,
ou
filosofia
propriamente.
Ora,
o erro flagrante é pretender que a matéria prima
tratada como Generalidade I,
é extrínseca por
essência,
ou seja, é irredutível à natureza
dos
meios de produção que a trabalham, como a
Generalidade II ou
teoria da ciência num momento considerado. Já
a diferença entre Generalidades I e III, é designada a que se pode
estabelecer, do mesmo modo irredutível, entre o abstrato e o
concreto (p. 162).
Mas
sabemos que não há nas
ciências humanas, matéria prima extrínseca à teoria que permite
tratar de certo modo um objeto conceituado como seu. Entre a
sociedade como luta de classes de Marx, ou como integração de
funções de Weber, não cabe
afirmar
simplesmente
que houve
um fato extrínseco - a sociedade - teorizado de um ou outro modo.
Mas sim que "sociedade" já é a
elaboração de um conceito ou outro, posto que sempre alguém poderá
afirmar que o que existe é uma reunião de homens, não uma
sociedade.
Assim
com efeito, em Weber não há sociedade (Gesellschaft) antes do
capitalismo ocidental, e o que havia antes é designado inversamente
comunidade (Gemeinschaft). Alguém
poderia ripostar que nem isso, mas uma reunião fortuita, em que
colaborações esparsas são verificáveis por sua utilidade comum.
Seria um despropósito afirmar que há aí um resíduo primário, em
todo caso - pois é justamente qual
é
(dentre
os tres considerados) o
resíduo,
aquilo que cada
conceito,
ao mesmo tempo que se define, predispõe.
Um
outro modo de se demonstrar
precisamente
esse
erro,
é a pretensão de pureza, subjacente à dialética althusseriana,
como possivelmente isenta de toda contaminação ideológica. Mas
como um
contrário assim, ela teria também que estar certa de não conter
nenhum pressuposto, de estar na posse da evidência pura. Esta não
é, ainda que gostaríamos que fosse, uma
condição atribuível a qualquer ciência deste
mundo
- e justamente na medida em que
o que se designa ciência
não se confunde com uma
técnica.
Alguns
dizem que Althusser erra por utilizar-ser
de
Lacan sem entendê-lo muito bem. O
que não é difícil de acontecer, já que o próprio Lacan raramente
aprovou teses feitas sobre ele, quando as conheceu, e não há muitos
testemunhos sobre si
que coincidam totalmente. Eu
mesma não considero que o que Lacan designa o simbólico, em termos
da aptidão conceitual da nossa mente, o
contrário de fantasia ou imaginário, seja
como Althusser coloca aí,
o enunciado do que é Real por si.
Porém, Lacan lido com
intenção de esclarecer sua contraposição
frontal a Hegel,
como por um viés althusseriano, poderia
dar um resultado oposto ao de uma leitura que nele pesquisasse
justamente a autonomia própria a cada um dos sistemas simbólicos.
Já
veremos como tudo se torna bastante peculiar
desse ponto de vista,
em seu texto intitulado "Subversão
do Sujeito e Dialética do desejo no inconsciente freudiano".
Assim,
em
todo caso, pela consideração do erro a da Generalidade I
althusseriana, voltamos
ao que Marx afirmou como a condição sine qua non da categoria do
desenvolvimento. Só
pode haver uma categoria como abstração, mas essa abstração
está implicada pelo campo de visibilidade aberto pela forma mais
desenvolvida. Pode
ser que Marx não tenha pretendido uma reserva propriamente metódica
nessa prescrição, ao modo de um relativismo que consideramos
salutar e, mais, específico das possibilidades das ciências
humanas. Elas não lidam com algo como a montanha que lá está
independente do que dissermos sobre ela
- contanto que seja suficientemente grande para não poder explodida
e não
importando
o fato de só não poder ser perfurada por
um túnel se
for tão grande quanto o Himalaia,
porque em todo caso ela continuaria
a lá estar.
A
precaução de Marx é a distinção do que considera o método
científico certo daquele que seria o errado conforme ele especifica.
Mas nós podemos submeter a sua categoria de forma mais desenvolvida
à prova do que ela previa para os tempos de agora - permanência
como estava quando enunciada, ou mudança conforme a tendência que
conceituou. É precisamente isto o que é científico, não um
enunciado qualquer que não possas
ser deste modo submetido a uma prova sobre o que prevê,
além, é óbvio, de não conter inconsistências nítidas naquilo
que meramente afirma.
Minha intenção ao ressaltar esse mínimo assim considerado, não é
unificar de algum outro lado como
natureza de todos
os enunciados que não podem ser assim submetidos, além de apenas a
circunstância negativa de não serem científicos. Porém essa
circunstância existe. Ora,
a produção mais desenvolvida,
o capitalismo
como supõe Marx,
mostrou-se não só incongruente com as previsões como, à luz do
que sabemos hoje sobre o cenário pós-feudal e especialmente o
século XIX industrial, inconsistente no que afirma,
embora não seja meramente incoerente.
O
remédio usual, que consiste na adição de hipóteses ao corpo da
teoria original, não basta nesse caso. O imperialismo não é apenas
um outro período ou uma fase do capitalismo, mas é intrínseco a
toda Revolução
Industrial do século XIX - e é interessante que Marx tenha se
interessado tanto pelos Estados Unidos, mas nada pelo
Brasil, onde era óbvio o imperialismo inglês, nem mesmo pela Guerra
do
Paraguai como
pela consequência do imperialismo inglês na América Latina.
A
razão para isso é que a teoria marxista da colonização acomodava
a crueldade e a rapina típicos dela, como capítulos
incongruentes
com a racionalidade industrial,
e,
sobretudo, definia
a
salvaguarda de consciência ideológica, como da civilização em
termos de estado de espírito, provista pela Economia política ou
liberalismo smithiano. Não
é difícil ver no método da forma mais desenvolvida, o princípio
da fenomenologia hegeliana.
Porém
Hegel está desenvolvendo
algo
não como - expressamente - "abstração"
a partir da visibilidade daquilo que já se destina ao visível por
esse interesse científico de abstração
categorial.
Conforme o exemplo de Marx, na "Introdução...",
sendo o caso de categorias elementares da ciência da Economia
política, tais como produção, trabalho, dinheiro, mas também ele
inclui aí categorias que nós sabemos serem
sociológicas, como "cooperação" e "divisão de
trabalho" (op. cit. p. 15).
Nem
mesmo se poderia dizer que Hegel está desenvolvendo,
em termos de consciência,
uma evidência primária
de si,
como o supõe estar fazendo Husserl. Que não é a consciência comum
"quem"
fala na Fenomenologia, pode-se observar pelo
fato de
que Hegel designar
"consciência imperfeita"
a "consciência
natural"
(par. 79) - ou seja, por um motivo ou por outro, todas as formas de
consciência que não são a autoconsciência da
ciência.
Esta
autoconsciência é pois a forma mais desenvolvida da consciência, e
Marx pode ser considerado um bom comentário da relação dos
elementos do imperfeito e do perfeito: aquele contendo uma parte e
este todos os elementos da categoria qualificada.
Além
disso, porém, também se pode observar que Hegel não apenas não
trabalha com uma consciência - ao modo da robinsonada que Marx
atribui a Rousseau. Mas
tampouco ele o faz com essa unidade diferente que é a horda
primitiva, a
coletividade promíscua
suposta na origem -
não um indivíduo, mas um comportamento igualmente homogêneo, que
só abrange diferença relativamente a outra coletividade, mesmo
assim, diferença apenas de circunstância como escravizar ou ser
escravizado, dominar
ou ser dominado, etc.
Ou,
quando já há formas de produção diferenciadas, diferença de modo
da troca
- dentro da comunidade há troca de produtos, entre comunidades surge
a troca por dinheiro, mas só o capitalismo o torna uma categoria
da produção.
Hegel
lida com duas consciências - do senhor e do escravo - somente uma
das quais se desenvolve como sujeito. Não significa que o senhor não
seja sujeito, mas que ele não pode ser o que é sem coibir o
desenvolvimento que destruiria a
possibilidade de atingir-se a generalidade, que implicaria destruir a
confusão de identidade com
subjetividade.
Ora,
o desenvolvimento mesmo não é o circunlóquio de uma alma
solitária, ou a introspecção
do filósofo. É uma interpretação da história da filosofia que se
possibilita pelo princípio
de que ela é uma "história" nesse sentido de que seus
momentos se encadeiam e levam a uma conclusão positiva como
conhecimento que não é do exterior - assim é só a possibilidade
de conhecimento científico - mas interior, de si e dos demais como
sujeitos. Aqui
um pressuposto é reportável.
Schelling,
que critica Hegel por não partir de algo tão puramente dado como
pretenderia a Lógica, não tangencia esse
pressuposto
- só que a Lógica coloca algo como primeiro, o Ser, mas, assim,
subentende algo anterior, o número que o posiciona como "primeiro".
Schelling
não observou aí que o número é ele mesmo um ser, como
qualquer ente que nos
damos a pensar,
nós o atribuímos
em geral como
um
ser.
O designativo de ente especifica um ser referenciável como tal.
O círculo do
ser e dos entes não parece imediatamente interrompível.
Em
todo caso, ao
que parece, Hegel pensou realmente que a imbricação temporal de
história da filosofia e
história política eram
suficientes para reunir uma interpretação única dessa categoria
abstrata de processo
ou desenvolvimento. O que resta a fazer, é voltar sobre os elementos
da história como propostos por Hegel, não as figuras da consciência
por
si só, mas o que elas significam enquanto correlatos de
interpretações das escolas filosóficas e sua
mútua relação.
Podemos
por aí questionar por exemplo o veredito de Hegel a propósito do
ceticismo como ignorância a mais completa de que haja
essa relação. Antes
o ceticismo "vê sempre no resultado somente o puro nada, e
abstrai de que esse nada é determinadamente o nada daquilo de que
resulta.Porém o nada, tomado só como o nada daquilo donde procede,
só é de fato o resultado verdadeiro: é assim um nada determinado e
tem um conteúdo". Inversamente, o ceticismo espera o novo para
de novo "jogá-lo no abismo vazio".
Ora,
o ceticismo pirrônico e sextiano não espera o novo com um
prejulgamento do que ele seja. Se espera, é porque o
novo requer
exame, e se o requer, é porque pode ser verdade. Mas nunca aconteceu
de ser
até o presente examinado.
Além disso, o ceticismo não nega que haja relação entre as
escolas, mas repete o que elas mesmas dizem de si como
seu dogma. Que
somente uma revela a verdade.
O
ceticismo não reprova que se expresse algo que se supõe verdadeiro,
mas apenas examina o conteúdo, e integra o exame justamente os
outros conteúdos, de outras escolas, com os quais este contrasta por
sua pretensão de ser o verdadeiro, assim como elas o pretenderam,
etc.
Ele
vê não um nada, mas que não há como decidir entre os dogmas, pois
sempre seria um dogma o critério da decisão, a menos que venha
algum enunciado que não se limite a esse contraste sem critério
extrínseco possível.
Creio
que seria válido, segundo esse princípio, que alguém negasse ter
religião justamente porque há muitas. E se outrem lhe perguntasse
por
que
não é capaz de escolher, respondesse que justamente porque nenhuma
delas pretende que é uma questão de livre escolha.
Não
é pois o ceticismo a propedêutica da consciência infeliz. O que
ele almeja, ao contrário, é a tranquilidade da alma, a infelicidade
resultando de supor-se dever atender à obrigação de uma decisão
impossível.
Hegel
se interessa pelo resultado
na
história
- que veio a ser de uma possibilidade do saber
científico,
a partir do desfazimento da identidade de saber e sujeito, de
quem
fala e do
que é falado. Quando
Lacan afirma que a psicanálise tem sua origem na cena socrática de
extração da verdade matemática escondida
na cabeça do escravo, creio que ele está pensando nesse mesmo
desfazimento. Já não há o detentor ritual do saber, eis o
princípio da ciência.
Mas
Sócrates não quis dizer isso, pelo contrário, ele estava provando
que o saber é a anamnese que só um detentor do saber possui, dentre
todos os homens, e que esse, o sábio, deve governar por deter o
saber, sendo o fundamento desse saber o correlato de que o saber é o
que o sábio lembra, e não o que qualquer um pode afirmar que
experimenta por si. Assim
o sábio pode fazer os outros lembrarem, estes não lembram por si
mesmos.
Mas
o que Lacan quer dizer é
- não obstante-
exatamente isso: que o saber do sujeito é a anamnese do
inconsciente,
de
modo que a psicanálise é aí o verdadeiro
sábio.
Esse
modo contraditório
de
explicar o desfazimento da identidade de saber e sábio, o que Lacan
designa o fim do domínio do significante mestre, contudo
pela
emergência da psicanálise, implica que a ciência como se faz não
é suficiente,
e que a psicanálise é o único suplemento real, que realmente muda
o pressuposto significante.
Lacan também condena a psicologia,
que ele aí
designa
"astrologia judiciária", como falsa ciência.
(Escritos,
op. cit. p. 281).
A
psicanálise é um saber absoluto, como
uma
Teoria geral única,
esse sentido que julgo não hegeliano.
Mas
como se explica
que tenha vindo a existir
a psicanálise? Assim como em Hegel e Marx, por uma teoria do
desenvolvimento.
Se Lacan não considera
por
essa categoria
evidentemente o que Hegel supõe que aconteceu na
história,
ele
explica a diferença:
"Essa dialética [de
Hegel] é
convergente e vai à conjuntura definida como saber absoluto. Assim
como é deduzida, ela só pode ser a conjunção do simbólico com um
real do qual nada há mais a esperar. Que é isso? Senão um sujeito
acabado em sua identidade consigo mesmo". E se Freud é a
"entrada da verdade no campo da ciência", compare-se a
infelicidade da consciência à Hegel e o mal-estar da civilização
à Freud. Somente neste encontraríamos "a relação oblíqua
(em inglês dir-se-ia skew) que separa o sujeito do sexo"
(p. 280, 281).
O
que o sujeito subverte na psicanálise é o
pressuposto como
unidade da consciência, esta o "traço tão
caduco"
que nem se pode fundar o inconsciente sobre meramente a sua negação.
Mas
como a psicanálise chega a essa clivagem que Hegel não podia
conhecer, segundo Lacan assim como ignorava que os bebês humanos
nascem com o cérebro incompleto?
A
suposição freudiana de que as relações lógicas foram primeiro
relações que fizemos
com as matérias da
nossa biologia infantil, excrementícias ou alimentares,
permeadas
por nossa relação complexa com as figuras parentais,
é
um tanto mudada por Lacan em organizações de sequências puramente
significantes. Em todo caso, o pressuposto é evidente, assim essas
relações não foram vistas por outros observadores
como Piaget ou Walon,
desse modo, isto é, como expressões de algo designável "libido"
- referente às matérias designadas,
mesmo que eles também estivessem pressupondo uma história do
desenvolvimento.
Além
disso, alhures o mesmo Lacan se espanta por isso que o Édipo, em
psicanálise, o modo como a libido sexual se relaciona com os pais no
inconsciente, de fato é
anterior a ele mesmo. Isso
se encadeia ao modo como Lacan introduz o texto que aqui visamos,
sobre a dialética, ressaltando que se em Hegel o desenvolvimento da
consciência é um logicismo evidente, em Freud não se trata de
solver
o inconsciente em nada ilógico, seja
arrebatamento ou abatimento.
Os
estados hipnóides de que Freud fala não são aquilo
que como os
êxtases místicos se
perseguem.
"Essa
espécie de lógica" que a psicanálise atribui já ao
inconsciente, pelo que ela espera dele haurir "por exemplo uma
voz interrogativa, e mesmo o encaminhamento de uma argumentação",
não se confunde com o saber hegeliano da Aufhebung porque este não
comporta nada como um estado hipnóide - a exemplo do sonho ou do
sintoma, como da crise histérica ou o estado de hipnose
propriamente. É
nesse estado que o inconsciente viceja, porém.
Ora,
não é apenas o porque de sua doença que o inconsciente deve
revelar ao psicanalista, mas se há um porque ele se deve ao
enraizamento desse motivo nesse a priori do desenvolvimento que é o
Édipo e a castração. De que modo não se trata aí de uma
teleologia?
E
precisamente esta: se Hegel não conhece o inconsciente edipiano, não
é menos verdade que o pai edipiano a priorístico em Freud é o
déspota suposto da história
do desenvolvimento.
Qual é a verdadeira diferença? Esta. O que Lacan abomina em Hegel é
que o sujeito do desenvolvimento não seja o espelhamento invertido
de uma causa inapagável, o Senhor
- O mesmo que o Outro ou Inconsciente, ordem pura do sistema da
linguagem.
Que
o sujeito do desenvolvimento não seja o senhorio.
Assim,
aqui podemos falar de uma terceira inversão de Hegel.
Após
a de Marx,
em que o processo hegeliano
da
consciência foi investido conceitualmente como o efeito ideativo
ao
invés da causa
adaptativa-produtiva,
e construído na metaforicidade do corpo físico, os pés e a cabeça.
E
após
a de Nietzsche,
em que a evolução é a antítese absoluta do hegeliano
desenvolvimento
da consciência escrava que culmina
no Estado de direito,
ao
invés sendo este o
triunfo da decadência humana, de modo que a própria humanidade
devesse se conceber como meio e não finalidade, para este outro por
vir que será o Senhor absoluto além
de Deus, o Super-Homem.
A
inversão lacaniana não é a repetição do Senhor nietzschiano
apenas por isso que para Nietzsche o senhor é autotélico, e é esta
mesma autocriação ex
nihilo
que, uma vez
assumida sem traço restante de arrependimento, mas também sem
necessariamente a unidade egoica da assunção stirneriana, provaria
em ato a existência de um Super-homem, o
ser de suas forças múltiplas, o ser do seu inconsciente
absolutamente criador.
O
Senhor lacaniano, o mestre que domina o inconsciente como Outro ou
lei da linguagem,
não é autotélico, não obstante a linguagem o ser. A estrutura
gera-se como
lei,
não
apenas funciona segundo sua lei. Ela
gera pois a identificação do senhorio, e nesse sentido é que Lacan
não dispensa de todo a dialética. A
seu ver nada excede a psicanálise como lugar em que "aparece
mais claramente que o desejo do homem encontra seu sentido no desejo
do outro, não tanto porque o outro determ as chaves do objeto
desejado, quanto porque seu primeiro objeto é de ser reconhecido
pelo outro." ("Função e campo da fala e da linguagem em
psicanálise", in: Escritos,
op. cit. p. 132)
Pelo
Outro,
a nossa relação com os outros
é
em geral pre-psicanalítica, ou seja, mediada pela representação de
um senhorio que reconhecemos como o mais certo, louvável e moral
acerto de contas da alteridade possível.
Assim,
nessa terceira inversão de Hegel, a
lacaniana, temos
que o reconhecimento não desencadeia
a consciência do escravo como
um desenvolvimento linear do saber-libertação;
mas, ao contrário, desencadeia
a consciência do senhor como uma
constante absoluta dos sistemas sociais, que é
a
forma
do saber
como instrumento de dominação.
Bem
inversamente a Hegel, para Lacan a morte
da autonomia do
Si
está inscrita como lei
do desejo por reconhecimento,
e isso, porém, porque o inconsciente é cultura e não instinto.
O
que o sujeito na psicanálise
lacaniana
subverte é pois propriamente a
subversão da dominação suposta como fiat da história.
Subverte pois a subversão de
fundo
democrático.
Restauração
- como
do que seria a verdade do sujeito. Nada
mais politicamente errado, segundo Lacan, do que esperar que o
escravo se liberte pelo trabalho, quando o que ele fará é gozar de
qualquer modo.
O
sujeito lacaniano,
bifurcação da identidade sexual,
duas fórmulas matemáticas, identidade que sempre
se realiza se
puder
atuar na forma de conformidade ao sistema social da autoridade.
Em geral o sujeito é aquele
que pode se reduzir a uma
fórmula matemática,
grafo
do
gozo,
esquematizável
contudo
em um quadro. E
se ele não puder, é que a mesma compulsão da conformidade - a
necessidade algébrica por trás da combinação dos elementos -
produziu um modo alternativo dele
realizar a
mesma conformidade.
Não
existe assim de fato o impoder.
Entre
o que a estrutura gera como Outro inconsciente, e o ego, há um
"Ideal" absoluto, assim, por um lado, "o Ego é desde
então função de controle, jogo de prestância, rivalidade
constituída". (p.
292) Mas,
também, ilusão de sua consciência
como consciência
de um correlato único,
sua existência,
quando na verdade esta lhe é transcendente, derivadfa do "traço
unário do ideal do Ego".
Se nem o Cogito carteriano desconhece esse ideal, não obstante se
deduz: "Pelo que o próprio Ego transcendental se acha
relativizado, implicado que está no desconhyecimento em que se
inauguram as identificações do Ego".
O
diagnóstico lacaniano de Hegel é a obsessão temática da supressão
do senhor.
O que Lacan atribui não só a neuróticos clinicados mas também a
setores conspícuos da inteligentzia
e amiúde a professores.
(op.
cit. p. 293, 294)
Mas
já vimos que isso, para Lacan, significa apenas uma alternativa
autoritária, não supressão real do desejo autoritário.
Mas
será isso verdade
- de que a fenomenologia é a perquirição da supressão do senhor
pelo
escravo?
Considero
tal resultado incompatível com a letra
da
fenomenologia,
mas não porque ela não seria séria, nem poderia ser se é
neurótica, e no fim a morte para ela é só brincadeirinha.
Não
ignoro a interpretação de Hyppolite, reportada por Robert
Williams ("Hegel e Nietzsche: reconhecimento e relação
senhor/escravo", in: Dotti et. alii: Estado e política: a
filosofia política de Hegel. Rio de Janeiro, Zahar, 2003, p. 89).
Segundo Williams,
no "sumário resumo feito por Hippolite (sic) sobre a
dialética... o senhor termina por transformar-se em escravo do
escravo e o escrvo termina por transformar-se em senhor do senhor."
Em
nota, Williams acrescenta que "A formulação de Hyppolite ainda
que correta é também mal colocada porque ele sugere
que a liberação do escravo mantem a desigualdade e a coerção, e
transforma-se em ressentimento, ainda que elas sejam superáveis".
(p.
99)
Mas
não sabemos como pode ser superável um tal
estado
de coisas,
à Margulis: margaridas brancas e pretas alternando-se infinitamente
porque assim que cada cor
domina
o espaço, tudo o que faz é criar as condição
climática
em que só a contrária
viceja, devido à relação da cor com a variação de albedo de
que resulta a mudança da
temperatura.
Minha
leitura da Fenomenologia do espírito não autoriza a concepção de
Hyppolite,
pois, de fato, o capítulo consagrado à dialética do senhor e do
escravo apenas inicia a série das figuras de consciência que
percorrem todo o livro, e a totalidade delas é a realização do
saber absoluto como autoconsciência, superando as fórmulas de
identidade. Mas podemos sim na Fenomenologia deduzir o que seria
o axioma hegeliano do desenvolvimento, pelo qual o senhor nunca
retornará na
História.
Ou
seja, segundo o axioma hegeliano o desenvolvimento em que se
destruirá a dominação assim como as identidades de senhor e
escravo, nunca retrocede, não há regressão estrutural, e esse é o
denominador comum absoluto entre fenomenologia e filosofia da
história hegelianas.
Mesmo
que na efetividade nem todos os povos tenham alcançado a modernidade
do Estado de direitos assim que na Europa se alcançou. Mas na
efetividade, em qualquer lugar, sempre vai estar ocorrendo o
movimento, nesse sentido desenvolvimentista, de modo que o interior
do movimento possa comportar regressões aparentes em momentos de
transição, como Hegel considerou ser o caso do Renascimento
europeu,
na
"Introdução à história da filosofia"
(Coimbra, Armenio Amado, 1974, p. 92).
É
certo que Hegel abstrai muito para obter um desenvolvimento contínuo,
mas o que ocorre neste é, primeiro, não o de uma consciência
única, mas a de um conflito de consciência desse lado do
escravo, em
que a relação de
domínio pode caracterizar um conflito, mas, segundo, um
paralelismo de fantasias quanto ao Si. O
senhor não é meramente suprimido, se o escravo - como tal - também
é. O que se suprime é a relação de dominação.
Ora,
algo notável nas três inversões subsequentes de Hegel que
reportamos, é o
seu
denominador comum,
como
podemos constatar.
Elas são todas baseadas na postergação da consciência à posição
de derivado
numa dicotomia tal que o termo oposto aparece como o determinante -
transcendental nesse sentido,
relativamente à experiência,
ainda que não necessariamente ideal. Pelo
contrário, o determinante tornou-se de Marx em diante, sempre
material.
Este
aspecto da primeira inversão marxista realmente repete-se
nas demais, porém se há algo criticável no procedimento de
inversão, é que ele conserva a oposição em vez de superá-la.
Nesse caso isso é de importância capital, já que a oposição em
questão conserva o resíduo platônico idealista
dicotômico de espírito e matéria. O curioso aí é que a inversão
se faz "de"
algo
= x,
que o fazer mesmo cria, a saber, a posição da consciência
hegeliana
como meramente reproduzindo o locus espiritual dicotômico do
platonismo.
Isso
em que a
inversão se mantem.
Inversamente,
o pós-positivismo retomou Hegel na teoria social, não obstante as
diferenças de informação antropológica. Examinando esse ponto com
grande atenção,
podemos
entender porque Hegel foi considerado por Talcott Parsons
(A
estrutura da ação social, Petrópolis, Vozes, 2010, p. 631) a
pedra angular da
"principal teoria social alemã de base idealista", que
coalesce entre
Dilthey e Max Weber.
Não
é o pois
o caso
de negarmos
que
Hegel pensa em termos de diferença de espírito e matéria, porém a
meu ver está sendo muito necessário hoje reler Hegel para, em sua
ambientação romanticista, considerar como não
se trata de platonismo, se
pudermos tão somente traduzir "absoluto" por realidade
povoada pelo que nela existe, os
espíritos nela gerados conforme o poema de
Schiller que
Hegel cita parcialmente
na
"Fenomenologia do Espírito" e inteiro na "Introdução
à história da filosofia"
(p. 128):
"O
gande criador
estava sem amigos
nem sentia falta,
porque criou espíritos
espelhos
afortunados
da sua bem-aventurança
Se
bem
que o Ser sublime não tenha encontrado nenhum igual
do
cálix
de todo o reino dos espíritos
espuma
até ele o infinito."
Assim
não há muitas realidades, mas o
único
Real é aquilo de que nada está fora,
incluindo pois espírito e matéria. É justamente porque ambas estão
enfeixadas,
bastante anti-platonicamente,
num só estatuto, como realidade, que porém elas são espírito, ou
seja, o que tem sentido, correlato pensável como suas relações
efetivas. É espírito por que vem a ser matéria, e vice-versa.
O vir a ser abole o determinismo, enquanto, digamos, metodologia, mas
se é assim, a partir do momento em que se trata do conceito, não
poderíamos avançar pela matéria. Sempre
se trata do pensável.
A
Verstehen, ou compreensão, segundo Hegel, se define também aí,
na "Introdução...",
como o correlato efetivo
dessa
junção inerente ao vir a ser. Ela se define a
partir da oposição realmente hegeliana, que não é de espírito e
matéria mas sim de uno e múltiplo, que
se desdobram como infinito e finito, não
sendo ainda oposição simples, e sim dialética. Assim
o importante quanto ao espírito ou pensamento, é o conteúdo,
que é o Real
infinito,
endereçado como realidade, relações de entidades específicas.
Se
há pensamento,
e não apenas a imediatez do Real, é por esse
desdobramento do
Real mesmo
naquilo que o povoa enquanto realidade, aí onde o múltiplo implica
a finitude de cada unidade
ao contrário da infinitude do vir a ser em sua origem.
Ora,
se assim se podem colocar as coisas, torna-se evidente que pensar
enquanto
correlato do "verbo compreender" (p. 121) é
realizar um conteúdo real, mas assim o ato
mesmo
da
compreensão
é o "testemunho" pelo espírito
(finito)
da atividade do espírito
(infinito),
atividade
de
criação do vir a ser
que envolve nessa inseparabilidade ou indiscernibilidade de espírito
e matéria, o próprio finito conceituado.
Até
aqui, o testemunho, que não é só filosófico, mas já estava em
ato na religião. A partir daqui,
é só
filosófico,
pois a religião alcança o testemunho apenas pela identificação do
absoluto com uma personificação dele, Maomé,
Moisés
ou totem
animal
dos egípcios,
enquanto transporte da Revelação da verdade.
A
religião se resolve no elemento sensível da representação, é
compreensão mas afetiva, e seu meio,
como de representação e mito,
é a arte.
Não
a moderna, cujas
criações refletem objetos já estabelecidos como tais, mas
a primitiva, que criou um dia a forma representável dos objetos
coerentes à ordem do mito religioso.
(p. 120)
Na
filosofia
só,
se completa o movimento
de Verstehen, pois o testemunho, assim que se percebe como do
espírito pelo espírito, se torna autocompreensão, "autopensamento"
(p. 133).
É então que o testemunho ser torna verdadeiramente reconhecimento,
da substância infinita pela consciência finita, superando o limite
da representação. Na religião a verdade estava acima da razão, o
produto desta como
todo produto
humano era o não-divino.
Na
filosofia, o percurso de sua história conduz ao reconhecimento de
Deus na consciência como sua própria realidade, atividade
espiritual, posta pelo desdobramento da realidade a partie do real,
do finito desde o infinito, conservando-se a comunidade da
essência-Real entre ambos.
A
filosofia realizada na modernidade como autoconsciência do espírito,
pode vir agora a compreender a religião e superar a oposição
histórica de
si à religião.
Jesus
é então o meio termo nesse desenvolvimento
ou conciliação,
porque ele enuncia
a verdade religiosa mas ao mesmo tempo fazendo-se homem. Ele
permite à filosofia compreender o sentido da religião, mas ou Hegel
quer assim realizar uma teologia nova, que não é porém a dos
românticos históricos porque recusa o viés jansenista,
e, inversamente a uma doutrina da graça tornada onipotente, desfaz a
dicotomia dos salvos e não-salvos por esposar a universalidade da
salvação;
ou ele quer inversamente, que a religião recue em matéria de saber,
porque de fato a afirmação absoluta da razão finita, afirmação
filosófica da modernidade,
ele
considera
inconciliável com
o
princípio religioso de que o Espírito Santo é infinito,
na medida que o princípio derroga
qualquer outro postulado absoluto além de si.
Não atribui injustiça ao religioso que protestasse nesse sentido,
mas não parece estar concedendo ganho de causa senão à filosofia.
A
especificidade do verbo compreender
em Hegel
é que nele o conteúdo não está fora,
mas por algo bem irredutível a apenas ter sido observado ou
analisado por uma atividade interior, conservando-se porém a base
substancial, o conteúdo observável e analisável, exterior.
A
Verstehen segundo Hegel é do seguinte modo definida: "Para
compreender, como já se notou, é necessária a base substancial do
conteúdo que, chegando ao
espírito
como seu ser absoluto, o toca no íntimo e nele ressoa, e nesta
ressonância testemunha a própria atividade". (p. 121) Também
assim
se expressa Hegel: "a essência não é exterior àquilo de que
é essência" ou "a lei não está fora do indivíduo, mas
é o que cronstitui
o verdadeiro ser do indivíduo". (p. 127)
A
relação
do
que difere, de
finito
e infinito,
de
múltiplo e uno, é então o que há para compreender. Ela
não apenas se resolve na identidade lógica, na coincidência
consigo mesmo, mas realiza
algo, a efetividade material
em
que
evoluem a história,
o
mundo e
ser
humano,
ou seja, o que Hegel designa o concreto.
Althusser
utiliza-se de Hegel, sem o citar e como se fosse algo antitético a
ele, quando emprega os
termos
"concreto
natural"
e "concreto
de pensamento".
Esses termos já estão na hegeliana "Introdução à história
da filosofia".
Eles são usados aí por Hegel para ilustrar a dialética do sensível
e do pensável: "A consciência sensível é mais concreta na
medida em que for mais rica de conteúdo, embora seja mais pobre de
pensamento. Por conseguinte, devemos distinguir o concreto natural do
concreto do pensamento, o qual, por outro lado, é pobre de elementos
sensitivos"
(p.
85).
Não
se devem
utilizar os termos sensível e inteligível, apesar
de tratar-se
de algo semelhante,
porque em Hegel o sensível jamais é ininteligível, ao contrário
de Platão.
Pelo contrário, quando se trata do que nem devemos tentar
compreender,
na fenomenologia da consciência,
é a atividade superficial da mente representativa que suscita de
ordinário multidão
fugidia de imagens
e sugestões evanescentes.
A
comparação útil
a Hegel nesse ponto
da dialética de concreto e abstrato, é
de criança/sensível e do adulto/pensante.
A criança e o jovenzinho são mais concretos no sentido de serem
mais ardorosos, ou
seja, são mais concretos quanto à natureza,
eles agem envolvidos com toda paixão naquilo que fazem.
Mas
o adulto, ser pensante,
mais abstrato quanto à natureza,
é mais concreto na acepção de mais coerente quanto ao termo comum
da comparação, a experiência,
a atividade
própria.
E
nesta o adulto realiza o seu Eu de um modo objetivo, concreto neste
sentido de Real, pois
engajada sua ação consciente na história, como em seus objetivos,
enquanto
o Eu da criança é "momentâneo",
nas suas ações só
havendo
esse Eu infantil.
Creio
ser bem dedutível aqui o estatuto adequado da Verstehen hegeliana às
então nascentes ciências humanas.
Elas tem por objeto
aquilo que resulta das atividades humanas e se produzem como essa
atividade nova de comopreensão das demais. Assim elas reproduzem a
dialética do Real infinito, consciência finita e autoconsciência
como atividade Real (infinito).
Mais
uma vez, temos que a consciência em Hegel não é o referencial do
uno, e sim da efetividade
inerente
ao campo do múltiplo, que não é ininteligível.
Enquanto
consciência por si, ela se desdobra na duplicidade senhor/escravo.
Na efetividade, ela é desenvolvimento, sucessão de figuras
espirituais assim como de sistemas sociais. E enquanto
realidade ela é a
multiplicidade dos seres historicamente atuantes, como dos sujeitos.
Parsons
observou que a base hegeliana da teoria social alemã
vem de que "para Hegel,
a história humana seria o processo de objetivação do único e
singular: Weltgeist",
mas esse espírito do mundo, resulta em "apresentar a ação
humana sempre no contexto de uma coletividade ou de uma totalidade. A
atenção histórica... ou conceito unificador sob o qual os dados
empíricos eram subsumidos não era aquele entendido enquanto uma
'lei'geral ou um elemento analítico, como na tradição positivista,
mas enquanto um Geist único e particular,m enquanto uma totalidade
cultural claramente distinta e incomparável".
O
decisivo, a meu ver, é então que segundo Parsons, "nessa
ênfase sobre a importância da especificidade histórica dos
sistemas culturais e na tendência em tratar todos os dados empíricos
em relação a esses sistemas que se baseia a principal teoria social
alemã de base idealista", ou seja, aqui considerara hegeliana.
O hegeliano sendo que "todo ato humano individual ou um complexo
de ações passou a ser considerado a expressão de um espírito
compartilhando de suas qualidades com uma infinidade de atos de mesmo
ou de diferentes tipos" como "objetificação" do
Weltgheist.
A
questão não é abstrair a irredutibiliddae dos conceitos de
desenvolvimento e mesmo da definição de sociedade do
pós-positivismo e Hegel, mas sim observar a convergência
metodológica dos sistemas sociais enquanto refletindo uma realidade
subjetivada/subjetivante em níveis variados de autoconsciência
assim reflexiva. Ora, o que há de notável nas inversões de Hegel,
historicamente, é que atuando na razão contrária a essa
convergência, elas colocam o que consideram matéria oposta à
consciência como determinante, mas segue-se o contrário de um
aumento de liberdade na previsão da teoria política.
Cada
uma das inversões
subverteu ao seu modo o que Hegel tratou como universal em termos de
cidadania.
O conceito hegeliano
de
revolução contitucionalista na história, que vem a ser a
emergência da subjetividade pensável. A atribuição dos direitos
políticos se tornando portanto, universal, o que a lei concede a
cada sujeito. E
o sujeito, como sua ideia, tendo sido o condutor do desenvolvimento
que se expressa na autoconsciência dele. A
liberdade é a realização da cidadania, o que é atribuído ao
sujeito.
Inversamente,
Marx restringe o horizonte da atribuição legítima dos direitos ao
proletariado. É o proletariado que passa a ser o condutor do
desenvolvimento como ideia encarnada na história. O
proletariado não é o escravo hegeliano na medida que não é
sujeito, mas
verdade da produção.
É esta que porta a subjetividade como função transmutada da
objetividade. O que é realizado na história não é a liberdade
como universal humano, mas
a objetividade da produção, o autopensamento exclusivo da
técnica.
Na
segunda inversão de Hegel, a do Super-Homem de Nietzsche, o
horizonte da liberdade
simplesmente deixou de ser humano. Em
relação ao contraste da teoria política hegeliana e marxista,
Nietzsche é ambíguo quanto à decisão sobre o universal ou a
classe. De fato o direito legitimado por si, pela essência contrária
à iniquidade, para Nietzsche é atribuível, mas só a uma classe, a
dos aristocratas. Assim ele teria invertido o marxismo nesse ponto,
mas ficado do lado de Marx quanto à decisão contrária ao universal
dos direitos políticos. Porém
de fato Nietzsche não deixa de ter uma posição sobre o homem em
geral, não obstante ele pensar a diferença do aristocrata e do
"fraco"
nos mesmos termos de imiscibilidade de consciência que Marx pensa a
propósito de burgueses e proletários. Na
totalidade o ser humano é a antítese da liberdade,
não porque ele é cindido pela supremacia da ordem, como do poder,
mas, pelo contrário, porque ele não é capaz de superar a cisão
pelo lado da supremacia. Só
raros indivíduos não se deixam cooptar pela pregação da
consciência dos direitos humanos, que para Nietzsche é aberração,
já que não há igualdade da pujança criativa dos senhores
relativamente à submissa
legalidade dos fracos. Assim, no todo, a melhor do ser humano para
Nietzsche é aquele que quer ser superado como espécie, pelo
Super-Homem.
Quanto
a Lacan, já vimos que ele não deixa de pensar o proletariado, porém
é muito arriscado realmente afirmar que ele não era oligárquico
aristocrata
ou individualista carismático
em
matéria política. Até porque essa ambiguidade é inerente a muitos
pensadores do proletariado, que não veem neste, enquanto classe,
imediatamente o atributo do governo, mas só à elite do partido,
que nem sempre é avessa a um líder que
marque uma posição central.
Na
atualidade, essa
característica
comum da
parcialidade, inversamente ao universal dos direitos humanos, na
teoria política como campo que poderíamos designar paradoxalmente
hegeliano, constituído
por sucessivas inversões de Hegel
mas
assim extremamente dependentes dos conceitos deste, pode ser
considerado superado,
ou, ao menos, superável.
Com
a expressão hegelianismo paradoxal designamos
o
traço comum da
recusa do Estado de legalidade como horizonte político
revolucionário relativamene ao antigo regime da
nobreza hereditária. Esse
traço onipresente desde meios do século XIX até os
anos oitenta
do século XX, de
recusa do Estado
como legitimidade concreta, nem sempre expressou suas justificativas
denunciando a mentira da legalidade constituída, que na verdade
beneficiava apenas uma classe, em vez de ser revolução real. Ao
contrário, para Nietzsche o repulsivo do Estado era justamente que
assim fosse, que se tratasse da igualdade jurídica e política.
Mesmo
a teoria social assim designada idealista que emergiu na era
neocolonial recuperando o sentido hegeliano do Geist,
não
retomou o conceito hegeliano de Estado, ou a sua concepção de
liberdade civil em termos de subjetividade.
A
recusa
geral do
Estado, de Marx em diante, seguiu-se
do axioma sedimentado por
Marx,
porém corrente no positivismo,
pelo qual o Estado constitucional não emergiu na história a partir
de um desenvolvimento da ideia em trânsito na sociedade civil, mas
sim como
corolário institucional do capitalismo.
Este se tornou desde o positivismo, sem alteração no
pós-positivismo,
geralmente visto como substrato histórico da "sociedade
científico-industrial."
Desse
axioma poderíamos esperar que o desenvolvimento fosse no sentido de
um achatamento do padrão de valor quanto ao bem e o mal. Em Marx,
os
altos ideais do proletariado,
o ser humano merecedor da salvação pelas obras,
o
Estado como
o
contrário. Na
era do Welfare State,
que como produto teórico expressa o único referencial que
prosseguiu a ideia da liberdade constitucional, a sociologia empírica
e o keynesianismo em Economia,
a
contestação
movida pelas
outras correntes teóricas
resultou
vulgarmente
na
preocupação
com a
ineficiência administrativa estatal, que resultava no desperdício.
Na
atualidade, desde o neoliberalismo econômico
ou
globalização
a
assim
designada ineficiência
estatista se evidenciou nas empresas multinacionais, ao nível de
descalabro instituído como extorsão
monetária e opressão
de atendimento na
forma de
ineficiência dos serviços.
Está
evidenciado assim que a ineficiência não é função das estatais
por
não visarem competitividade no mercado, mas
decorre da burla da lei,
possibilitada, inversamente, pelo poder monopolista de penetração
no mercado.
Ora, acreditar que a
ineficiência é
função das estatais não se justifica apenas por falta de prova em
contrário,
na vigência do Welfare State que coibia crimes de cartel,
uma vez que mesmo
então já
se podia antever que a atribuição é petição de princípio. Pois
ineficiência numa estatal e numa empresa privada não difere em
razão de alterar
ou não a taxa de lucro, mas é sempre lesão dos direitos dos
cidadãos consumidores,
burla da lei.
Como
não se pensava na lei, mas na lucratividade
como a mola do progresso, não
se equacionava o que já se sabe há um bom tempo, o fato de que na
economia, ao contrário do que o século XIX pudera prever, estorvar
a produção pode ser tão lucrativo quanto incrementá-la.
Assim
também a corrupção, uma
vez que
não
se
define senão
pela
cooptação do
nível estatal por negociatas de nível empresarial privado,
industrial ou do setor financeiro.
Mas
é óbvio, ao contrário da prática geral de
direitas e esquerdas neoliberais a propósito da redução do Estado
a função do capitalismo,
que a corrupção do Estado não define o Estado.
A
mesma petição de princípio decorre da crítica ao Welfare State
por prática de intrusão na vida privada, pois a consciência
contrária à intrusão é consciência legal, e a mesma burla da lei
como invasão de privacidade é praticada em nível muito mais
avassalador pela multinacional globalizada. O que é compreensível,
pois na "margem" se trata de subverter a representação
constitucional local para fins de monopólio não controlável em
qualquer escala.
Torna-se
compreensível que dos anos oitenta até agora tem havido uma
tendência "pós-moderna"
de revigorar o Estado como horizonte da legalidade civil assim como
dos direitos humanos. Paralelamente a complexidade do investimento
para-legal do imperialismo favoreceu de vários modos a perpetuação
de modelos de "esquerda"
que não obstante ostentarem-se como novidades,
na
verdade logo revelavam estar apenas
perpetuando premissas já superadas,
ostentadas agora pelo a meu ver repulsivo ideal de redução das
problemáticas sociais, do político ao ético, como do âmbito
público legal ao âmbito de relações pessoais.
O
curioso aí é o aspecto regressivo dessas perpetuações, como por
exemplo do marxismo jamesoniano, que retrocede muito quanto à
superação
do
preconceito imperialista ocidental
já
ensejada no
próprio marxismo, pelo influxo dos movimentos de libertação
nacional atuantes nas guerras da descolonização.
Mas
devemos observar que entre Marx e Nietzsche, há
de fato um divisor de águas, representado pela circunstância
histórica da assim designada segunda revolução industrial.
Naquilo que a distingue emblematicamente, a propagação da indústria
como dominante econômico especialmente
na Alemanha, e em
mais países europeus além da Inglaterra, referencial da primeira,
deveríamos
equacionar a transformação do horizonte político da "modernidade"
- se esta se tornou desde Marx o mesmo que capitalismo ou Revolução
Industrial.
Pratica-se
até hoje a balela escolar da modernidade como sendo o produto das
duas capitais revolucionárias, a francesa política iluminista e a
inglesa econômica. Mas isso faria apenas um, se o ideal iluminista
era na verdade repetir o parlamentarismo inglês. A
aventura galante do
liberalismo
capitalístico marxista
com todo o seu onirismo romantizado pela ideologia,
acontece insulada
na Grã-Bretanha, e na
perspectiva da
"Ideologia
Alemã"
neste
outro
país
já não acontecia a história
-
porque lá não se anunciava a deposição do Antigo Regime,
não
obstante o caminho aberto para a indústria.
Ora,
desde a época de Nietzsche, estava patente para todos que os
protagonistas do capitalismo europeu eram majoritariamente
aristocracias favorecidas por seus príncipes, excetuando a
singularidade da trajetória inglesa.
E
aristocracias em que a burguesia já estava incorporada como parceira
ou nova integrante por vias várias, em todo caso o status da alta
burguesia já não se confundindo em parte alguma com o popular.
O
rumo da História era exatamente a emergência do capitalismo de
modelo Alemão,
prussiano.
A
história em que acreditara Hegel estava aparentemente refutada.
Mas
hoje também se pode refutar o que se seguiu como recusa geral do
Estado. Uma vez que ela não
operou a revisão do modelo capitalista
marxista.
Weber é um exemplo importante como já ressaltei algumas vezes. Em
plena Alemanha,
e na vigência geral do capitalismo "monopolista" ou
"financeiro",
neocolonial,
tecia ainda a sua fábula sobre o individualismo protestante de
horizonte jansenista,
contrapondo-se energicamente às propostas de inclusões do
imperialismo desde as colônias escravistas
na lógica estrutural do capitalismo.
Já
o cenário recente está como vimos marcado pela fricção das duas
tendências: a de perpetuação dos discursos anti-estatais da
modernidade e o que designei em sentido estrito pós-modernidade.
Nessa
contradição da atualidade, o peso histórico da teoria do
inconsciente está para ser reconstituído, sendo
de importância fundamental. Mesmo onde não é a psicanálise
prática ostensiva, o peso de sua influência constituiu a frente de
tamponagem da mudança de fundo na informação antropológica social
que ocorre na segunda metade do século XX. Representou o meio de
defletir o impacto da mudança, de manter intocado o princípio
geoegológico do desenvolvimentismo,
como no pós-estruturalismo.
Por
esse meio, se torna patente o essencial do anti-estatismo modernista,
a saber, a identificação de inconsciente e poder aristocrático,
fosse qual fosse o refencial oligárquico na vanguarda do
desenvolvimento.
Em todo caso, o poder não era, enquanto correlato do desejo, a
legalidade universal - nesse sentido hegeliano da constituição
nacional.
Inversamente,
para Lacan "o Outro como sede prévia do puro sujeito do
significante aí ocupa posição
mestra, antes mesmo de chegar à existência, para dizê-lo com
Hegel
e contra
ele, como Senhor absoluto". (p. 289)
Lacan concebe, pois, com Freud, um inconsciente que é unicamente o
do senhor.
O Outro, com maiúscula, é a linguagem ou inconsciente, ou seja, em
que não há alteridade de modo nenhum. O outro com minúscula,
aqueles com que nos relacionamos conscientemente, são posicionados
por nós conforme a estrutura do Outro inconsciente, normal ou
patológica,
isto é,
como um "outro" ou como apenas reflexo de nós mesmos, do
nosso pai, etc.
Porém,
e como demonstração de que o inconsciente é teoria dependente de
pressupostos, vemos que para a concepção pulsional de Freud, a
histeria é a doença que define propriamente o inconsciente, por ser
ela a expressão do puro desejo sexual.
O
fundo do saber é a curiosidade
sobre o sexo.
Na
concepção significante de Lacan, é a paranoia a doença
definidora, por ser ela a expressão da pura ordem. Lacan considera
que o desejo sexual não existe na forma pulsional no inconsciente
porque neste não há o que a função do orgasmo pressupõe, a
relação
sexual. O que subsiste na "castração"
e permite a função do orgasmo
é o
limite inconsciente
na forma
da
barragem do significante da relação
ou da "mulher",
similarmente
à
ordem estrutural do singular em que o "s" do plural tem
posição mas não pode
ser ocupada.
O fundo do saber é paranóico desde o pressentimento
da possibilidade da imagem especular primordial ser despedaçada, o
que forma a imago agressiva atuante nas formas doentias da paranoia.
Também
não me parece pertinente a crítica que Lacan reporta comum a Hegel,
de que os senhores não fazem sociedade entre si. O Estado não é,
ao que me parece, a criação do escravo, mas como
poderia ser a imposição de um só senhor sobre tantos escravos? Se
há um lapso, é entre o embate de duas consciências e a sequência
da consciência conflitiva que se desenvolve num outro cenário, dos
Estados constituídos na história, que refletem
de mesmo modo a sequencia dos
modos
da dominação. Esta
já se faz, portanto, enquanto o que se desenvolve, entre grupos
sociais.
O
exame da interpretação das filosofias na história por Hegel, é
porém o que se precisaria fazer para lidar com o seu
pressuposto
do desenvolvimento, e não há um conceituado sem pressuposto. O
lapso se explica portanto por isso que aquilo que perfaz a história
é o desenvolvimento da consciência como sujeito do saber possível,
que não é como Lacan pensa, do sujeito acabado, mas da
intersubjetividade variável.
Mas
esse é o paradigma comum a Marx, Freud e Hegel:
que há desenvolvimento e que, porém, a variação aí implícita
não é evidente para o que se desenvolve, nem no início, no meio ou
no fim. Torna-se compreensível no fim, mas apenas por um esforço de
saber, ainda que este esforço não fosse possível antes.
Em
todo caso, o saber não é destilado do que resulta
como consciência subjetiva.
É
realmente um esforço, ao cabo de uma luta com o seu oposto, como
Hegel expressa.
O oposto é a consciência comum, o saber de
que ela é resultado e variável, é
obra da ciência e da filosofia.
O
que singulariza
os três pensadores é
o pressuposto como significado do
que
se desenvolve. Aí,
não resta realmente um substrato primeiro comum. Não
obstante podermos suspeitar de que o termo "inconsciente"
em Freud não designa apenas a libido, mas a libido mesmo é o que
aglutina a
pressupota como tal por Freud,
história ancestral em cada um de nós - ou seja, inconsciente é a
variação ou
desenvolvimento.
Em
Marx e Hegel também é assim.
O
que se produz como consciência atual
é
em todo caso a aparência da unidade. Hegel tem ao menos o mérito de
permitir que vejamos o seguinte. Não
há obviamente uma teoria do inconsciente que seja inconsciente, e a
interpretação que se segue do que se supõe observável é ainda
uma questão de consciência. De fato, não é possível sairmos
dela. Se
a loucura a interrompe, a psicanálise só tem o mérito de
interpretar de um certo modo o que a psicopatologia nascente -
em que ela se insere - descobria.
A
saber, que essa interrupção manifesta uma outra consciência, mais
ou menos impermeável à
comum,
nunca
uma total suspensão de
Bewusstsein.
E
dessa negação
do "que" se desenvolve como algo comum entre Marx, Freud e
Hegel,
o que se segue é verdadeiramente científico. Bem ao contrário de
uma Teoria Geral, só podemos lidar com as teorias deles
analisando
o que elas propugnam em sua própria área de problematização.
Assim, repetindo, teremos que voltar sobre a história da filosofia
hegeliana. Mas não
é o que Lacan ou Althusser fazem jamais,
como críticos de Hegel a partir porém de uma outra estrutura, um
outro desenvolvimento.
Pelo
contrário,
o que eles fazem é negar no todo
a
filosofia.
Porém
especialmente Althusser se complica nesse empreendimento porque a sua
crítica de Hegel se expressa justamente como uma teoria da ciência
- o que pelo menos até hoje continua sendo ramo da filosofia.
O
contraste que Althusser procede entre Hegel e Marx
tem
na "Introdução
à crítica da economia política"
de fato o referencial preciso. Althusser
se contrapõe aos que traduzem a oposição de Marx entre concreto e
abstrato por, respectivamente, o real e o teórico.
Realmente
não é assim,
pois se Marx critica o começo
da
ciência
"pelo real e pelo concreto", essas duas coisas não formam
unidade
certa na
"Introdução...", porque,
logo à frente, o contrário do concreto vai ser o simples e não o
abstrato
como categoria teórica
oposta ao real
empírico.
A
Economia política afirma começar pelo efetivo (real e concreto) que
é a população. Porém isso
é falso
ao ver de Marx,
na medida em que a população seria um todo caótico, e, na verdade,
o que se está considerando por esse termo
na Economia
é um conjunto de elementos conceituais simples - como já vimos,
dinheiro, valor,
produção,
trabalho, etc. O
que Marx considera certo é então começar por esses elementos
simples, frutos
abstratos
de análise, e
se elevar em seguida ao que designa o concreto, ou seja, aquilo que é
uma "síntese de muitas determinações". Porém
o movimento do texto coíbe que sempre seja o caso do concreto como
qualquer
população ou o todo, e ele conota melhor
o que
é desenvolvido.
O
elemento mais simples ele mesmo, por exemplo a posse, é relacionado
ao concreto como a um substrato de que esse elemento é a relação.
Marx
critica a Filosofia do Direito de Hegel por subordinar a existência
da posse enquanto
relação jurídica, ao
sujeito, em vez da família ou da tribo.
Porém se assim ele expressa que a
posse
como categoria
simples
depende da "categoria
jurídica mais concreta"
que é a família, nesta
está "expresso mentalmente" o que se desenvolverá numa
"categoria mais
concreta",
a
propriedade, o
que -
ao que parece - só
existe na sociedade mais
desenvolvida.
(p.
15,
o grifo é meu)
Tribos e famílias há que "se limitam a possuir, mas não tem
propriedade". Por outro lado, "pode-se imaginar um selvagem
isolado possuindo coisas. Mas nesse caso a posse não é uma relação
jurídica".
Em
todo caso, Marx afirma que o método certo é
elevar-se do simples como
dinheiro,
trocas,
divisão
de trabalho
ou valor,
ao
complexo
como Estado, nação, mercado internacional.
(p. 14)
Mas
desse
modo como vimos, aporta-se à variação
do
mais ou menos concreto
como de todos mais ou menos desenvolvidos,
a partir das mudanças de categorias simples como posse ou
propriedade.
Althusser
entende
que Marx esteja referenciando dois concretos, "o
'concreto-do-pensamento'
que é um conhecimento e o
"concreto-realidade
que
é o seu objeto". (p.
162) Já
assinalei que não obstante o procedimento de Althusser nesse
contexto, diretamente votado contra Hegel, ele omite que esses termos
são expressamente hegelianos, como encontra-se na "Introdução
à história da filosofia".
Mas
ele
utiliza esses termos
como se por esse meio Marx
quisesse evitar
que a
realidade
fosse considerada
como um problema para o
conhecimento,
apenas porque ela
é o seu
objeto.
Conforme
Althusser,
"Que o concreto-do-pensamento (Generalidade III) considerado
seja o conhecimento do seu objeto (concreto-real), eis o que não
constitui 'dificuldade' a não ser para a ideologia, que transforma
essa
realidade no chamado 'problema' (o Problema do conhecimento),
que considera como problemático o que é justamente produzido como
solução não-problemática de um problema real pela própria
prática científica: a não-problematicidade da relação de um
objeto e do seu conhecimento".
Porém
assim, ao mesmo tempo ele designa o objeto como Generalidade 1, em
termos de "abstrato", relativamente ao "concreto"
ou Generalidade 3. O que é a
seu ver uma
especificação
diversa da ideológica,
onde o concreto seria a essência do real, e o abstrato seria a
essência do pensamento, ciência ou teoria. (p. 162, 163)
Conforme
especifiquei acima, não
creio que apenas
o
concreto seja
o conhecimento produzido, não porque seria antes o real, e sim
porque
é da ordem do conhecimento do
mesmo modo que o simples, o abstrato analítico. O
concreto
está sempre sendo visto
em Marx
como o que, segundo
as
categorias abstratas,
se desenvolve ou é mais
desenvolvido
assim como mais
concreto.
Concreto e abstrato são classes de categorias.
Na
verdade, Marx mesmo coloca a questão do conhecimento: "No
entanto, essas categorias simples não possuem também uma existência
independente, histórica ou natural anterior às categorias
mais concretas"? Ele
responde em francês, não sem charme: "Ça depend."
É nesse ponto
que introduz a crítica que vimos acima a Hegel, por ter colocado a
posse jurídica como primeiro individual e não comunitária ou
familiar. Mas
com o objetivo de mostrar a
variação categorial do mais e do menos concreto conforme a variação
do
mais e do menos desenvolvido. Pode existir uma
categoria simples antes da
categoria concreta, mas aquela não exprimiria as
mesmas relações - o dinheiro que existe antes do capital exprime
relações dominantes que se tornam porém subordindas na categoria
mais concreta que é a sociedade desenvolvida capitalista.
Vemos
que a imaginação do selvagem isolado não é aí meramente
retórica.
A coisa em si como a posse simples existiria antes da família como
categoria concreta, porém não seria a mesma relação, que só na
família pode se colocar como de natureza jurídica. Esta
é objeto de ciência possível, a coisa em si,não.
Porém
de fato Hegel e Marx parecem estar referenciando dois aspectos
diferentes do direito,
não obstante Marx parecer ignora-lo.
Hegel
poderia estar refletindo o que se segue do
fundamento
filosófico
então em trânsito,
lockeano,
pelo qual
direito
veio
a ser o
termo atribuído ao correlato
dos sujeitos - justamente não de
grupos, como vimos. Essa
a transformação capital da modernidade. Em vez da definição da
pessoa pelo
seu
dever relativo
a
um princípio transcendente, o grupo representado pelo rei e/ou pelo
mito, a pessoa como referencial dos seus direitos privados.
Mas
a posse essencial do sujeito desde
Locke, um dos artífices da transformação, é
a sua
existência
mesma, uma
vez que inalienável.
O cerne que veio a ser pensável do que é sujeito, e desde aí
fundamento do pensar, a saber, esta pessoa aqui, aquela pessoa ali,
não podendo haver confusão de quem é quem ou sobredeterminação
alguma de ambas privadamente por uma terceira ou pelo que quer que
seja. E
o
correlato de existência inalienavelmente pessoal, individual, como
dos direitos privados, abarca os
produtos do trabalho próprio que servem à
pessoa.
O
fundamento da modernidade, que a pós-modernidade não ultrapassa mas
apenas quer mais fazer valer, é pois a cisão de público e privado,
que na teoria política de Locke a Rousseau ainda é abstrato, se o
público ou estatal é ainda correlato de vontade geral.
Em
Hegel é que culmina a estabilização cisória, com o sujeito
especificamente colocado como o referencial dos direitos
constitucionais. Esse
é o princípio efetivo das constituições nacionais contemporâneas,
especialmente após 1945, dado que até aí só os Estados Unidos
haviam logrado obter um governo realmente republicano nesse sentido
de oposto às monarquias de privilégio.
Já
vimos que o capitalismo oligárquico é documentadamente o
responsável pela corrupção das instituições genuinamente
constitucionais mesmo
- e sobretudo -
nos USA, onde
porém obtem maior relevo aos estudos sócio-políticos porque desde
o inicio, na transição ao século XX, ali
o
capitalismo imperialista já estava articulado pelo que agora se
revela a essência, a dominação de business
midiático.
Ou seja, também não a do "saber" de
disciplina escolar, que
preconizavam Lacan ou Foucault
como definição de burguesia.
A
substância anti-legal e para-legal do capitalismo
e sua articulação bussiness midiática
torna-se límpida numa documentação sucinta reunindo Cl. Julien
(L'empire americaine), Maurice Dobb (A evolução do capitalismo) e
David Halberstam (The powers that be). Para a penetração
anti-legal internacional de carteis desde os princípios do
capitalismo clássico europeu, Karl Mirow (A ditadura dos carteis),
que tem relevo para a penetração dessas "multinacionais"
na ditadura recente em Brasil.
E
cobrindo o golpe ditatorial imperialista
aqui,
Rene Dreyfuss (1964, poder e golpe de classe).
Especialmente
devemos relacionar Julien e Dreyfuss como respectivamente o esquema
geral do imperialismo e um exemplo de sua aplicação local.
Quanto à globalização, porém, Dreyfuss não se mostra o
referencial adequado, não obstante,
dentre os que conheço,
ser
o seu estudo
a propósito
o
único que inclui
referência à super-exploração imperialista direta neoliberal.
Wilson Canno ("A nova des-ordem internacional") é um bom
comentário introdutório ao
sistema protecionista do capitalismo central
exemplar da União Europeia,
assim predatório
à economia periférica,
porém não aprofunda realmente a consequência
imperialista.
Quanto
ao acoplamento micro-informático do business midiático
desde os anos noventa, não
conheço cobertura alguma, tanto mais flagrante se torna o
avassalamento odioso das consciências. Relevante
ao tema da singularidade do capitalismo norte-americano ou
neocapitalismo - no sentido do esquema da "produção"
industrial
- relativamente
ao que
então se torna
designável capitalismo clássico europeu,
é
o estudo de Pierre George ("O
mundo atual").
Refere-se a um quadro anterior à globalização, porém como esquema
econômico dessa diferença específica conserva-se emblemático.
Enfatiza
os aspectos inovadores
da produção do neocapitalismo norte-americano:
centrada em bens
de consumo
ao invés de bens de produção,
opera
produção abaixo da capacidade
após o crack da superprodução e reinveste
o excedente em pesquisa industrial, usa
psicologia social para
planejamento da
penetração
de produtos no mercado, tem preferência por importação de matéria
prima e fonte energéticas com domínio sobre os produtores mundiais,
antes que por uso dos recursos próprios. Julien explorou temas
paralelos, como a importância das forças armadas na
empregabilidade e requisição de serviços e produtos internos.
Para
algo semelhante relativo porém ao capitalismo asiático recente, não
se propagaram estudos de fundo
que eu já conheça,
mas há referências superficiais em manuais de História
e Geografia, nesta última em que maior
relevo se concede ao novo planisfério (do conflito norte/sul), assim
como para as consequências reais na
globalização.
A
invasão ostensiva do crime na governamentalidade e no funcionamento
de empresas públicas e privadas como consequência da globalização
e do neoliberalismo econômico,
atravessando a oposição de direita e esquerda, só está sendo fato
na
atualidade, sendo o caso brasileiro deploravelmente típico. Estando
necessitado de estudo, reporto aqui
alguns
itens. A
característica escravista
da globalização como recolonização montou
um esquema
de avassalamento dos direitos humanos e violência direta, como
regime em nível de atrocidade
no trato cotidiano de empresas públicas e privadas, que detem
monopólio de serviços essenciais.
Não
se restringe aos conhecidos escândalos ("lava-jato") de
autoridades
por corrupção financeira,
nem
aos escandalosos pacotes de abuso dos direitos trabalhistas que as
mesmas autoridades estão tentando impor. Mas
deve ser levantado em nível não menos escandaloso.
Dependeu
para consolidar-se
como prática de subalternos obviamente atuando conforme esquema
constante de atos criminosos contra a cidadania,
não da direita, mas dos
partidos de esquerda no
governo por mais de década, esquerda histórica
(PMDB) e radical (PT),
com desdobramentos de outros partidos do mesmo tipo (PDT, etc.),
atuando num continuum
com direitistas
(
DEM).
O protagonista do roubo direto dos salários de funcionários
públicos (suspensão/atraso do s pagamentos) assim como das
tentativas de imposição de
"pacote da morte" (medidas avassaladoras dos direitos
constituídos) são do PT e do PMDB. Alternativas não conhecemos,
que ostentem compreensão e valorização do respeito democrático
inerente à constituição vigente.
Todo
o esquema
de abuso direto por parte de cliques de subalterno atuando nos
serviços básicos,
redundam
num monstruoso aparato de dominação propagandística info-midiática
totalmente ilegal, de invasão e abuso escravista da privacidade,
tipificando mentalidade em nível psicótico de desrespeito aos
direitos da pessoa humana.
Também tipificando obviamente relação direta dos tais subalternos,
com redes de multinacionais patrocinadoras dos produtos ou do
business info-midiático - além dos demais serviços envolvidos.
A
organização de grupos atuantes neste país tem sido feita como
esquema de total desrespeito à privacidade,
ou seja, como escalada de crimes:
imposição de domínio direto sobre a vida particular
por meio de manipulação dos serviços com tortura psicológica e
extorção monetária por meios ostensivamente ilegais como cobrança
de contas estapafúrdias sem polícia para resolver os
casos,
inclusive com reapresentação de cobrança de contas já pagas,
cárcere privado com óbvio "panopticum" (visibilidade
clandestina) de pessoas particulares, desrespeito em todos os níveis
do trato pessoal, ausência de características de legalidade na
atribuição de atos permitidos a empresas, cuja atuação como
vimos é
extorção monetária por vias de ostensiva criminalidade
para muitos itens sem exigência de recibo,
além de opressão de atendimento, etc. A
identificação dos esquemas de ação, dos responsáveis diretos,
assim como registro dos casos mais flagrantes, está se tornando
urgente. A
pena de morte deveria ser aplicada aos identificados como
responsáveis,
por ser o nível do assassinato e da hediondez o conduto dos atos
desses seres cujo estatuto humano está totalmetne desfigurado, o que
deploravelmente atinge proporçoes impossíveis de se coadunar com
qualquer admiração a um povo, tendo sido antes o brasileiro. A
morte da arte já se configurou item reportável na teoria
pós-moderna, porém as condições dessa
morte pela
cooptação total das linguagens pela propagandística nazista da
corrupção "brasileira" é um fato triste.
A
anti-legalidade estatal do capitalismo significa pois ser
essencialmente
oligárquico e contrário
à democracia
e livre
empresa - não confundindo-se de modo algum a
esta
com o epíteto "capitalismo". O termo
pós-modernidade
subjacente a esta redefinição do capitalismo, justifica-se
à luz do que vimos
sobre a
"modernidade" nesse outro sentido, do
que vem
desde
Marx em
termos de contestação
à possibilidade da liberdade na ordem pública
de Estado.
A
pós-modernidade
nessa acepção estrita
é
atribuição
em geral
da cidadania sem privilégio histórico de diretiva quanto
a determinado
grupo,
seja
nos
rumos do
desenvolvimento
ou de definições da gênese.
Minha
elaboração da metacrítica "geoegológica" é
pós-moderna. As questões da cidadania e Estado relativas a
nacionalidade são o estofo do questionamento pós-moderno, não
disposição de fórmula doutrinal que o defina, assim também não
há fronteira divisória de algum estado de coisas ao mesmo tempo
constitucional e pós-nacional, relativametne à ambiguidade moderna,
do Estado e sua contestação,
esta
sim, universitária-disciplinar.
Voltando
ao tema, vemos que
Marx,
ao contrário do uso filosófico desde Locke
e constante em Hegel,
certamente referencia o Direito como atribuição
intersubjetiva qualquer,
com valor de sanção legal, de liberdade e dever.
O
sentido filosófico opõe direito à dominação - assim a monarquia
despótica e o escravismo são dominação em Locke,
e não direito.
O sentido propriamente legal, pelo contrário, colocará qualquer
sistema de atribuições legais como formas
históricas
de Direito desde que possam acarretar meios sociais
de
retribuição ou punição de transgressões.
Ora,
Althusser procede a crítica de Marx a Hegel com
base numa elucidação do que opõe concreto e abstrato,
na qual a atribuição que vimos ao objetivo de Marx, é agora a do
seu período
pós-feuerbachiano. Ou
seja, não há agora inversão de Hegel
com
base na preminência do real como concreto sobre o abstrato
como
teórico, mas sim a
atribuição da concretude ao conhecimento, assim como da validez às
suas abstrações. O
visado como contraditório em Feuerbach é que ele não poderia
atribuir realidade ao que propriamente produz como conhecimento. A
ideologia aí, como em que Feuerbach permanece, não é uma
"abstração em geral", mas uma "abstração
ideológica determinada".
A
ideologia é pois ideológica, mas
o seu contrário, o conhecimento, não vai de generalidade (I) à
generalidde
(III)
como em Hegel, isto é, conforme Althusser,
pela "autogênese do conceito...". Por
que não são a mesma generalidade, enquanto na dialética hegeliana
o
movimento implica
que "o universal abstrato se produz como concreto".
Confundir Marx e Hegel nisso equivaleria à confusão "das
espécies de abstração, de generalidade em ação na prática
teórica".
Ora,
a questão aí é que
o problema do conhecimento não foi de fato colocado, mas tampouco
suprimido ou sequer evitado.
Marx
efetivamente
ilustra sua defesa metodológica em contraste a Hegel, mas o critério
subjacente é de todo
o
resultado
da
ciência determinada, a Economia, e não o que Althusser designa
prática teórica em si.
Marx
inverte de fato, mostrando os dois procedimentos como conduzindo a
resultados contrários. O
método que ele critica partiria do que ele designa "representação
plena" - e não "concreto" - mas assim o resultado é
que "volatiza-se em determinações abstratas". Vindo
destas últimas porém, somos conduzidos "à
reprodução do concreto por meio do pensamento". Hegel, ao ver
de Marx, não faz o criticado,
mas se ilude porque considera que todo o processo é imanente ao
pensamento, e assim concebeu "o real como resultado do
pensamento que se sintetiza em si, e
se move por si mesmo". Ao contrário, o método que consiste em
elevar-se do abstrato ao concreto
não é senão a maneira de proceder do pensamento para se apropriar
do concreto, para reproduzi-lo como concreto pensado".
Porém
Marx omite
nesse ponto, o que é que Hegel está colocando como o concreto,
digamos, na qualidade de objeto
da ciência. Nada além do próprio pensamento, na Lógica ou da
consciência na Fenomenologia. Mas
assim porque Hegel está interessado na questão que Marx suprime com
a palavrinha mágica "reprodução". Ao
ver de Marx, o problema do conhecimento é resolvido pela proposição
de que o
pensamento reproduz
na sua concretude, aquela que é a do objeto, por meio da abstração
categorial. Mas o que o
pensamento
ganharia com isso, poderíamos
indager, se
o objeto fosse o próprio pensamento, na qualidade não de
proponente de uma ou outra ciência,
mas da
validez como critério do que produz como teoria
qualquer
- e não, por exemplo, apenas
ideologia
apropriada a um certo objetivo do desejo... Ou
mesmo,
na
qualidade de produtor de ideologias.
Assim
Hegel se interessou por essa questão de como o pensamento se
relaciona com seu objeto, se
ele não se relaciona sempre de um mesmo modo, e que modos são
esses, de maneira que a diferença da ciência na história possa ou
não se validar como "reprodução" de um concreto naquele
do pensamento, a partir de ser ou não possível ao pensamento assim
auto-validar-se.
Ora,
para Althsuser, cuja
sutileza nesse ponto é tão descartada
em nome da "implacabilidade" anti-ideológica,
que considera a suposta ignorância hegeliana
da diferença da generalidades I e III
como a fé hegeliana na generalidade I como essência e motor da sua
própria transformação em III.
Absurdo, conforme Althusser, o mesmo que pensar que
seria a hulha que por seu autodesenvolvimento dialético produziria
"a
máquina a vapor, as usinas, e toda a extrordinária aparelhagem
técnica, mecânica, física, química, elétrica, etc., que hoje
permite a sua extração e as suas inumeráveis transformações".
Assim a nossa consciência é
para Althusser como a hulha, devendo
ser transformada num produto totalmente extrínseco a ela.
Porém
sendo que se
Hegel vem a considerar de fato o
que Althusser designa as
três generalidades como
diversas entre si, é porque a
seu ver ele
atribuiria a sua divergência a algo totalmente extrínseco,
"o fenômeno
de outra
realidade,
para ele essencial, mas ideológica de parte a parte: o movimento da
Ideia". É
nesse ponto que incide
a crítica althusseriana
da "interioridade simples", como aquilo que Hegel supõe
desenvolver-se.
Ora,
nesse ponto mesmo, desfaz
Althusser
a
simplicidade
da Generalidade I, e é aí que já não se poderia falar de inversão
- mesmo
se Hegel acredita nela
como o que se desenvolve por si mesmo. De fato ela não existe: "Mas
ainda é verdadeira essa Generalidade I"? Se vimos Marx
estipular como o começo o produto da análise, para Althusser,
inversamente, a
generalidade
1 é agora "por essência, inadequada à essência dos objetos
dos quais a abstração deveria extraí-la", por isso acabou-se
o mito da abstração como
meio do conhecimento, a Generalidade 1 é ideológica de ponta a
ponta, ou um misto confuso de práticas incongruentes entre si.
Ela
ainda é "matéria
prima"
da Generalidade II, mas esta lhe é por natureza diversa, como "o
trabalhado" o é "do que trabalha", puramente passiva
e extrínseca.
Além disso, não poderia haver uma política hegeliana porque a
teoria social de Hegel prevê esferas que articulam a sociedade, mas
não a estrutura com dominante,
a base econômica, que
permite
à complexidade real ser unidade. Aqui algo que poderia parecer
inusitado para um estruturalista - que não reconhece o todo senão
como a fantasia gerada pelo real, as diferenças das partes.
Inversamente, trata-se da tese da sobredeterminação como o que
estrutura a dialética marxista.
A
sobredeterminação consiste
em que contradições secundárias, relacionadas à história local
e ideologia,
são
inteiramente relevantes ao destino da contradição principal, a luta
de classes como relações de produção. Ambas
as contradições, secundárias e principal, perfazem a mais firme
totalidade social, Althusser porém querendo assim se definir
contrário a Lukacs.
Mas
também
teríamos,
ao contrário do pretendido,
que a dialética marxista é a lógica de supressão-conservação
de Hegel,
quando
se diz que a prática teórica se revela do mesmo modo que se
suprime, pelo fato da discrepância entre as generalidades I e III
(p. 167).
Porém
isso
não é dito Aufhebung, que Althusser traduz por "superação",
como o que não
é inerente à dialética de Marx.
(p. 173)
Pelo contrário, as contradições -
não
obstante duplicadas como assinalamos - são também algo que não
altera a estrutura totalizante da unidade. Ou
seja, a produção como determinação
em última instância, implica a unidade como estrutura com dominante
que impera sobre as contradições e nelas. (p. 181).
O
que Hegel não considera,
de modo que sua unidade seria apenas "espiritual"
como negação continuadamente
negada em virtude do "princípio simples interno" que nas
subsequentes negações
se aliena para melhor se afirmar.
Vemos
porém a mesma inteligibilidade contradições - todo, entre o que
Althusser julga possibilitado pela virtude da dominante, e o que ele
supõe ser a defasada totalidade hegeliana.
Além disso, Althusser oblitera aqui o fato da sobredeterminação
implicar o escalonamento da produção como base do conhecimento
possível a partir do que o Lire le capital empreende como
interpretação do que Marx estabelece em termos de desenvolvimento
- a ciência, só com o capitalismo, e assim, automaticamente, a
consciência.
Mas
se Hegel procede a sua história do desenvolvimento
na imanência da consciência e sua clivagem conflitiva
(senhor/escravo),
é
na história das formas que se propuseram como saber, e sua relação
mútua, enquanto formas que expressaram o vir a ser da consciência
como liberdade,
que ele vai colocar o meio de elucidação do
que se desenvolve e como o faz. Já
na
classificação marxista dos modos de produção, há a dicotomia do
ideológico e do científico na história, portada pois sobre algo
de todo extrínseco
à consciência, o desenvolvimento da produção.
Aqui
seria interessante um cotejo das Lições de filosofia de história
de Hegel, conforme sua posição das sucessões de Estados, e os
sucessivos
modos
de produção
históricos
propostos por Marx. Na
verdade o que se poderia considerar o positivismo de Marx, é modesto
perto do positivismo de Althusser - enquanto este como
vimos um
escopo comteano de arbitrar sobre todas as ciências, a partir do que
seria o domínio da única ciência social
marxista.
Bem
inversamente ao que Althusser atribui como a razão do fracasso do
stalinismo como um meio de perseguição ditatorial,
a saber, a ignorância da sobredeterminação, devemos aqui colocar
como o motivo, não apenas suposto mas expresso, o que o saber dela
não alterou.
A pretensão
de um marxismo que é ao mesmo tempo um positivismo nesse sentido de
uma teoria geral acima
da interpretação.
Acima, pois, da variação na cultura, o que Althusser designou o
campo da contradição secundária, o aspecto histórico nacional.
Vemos
como se torna ambígua a observação de Althusser. Se Stalin pecou,
não foi contra a
contradição
principal, a
estrutura ou
luta de classes. Mas o que era, ou podia ser, a
circunstancial? Senão o atraso nacional russo,
conforme Althusser
expressa em "Marxismo
e humanismo":
"país de origem econômica
e culturalmente 'atrasado'"
("A favor de Marx, op. cit. p 211).
De fato nesse artigo não há muito contra Stalin, se o culto da
personalidade
pode
ser atribuído a uma mania humanista profundamente arraigada em
corações ingênuos - embora como todos sabemos o marxismo humanismo
estava sendo condenado pelo marxismo soviética
mesmo pós-stalinista
nos quatro cantos do mundo. Não, o remédio adequado
à Russia soviética pós-stalinista
não
estava na assim designada renovação
humanista daquela
época, sobretudo
em Lukács,
ao ver de Althusser,
mas
na retomada da eficiência restrita à organização científica dos
problemas.
Que
contraste deste artigo com o tom aparentemente indignado de
"Contradição
e Sobredeterminação",
"... quando se coloca a questão de saber "como
o povo russo, tão generoso e altivo, pôde suportar numa
tão vasta escala os crimes da repressão estalinista; mesmo, como o
partido bolchevique pôde tolerá-los",
e, sobretudo, na "interrogação" determinante: "como
um dirigente comunista pôde ordená-los?" (p.102)
Para
Althusser, a resposta não é o importante, mas a alternativa
ao humanismo.
Ler Marx e depurá-lo do que não lhe pertence, sobretudo de Hegel.
Uma
resposta consequente, só a partir daí. Aparentemente
ele conclui que para responder precisaríamos de mais pesquisas que
até então se obtivera. Mas na verdade,
como vimos, ele
mesmo teria respondido, a partir da sobredeterminação como o foco
marxista da análise histórica, uma lição que Mao Tse Tung já
havia compreendido mesmo se não
a
desenvolvesse com todo o rigor que Althusser reclama para ela.
Ora,
a resposta
althusseriana
é na verdade contraditória, justamente quando sobredeterminada,
isto é, focalizada em seu correlato de pergunta, a revolução
soviética,
ao invés da luta de classes.
Pois ela diz duas coisas
ao mesmo tempo:
a) que a Revolução Soviética
aconteceu, por causa da sobredeterminação, a situação
politicamente explosiva
da Russia leninista, não obstante não ser previsível apenas pela
contradição principal,
ou seja, não por causa desta,
uma vez que o país não tinha burguesia industrial;
b)
que a Revolução Soviética não aconteceu, naquilo que sobrevive
nela
de pré-revolucionário,
por causa da sobredeterminação, embora tenha acontecido por causa
da luta de classes como contradição principal
subjacente à situação politicamente explosiva,
a super-exploração econômica
tzarista
e a informação europeia marxista
dos
ativistas exilados
assim conscientizados de classe como proletários.
A
meu ver,
se Marx supera
o positivismo dele próprio, se
pode observar a sociedade como um contexto de contradição em
desenvolvimento, é
nisso em que permanece dialético desde a sua relação de juventude
com Hegel. Essa
antítese de positivismo e dialética, como o que explica a
originalidade ímpar de Marx, tem sido referenciada amplamente. Mas o
cotejo que propomos,
dos modos de produção de Marx com os Estados sucessivos de Hegel,
seria interessante para mostrar em que sentido ele fez a inversão
positivista daquilo que Hegel conceituou como a sucessão das
fases na
consecução da Liberdade,
ao mesmo tempo que Marx
preservava
a dialética como empecilho à glorificação spenceriana burguesa do
capitalismo como corolário
direto da luta pela vida. Ou
seja, aí subjacente, o sintoma geoegológico paradigmático do
"desenvolvimento".
Mas
o escopo do
presente
estudo sendo o
conceito hegeliano do desenvolvimento, já
se torna oportuno retornar ao mapeamento da Lógica.
continuação
do Hegel ///
A
gênese lógica
e a ciência do Estado
Acima
vimos que o intervalo temporal entre Hegel e a pós-modernidade, está
preenchido por uma tendência única que se deixa caracterizar
por sua relação ao texto hegeliano. A
tendência que designamos hegelianismo paradoxal, de uma recusa geral
do Estado como correlato da liberdade da cidadania tomada
universalmente,
veio
sendo entretanto
preenchida por sucessivos
focos teóricos cuja tessitura julgamos poder conceituar
em termos de inversões de Hegel, dependentes pois do seu texto para
se constituir, entre Marx, Nietzsche e Lacan.
O pós-estruturalismo integraria um quarto ângulo, porém ele está
integrado como deriva de Nietzsche.
Em
geral, sedimentou-se essa deriva como filosofia francesa, com uma
conexão algo singular no sovieticismo. O
próprio Lacan está relacionado a Levi-Strauss, este o fundador do
estruturalismo, e o Althusserianismo é o horizonte marxista dessa
linhagem.
Paralelamente
referenciei o pós-positivismo na teoria social como uma deriva
paralela do hegelianismo, que por um lado é paradoxal no sentido da
recusa do Estado, mas por outro lado manteve com Hegel uma relação
não frontalmente
negadora. Essa
linhagem da teoria social
que tem uma espécie de centro em Weber mas integra várias frentes
de pesquisadores importantes,
mantem relação
com as derivas teóricas que se designam hoje "humanismo"
(do
século XX),
como a fenomenologia,
a hermenêutica e a "teoria crítica" da Escola de
Frankfurt,
todas enfeixadas num horizonte que tem sido tratado como
existencialista.
Ainda
que sejam estas derivas de cunho original, não propriamente
hegeliano, algo recorrente é estudá-las tencionando recuperar sua
origem, ao menos como possibilidade, em Hegel.
A
razão é que entre essa linhagem e a que citei antes, pode-se
estabelecer uma partição de tipo dicotômico, entre respectivamente
idealismo e materialismo.
Por
isso vimos o exemplo parsoniano. Hegel é associado como origem,
naturalmente,
à linhagem que possa ser considerada idealista contrariamente à
materialista, que tem origem ligada à crítica a Hegel como a todo
idealismo, mas que
assim
seria distinto dele. Há
inclusive um conceito que pode ser considerado a convergência da
linhagem designada idealista à origem hegeliana, o parâmetro comum
da Verstehen. O compreender defende-se como meio adequado às
ciências humanas que assim tem um âmbito próprio de sua operação,
diferente do Erklaren, o "explicar" das ciências naturais.
Em
geral essa tendência se reuniu como um parâmetro comum designado
funcionalismo. Ela
é muito rica em correntes
e teorias de alcance muito variado nas ciências humanas e filosofia,
na Alemanha, e em vários países tem expressão ao longo do século
XX, mais como um horizonte do pensamento alemão.
Na
atualidade, temos constatado
uma tendência para tratar a crítica a
Hegel, originária
do
materialismo, como
já não suficiente para caracterizar algo de todo distinto. Na
pós-modernidade uma oposição mais integra do que separa os termos.
Meu modo de encaminhar as questões está coerente com essse modo de
ver, e assim lancei mão do conceito de hegelianismo paradoxal,
uma expressão modulada do que se encontra em Jorge Dotti, que fala
de
"anti-hegelianismo
paradoxalmetne hegelianizante dos anos 30 e 40 do século XIX
alemão",
em seu artigo intitulado "A
crítica ao universal
(Das Allgemeine) hegeliano em Marx e Stirner"
(in: "Estado e política: a filosofia política de Hegel, op.
cit. 7).
Aqui
seria necessário enfatizar o
que constatei como o
caráter algo estranho daquilo
que se enfeixa
como
a
"modernidade",
nesse sentido de um conjunto determinado de teorias bastante
heterogêneas mas com uma base comum,
de Marx ao pós-moderno.
Pois, se a tendência dominante não foi a teoria social, e
sim o materialismo, no sentido da história efetiva
devido
ao peso do marxismo, entretanto o que ocorre na liberação
progressiva do corpo ao pensamento é a minoração do horizonte da
liberdade, e não o contrário como se esperaria.
O
estudo de Althusser que acima desenvolvemos demonstrou claramente que
se trata no materialismo de um determinismo
sempre mais cerrado,
com ambição de domínio sobre toda produção científica,
frontalmente hostil à espontaneidade que
caracteriza em Hegel os produtos do espírito. O determinismo implica
segregação da
cidadania constitucional do horizonte da revolução emancipadora,
como tal porém conforme ao determinismo pressuposto. Em vez da
cidadania como liberdade do ser humano, instituem-se grupos supostos
de privilégio na condução do desenvolvimento emancipador, como o
proletariado ou o movimento psicanalítico, e em Nietzsche até mesmo
decorre a antítese entre humanidade e liberdade, pela preconcepção
do super-homem.
Após esse resumo do
que vimos até aqui, saliento que não pretendo defender a tradição
idealista, não obstante meu rechaço ao determinismo. A sua
hostilidade à ciência por uma preconcepção de "todos"
inteligíveis a compromete muito, não obstante ter bastante
potencial de sugestão temática. Ulteriormente a ambos,
materialismo e idealismo, o neopositivismo, oriundo de Viena mas
consolidando-se como referencial da cultura anglo-saxônica,
instaurou-se como adversário comum a eles, porém, não sendo o que
considero viável, entretanto é a colheita da pesquisa empírica
nessa mesma cultura, o que tem sido o foco mais conveniente à
necessidade da transformação pós-moderna.
Isso não é um
paradoxo, posto que o neopositivismo que progride desde o Círculo de
Viena de Schlick a Carnap e Tarski, ao naturalismo de Nagel e Hempel
e finalmene à estabilização da Escola analítica após a
pragmática de Morris, é um centificismo determinista alternativo ao
materialista quanto ao conteúdo, mas tão radical quanto este na
forma, recusando também as ciências humanas pela defesa
epistemológica de um fisicalismo unificado.
Enquanto isso
evoluía, a pesquisa empírica em humanities veio revelando cada vez
mais a singularidade dos contextos sócio-culturais, sobretudo a
contraridade das descobertas a previsões estandardizadas, o que
induz a pesquisa in loco sempre renovada, sem sedimentação possível
de ilações deterministas.
Na condução
desta vertente não penso tanto nos Webb ingleses, ainda que também
eles, como mais em Barbara Wootton e na primeira Sociologia de
Chicago, a de Park, e não a pragmática de Dewey seguindo Peirce e
James. Esta tem na pós-modernidade um expoente em Richard Rorty,
porém com consequências contrárias à tendência que convem à
maioria das questões que enfrentamos, que é de valorização da
epistemologia, bem ao contrário do que ele pretendeu.
Quanto às
origens estadunidenses da pesquisa operacional, é interessante
observar que antes ou paralelamente ao pragmatismo, Hegel é a
influência importante na modernização pós-positivista do
pensamento americano. Nessa corrente se destaca Royce, um pensador
verdadeiramente entusiasmante, mas também a renovação teológica
que se tornou inclusiva da teoria da evolução.
Não creio que
essa influência hegeliana estadunidense estivesse limitada ao
referencial de época coerente com a disputa dos modos de vida, que
Rorty, em Achieving our Country associou a White Whitman - e que
curiosamente hoje reaparece em comunitaristas a meu ver equivocados
quanto ao hegelianismo, à exemplo do que vimos em Thadeu Weber.
Segundo Rorty, a
época de Whitman se limita ao despontar do século XX, quando,
inversamente, passou a tratar-se de um horizonte humanista de soma
dos esforços por um mundo politicamente justo, integrando por
exemplo a luta anti-racista e várias formas de ativismo que o
pragmatismo universitário depois domesticou, interiorizando a
esquerda em burocráticos departamentos institucionais. Rorty, a
criança deweyana, não o deplora muito, compreensivelmente.
A meu ver, mais
atenção teria que ser canalizada ao tema do hegelianismo na
América, pois vários modos de traduzir a dialética histórica para
fazer a síntese designar a independência americana evoluíram tanto
nos USA, como na Escola de St. Louis, quanto no modernismo brasileiro
de Oswald de Andrade. Este a quem não se pode limitar a um horizonte
realista positivista como o de Whitman.
Em todo caso é um
despropósito deleuziano pretender que Walt Whitman detem a fórmula
da literatura norte-americana que é grandemente heterogênea e rica
de estilos, bem inversamente.
A geração beat,
por exemplo, assim chamada dos "negros brancos" por ser
composta de brancos marginalizados por questões de classe ou opções
comportamentais - quanto aos expoentes literários conhecidos -
influenciada pelo budismo e pelo Zen tanto como pelo jazz negro e
raízes aborígines, pela cidade e pelo campo, pelo norte industrial
saxão e pelo sul e México hispânicos, é originalmente
estadunidense, mas assim pós-moderna de um modo que o concomitante
nouveau roman francês não é, pelo menos para muitos.
A pesquisa
empírica em humanities - que vem convertendo a muitos antes
funcionalistas - se afasta pois do neoempirismo, por recusar a
generalidade e o estatuto de ser aplicável por si só na
prática, apenas por constituir-se em termos de levantamento de dados
como pesquisa operacional. O que é irredutível a um arcabouço
projetivo explícito, este que tratando-se de humanities implica
questões muito complexas de natureza política - o que é uma
posição perfeitamente contrária ao autoritarismo que os
deterministas costumam atribuir às ciências humanas, sem notar que
elas não se reduzem a técnicas.
Como ressaltei, o
importante aos estudos hegelianos hoje é justamente que em Hegel, a
reflexão teórica sobre as humanities nascentes conjugou as duas
coisas, a liberdade como atribuição universal dos direitos humanos,
mas a singularidade como o ser efetivo dos sistema sócio-históricos.
O modo como Hegel conjuga esses dois termos é o que instaura o
problema da modernidade como ciência do "desenvolvimento"
- e também é um condutor dos estudos hegelianos, enquanto questão.
Porém, como um
pensamento filosófico, Hegel logrou ficar à margem do
comprometimento determinista posterior, assim como, também, aos
aspectos da linhagem idealista que não obstante a comunhão de fundo
com ele, revelam mais dependência do determinismo quanto ao
paradigma desenvolvimentista - cmo vimos, todas as duas linhagens são
críticas ao Estado.
Na pós-modernidade,
a retomada do Estado como horizonte da liberdade, ressaltei em
consonância a dois fatores irreversíveis. A redefinição do
capitalismo como oligárquico para-legal anti-estatal, e a superação
do determinismo na pesquisa empírica em humanities. Daí vem se
seguindo transformações importantes na constituição do objeto,
que vem sendo relativizado quanto ao estatuto de algo perfeitamente
identitário. Assim o relacional ("dialética") hegeliano
se torna interessante a cotejos possíveis.
Aqui seria importante
salientar a transformação na linguística. Independente de toda a
profusão de escolas na ciência linguística, de Saussure ao
presente, desejo enfocar o trânsito de algo fundamental a todas, que
é a definição da unidade mínima da linguagem. Os tempos
saussurianos em sentido estrito foram aqueles em que a unidade mínima
era a palavra, e o momento subsequente, de que Lacan é o maior
beneficiário, processou a mudança para a definição da unidade
mínima em termos de frase. Porém desde os anos oitenta até agora,
desenvolveu-se e já está estabilizada a ruptura que se designa
textolinguística.
Assumindo que a
unidade mínima da linguagem é o texto - mesmo que fosse um texto de
uma única palavra - estamos pois num terreno que já não suporta o
determinismo do um-significante que Lacan explorou até as últimas
consequências, ensejando assim tantas derivas temáticas que foram
se desenvolver contra ele na tendência designada pós-estruturalista.
A cultura de traços
mnésicos, inconscientes, puramente significantes e despóticos pois
gerados como fantasia do signo único, é o denominador comum da
modernidade, contaminando também o idealismo, ainda que por vias
diversas daquela que pôde haurir condução de princípio em Freud.
À frente voltaremos a isso, para a questão das origens do
pensamento freudiano. Quanto a este, na França o pós-estruralismo
fez convergir com temas filosóficos da pre-sença heideggeriana e o
sublime kantiano. Entre a França e Frankfurt, o denominador comum
foi totalmente amparado na "linguistic turn" que assim
coalesceu, porém vemos que não coincide hoje, justamente, com o
conceito de linguagem com trânsito científico, esta somente
entendendo a langue como texto.
Já desde o rise
da pesquisa operacional, esta coincide, na segunda metade do século
XX, também, com a prova na psicologia empírica, da obsolescência
da crença freudiana, comum no princípio do século passado. A
saber, que o aparelho perceptivo não realiza por si mesmo a
qualificação do dado. Sabemos já que realizam, o que torna a
teoria dos traços mnêmicos menos determinista do que Freud pensou
ser necessário que fosse, caso possa ser preservada em função das
diferenças de personalidade. Em todo caso, já não se ensina
geralmente a psicofisiologia da visão por analogia com a câmera
fotográfica.
Na antropologia,
salientei acima que já há motivos para duvidar de que as primeiras
organizações urbanas tenham sido despóticas, a partir das fortes
evidências do Sumer, como primeiro núcleo civilizado conhecido, em
termos de democracia ou parlamentarismo.
Agora podemos
introduzir nosso tema atual, o estudo das tríades hegelianas, como a
pista para a relação de Lógica, Ciência e consciência, em
Hegel. Uma questão poderia ser condutora aqui: como surgem as
ciências humanas, e com elas a coalescência do que estudam enquanto
históricas, o Estado, na Lógica hegeliana enquanto devir do
pensável?
Ao longo da
modernidade, vimos que ela chegou a um impasse entre o materialismo e
o idealismo, que em termos marxistas pode se traduzir no desacordo de
Althusser e Lukács quanto à ideologia. Para Althusser, a ideologia
é a cooptação da consciência como sujeito, e para Lukács, ao
contrário, é objetificação (coisificação) fetichista da
consciência humana subjetiva. Ambos pensam estar seguindo Marx,
porém vimos Althusser exigir para si certa margem de originalidade.
Não obstante, creio ser visível que para ambos trata-se de colocar
a objetividade autêntica, seja qual for, numa relação que
privilegia a totalidade de um modo só aparentemente preservador da
dialética. Essa circunstância é compreensível pela preponderância
do sistema, seja em paradigma funcionalista que o considera como o
todo, ou estruturalista que o considera a relação diferencial das
partes.
De fato a recusa
althusseriana da inversão de Hegel por Marx, que é uma tese da
total não coincidência das teorias de ambos, sempre me pareceu
explicável apenas, se não apenas teimosa idiossincrasia, por uma
necessidade de ultrapassar a dialética. Esta na qualiade de um
pensamento relacional, em que a Aufhebung não é tanto a
negatividade como a encarnação do devir, o que faz muitos pensarem
em Hegel em termos algo empiristas. O sistema sempre será avesso à
história como à empiria. O diferencial estruturalista - como a
extração sistemática de um caso relevante à exemplo da oposição
entre p e b na nossa língua - não é de fato Aufhebung, mas também
a integração das funções de um todo orgânico também é bem
irredutível a isto.
Em Hegel, como
ressaltei, trata-se de algo que se tornou complicado na modernidade,
enquanto uma convergência sui generis de singular mas como
histórico-nacional, com o dialético-universal. Se podemos falar de
convergência, pois se trata de que não sabamos a princípio como
lidar com o seu conceito. Por exemplo, tenho por vezes referenciado o
histórico-nacional hegeliano em termos de sistemas sociais, mas esta
expressão é oriunda da teoria social idealista, e não do próprio
Hegel.
O fato que desejo
definir aqui é a complexidade dos investimentos hegelianos, ligados
todos por um fio tênue, da história, que porém não sabemos como
poderia cumprir essa missão de unidade, em vez de, como se poderia
supor, inversamente singularizar os componentes conceituais de
trajetórias próprias.
Há pelo menos
quatro histórias hegelianas: da consciência, da filosofia, da
ciência e do Estado. Na consciência todas estariam imbricadas, mas
se há uma gênese objetiva na Lógica, a própria autonomia da
consciência enquanto histórico-fenomenológica se torna uma
questão, ficando por amalgamar, inter-relacionar. Em todo caso, nas
três histórias subsequentes, não há a imbricação que se predica
delas mesmas na história da sucessão das figuras da consciência.
Esta se realiza em coerência com a da filosofia, portanto é uma
história europeia. Ela conduz porém ao Estado, cuja história de
tipos sucessivos é internacional. A ciência pós-metafísica se
realiza na Europa, mas conforme o percurso da metafísica que,
eventualmente como esperável, em termos de figuras da consciência,
não poderia se restringir à história da filosofia e teria que
abranger a do Estado. Já o Estado dos sujeitos se realiza na Europa,
mas conforme o percurso do cristianismo.
Um problema
inerente aos estudos da Lógica hoje, é sua defasagem à psicologia
genética - isto é, o estudo da gênese de categorias lógicas
mentalmente constantes (não referente a "genes"
biológicos).
A transformação da
quantidade em qualidade, predicada na dialética de Hegel, não se
confirma pelo que Piaget demonstrou da gênese das capacidades
mentais, pois que começamos pela quantidade, e também inversamente
a Kant, o número não é primordial. Porém como algo que decorre na
prática, podemos considerar o estudo das tríades hegelianas
coerente a uma intenção de abranger o que seria a mais vasta
composiçãod o Real, entre Ser, Natureza e Espírito. Ora, a questão
condutora que acima enunciamos, se recoloca. como o desenvolvimento
histórico e com ele o Estado, emerge na Lógica? Sabemos que a
resposta é, formalmente, com o desdobramento do Espírito, nessa
tríade mais vasta. Porém o que realmente perguntamos é como o que
se formaliza em termos do espírito objetivo, o Estado, pode ser um
correlato do desenvolvimento, uma vez que é ao mesmo tempo, Razão
em si, o que devém desde que se transitou da natureza ao ser humano.
Por que não se começou, enquanto humanidade, pelo Estado
constitucional? O desenvolvimento do Estado vai então ressoar com as
problemáticas do vir a ser de ciência e consciência, porém
naquela decalagem entre trajetórias europeia e internacional que se
destina a segregar apenas a trajetória europeia como realização da
Razão.
Uma resposta a essa
pergunta poderia ser a de Inácio Heller, que estuda o tema da guerra
e violência em Hegel ("A violência e o Estado em Hegel",
in: Estado e política... op. cit.)
Conforme Heller,
a cisão que Hegel faz entre sociedades pré-históricas e históricas
é a mesma entre violência e guerra. Ao contrário da confusão de
estado natural e estatuto jurídico que vimos Marx atribuir a Hegel,
este faz aqui uma cisão parecida com a que Marx mesmo julgou
necessária. A guerra é entre Estados, portanto uma relação
política. A violência, não, ela é uma relação natural. Assim
não possui a violência, embora real, concretude conceitual naquilo
que seria uma ciência política.
Mas desse modo,
mantem-se o contraste que enunciei, entre perspectivas filosófica e,
digamos, científica, do Direito, como respectivamente a que Hegel e
Marx estavam utilizando. Mesmo que Hegel não seja seguidor dos
teóricos políticos clássicos como Locke e Rousseau, ele
compartilha com estes a perspectiva filosófica e pós-hobbesiana que
instaura a modernidade, pela qual o direito é correlato da pessoa
física pelo fundamento de existência (privada), uma vez que é esta
que está em jogo na batalha do senhor e do escravo, e
estabelecimento de famílias como gênese da sociedade civil.
Seria de se
sublinhar o quanto é obscuro em Hegel esse estado pré-estatal. J.
Bernardes ressaltou que o contrato - qualquer que seja - em Hegel, ao
contrário dos teóricos clássicos, é já "por excelência o
expediente pelo qual os homens se relacionam no interior da sociedade
civil. Este é o domínio próprio da realização da vontade
particular nas suas mais diversas afigurações: o trabalho, o
comércio, etc." ("A crítica de hegel à teoria do
contrato", in: Estado e política... op. cit. p. 75). Mas assim
a gênese pré-estatal em Hegel é tanto a sociedade civil como o
estado de natureza, que ele não denega existir, conforme a
ênfase do artigo de Heller.
Aqui, ao contrário
da cisão simples de sociedade e estado, vemos o estado de natureza
abranger um estatuto pré-estatal em geral, de modo que se congemina
desde o indivíduo por si até nações que não tem constituição
formal (p. 125) Assim a relação jurídica em Hegel não é a
violência originária como categoria única dos seus conflitos, mas
é instrumento do reconhecimento mútuo que põe fim á violência
sem, contudo, ser já por si só a instauração do Estado, e,
inversamente, ser a antítese deste, não obstante ser óbvio não
significar que o Estado abole o "direito" na acepçaõ
científica - dos sistemas jurídicos existentes. (p. 127)
Acima vimos a
questão da transição, nebulosa na Fenomenologia do Espírito,
entre a luta pessoal do senhor e do escravo e o desenvolvimento das
figuras da consciência conforme formas estatais sucessivas
como plano de fundo da história da filosofia. Heller considera a
isto sem muita dificuldade de princípio. Porém de fato há aí uma
ambiguidade notável, porque aquilo que segundo ele, para Hegel não
tem comunidade formal, os dois modos de ser, natural e político,
logo se tornam imbricados como um mesmo devir tal que o segundo é
consequência do primeiro.
Vejamos
inicialmente como se apresentam irredutíveis um ao outro. Heller
considera que é no estado de natureza em Hegel que se trata da luta
pelo prestígio, em que se enraíza o combate do senhor e do escravo.
A violência aí sendo o limite, ela decorre como disputa "entre
indivíduos", ou "entre grupamentos sociais diversos, como
famílias, tribos" ou bandos. (p. 127) Porém nesta condição
haveria apeanas um "menslicher Dumpfheit",
estado de 'torpor humano" em vez de inteligência, tampouco
existindo relações de uns com os outros "como indivíduos
dotados de uma livre vontade, como pessoas". (p. 132)
A batalha de
morte implica condições selvagens de desprezo pela vida. Na
condição selvagem Hegel teria localizado tanto "os povos que
existiram antes do começo da história efetiva", como tipos que
existiam na época de Hegel e que ele designava "'nações
selvagens', por não terem atingido o nível mínimo de unidade
política", restando "em devir de formação estatal."
(p. 126)
Ao contrário
dessa condição natural deplorável, o Estado é a evolução em que
- na decorrência do cristianismo, assim "além do Estado
oriental e do greco-romano, os indivíduos lutam pelo universal que é
o racional efetivo, e não por motivos mais imediatos, menos
racionais...". A bravura tem então uma significação
verdadeira, que não é mera inconsequência para consigo mesmo
devido à fantasia do prestígio, nem é o que distingue a ganância
de ladrões e assassinos, mas consciência da necessidade em caso de
guerra. Essa consciência decorre pois de um vínculo político da
cidadania, a guerra é ela mesma um ato político entre Estados.
Ora, não obstante a
perfeita irredutibilidade de ambas as condições, é o impulso de
luta de vida ou morte que acaba por imprimir uma perspectiva nova, da
"importância da liberdade de uma vida em comum, oriunda do
reconhecimento de um pelo outro. Na história universal foi, ou ainda
é, portanto, a relação dialética entre o mestre e o escravo que
contribuiu e contribui à origem das formações estatais". (p.
127)
Do torpor à
inteligência, pois, por meio da luta até a guerra, a consequência
parece mais ambígua do que boa. Ficou por referenciar o movimento da
Fenomenologia do Espírito pelo qual o senhor se conservou como
figura da consciência, na Representação, e só o escravo está
evoluindo nas figuras do reconhecimento, que são todas as
problemáticas até a solução do Sujeito na história, em que há
algo que não é violência natural nem guerra, mas Revolução.
Mas até aí o que
se sucede como história da consciência são as figuras contáveis
da história da filosofia, do ceticismo ao iluminismo, e, depois da
Revolução francesa, o Romantismo. Não houve a explicação do
trânsito da natureza ao Estado, e na sucessão dos tipos deste não
pode estar em causa a mesma evolução da consciência, que não está
acontecendo no interior do movimento do conceito filosófico europeu,
posto que é internacional.
O que Hegel afirma,
contudo, é que o fenômeno do combate do senhor e do escravo,
como "do reconhecimento e a submissão a um mestre", é em
que emerge "a vida em comum dos homens, como um começo dos
Estados". (p. 127) Nas palavras de Heller: "Poderíamos
afirmar, portanto, que foi necessário um reconhecimenbto inicial
para que a história do espírito, mesmo inda em sua determinação
mais abstrata - como é o caso do mundo oriental - pudesse começar".
Seja como for que se
considerem as ambiguidades consideradas, a tese de Heller que
podemos, conforme o que vemos, designar da gênese histórica do
Estado, contrasta em branco e preto com a de Alexandra Roux,
designável como tese da ausência de gênese.
Estudando o
contraste das teorias do Estado de Schelling e Hegel, de um modo que
parece pender para o primeiro mas que a meu ver apenas enseja
vantagens ao segundo, Roux expressa uma opinião francamente oposta à
de Heller: "A formulação hegeliana é explicitamente rebelde a
toda reconstituição genética", por ser dialética, e, assim,
para Hegel "pouco importa, na ciência do Estado, a 'origem
histórica do Estado em geral, ou mesmo de cada Estado particular'".
Não é que a
gênese não exista, mas ela não é do Estado, e sim é ele de que a
gênese se faz enquanto dos demais elementos da vida social: "O
Estado, diz Hegel, é, em suma, antes o elemento primeiro no interior
do qual se elabora, de início, a família, em vista da sociedade
civil burguesa". (p. 152)
Roux considera que
"essa recusa da perspectiva genética" se deve à
contraposição de Hegel a essa "imensa figura de contraste",
que é "a hipótese quimérica de um estado de natureza do qual
se originaria (não sem ruptura, certamente) o estado civil ou o
estado de sociedade". O que Hegel está criticando
explicitamente é que uma ciência do Estado ou "consolidação
filosófica" do seu conceito, possa se confundir com a história
ou a origem que só iria poder lidar com "estados particulares".
Ou em outros
termos, se o Estado só pode se compreender filosoficamente na
modernidade, isto é, dialeticamente, o que assim se torna refletido
é o Estado em seu conceito real, mas não podendo "fazer o
objeto de uma dedução genética no sentido histórico do termo: a
história ela mesma não poderia valer como gênese ao olhos do
Estado em si: no máximo ela o pode aos olhos dos Estados empíricos."
(p. 153)
O contraste com
Schelling vem desse ser eterno do Estado hegeliano como objeto do
pensamento reflexivo. Este, sendo a atuação da Razão, quanto a ele
é "o elemento divino que é em-e-para-si: o Estado ...
encntra-se fundado sobre a vontade racional". Inversamente,
Schelling pensa que o Estado nasce da queda, do afastamento humano do
divino, sendo portanto o Estado lei férrea, impessoal, que porém é
o único meio pelo qual o egoísmo típico do homem afastado se volta
para o seu semelhante como objeto prescrito do respeito à lei.
Ora, Schelling é
bem ambíguo nisso, não obstante o texto de Roux não parecer
considerar assim, mas, inversamente, que Schelling teria razão em
sugerir que o Estado de Hegel, sendo o céu neste mundo, está
exagerado em seus atributos. Mas o que a lei restaura a ver de
Schelling não é apenas o respeito humano, e sim "a unidade do
Todo criatural, compreendida aqui a unidade de sua essência, do
homem enquanto tal...". Essa unidade era a que desfrutava a
criatura humana no paraíso edênico: "atomizado, numa moléstia
da unidade, a criatura humana deve procurar a unidade no exterior,
numa instituição capaz de coligá-la frente e contra tudo. Eis o
Estado". (p. 153)
Portanto, creio que
estamos no direito de indagar como esse Estado para Schelling,
censurando por isso a Hegel, não é o divino na terra, se é a
unidade restaurada do paraíso. O pensamento de Schelling perde a
consequência nesse ponto.
Ora, o verdadeiro
desacordo de Schelling com Hegel, relativo ao político, se expressa
não na teoria do Estado, mas antes no conceito de História.
O capítulo sobre
Hegel na "História da filosofia moderna" de Schelling
culmina naquilo que parece a síntese do esforço crítico dele
contra Hegel, mas justamente a necessidade de síntese que algo assim
requer resultou numa inconsequência flagrante.
A ênfase do que
Schelling reprova em Hegel incide sobre a circularidade de interior e
exterior, o que hoje saudaríamos como a desconstrução da oposição
dentro-fora na posição do pensamento. Inversamente, Schelling se
lança contra "o Deus do fazer eterno, perpétuo... o Deus que
sempre faz somente o que sempre fez e que por isso não pode criar
nada de novo...", uma vez que "o Deus não se lançou
na natureza, mas
sempre se lança de novo nela, para do mesmo modo sempre de novo
por-se acima dela." (Col. Pensadores, São Paulo, Abril
cultural, 1973, p. 336, 337)
O que Schelling
consegue em seguida, porém, é apenas tornar explícito o motivo
pelo qual Hegel suscitou tanto interesse na história da filosofia
posterior, a saber, o fato da dialética Deus/Homem ser
desconstrução, mas assim ressoar a princípio como pretexto para a
defesa de duas posições contrárias de sua exegese.
Marcel Regnier o
ilustra exemplarmente: "Koyré fala da irreligiosidade profunda
de Hegel que o tornou tanto mais apto a aproveitar as lições
conceptuais da teologia e, segundo E. Weil, Kant era um homem
religioso, ao passo que Hegel era um teólogo! Conhece-se no entanto
a sua célebre declaração na Introdução à História da
filosofia: 'Nós, luteranos - sou-o e quero permanecê-lo".
Uma filosofia
religiosa, sim, que porém parece sempre "esfumar-se por detrás
do saber vivido". É conhecido o fato sobre Hegel, de que "já
quando era vivo a sua filosofia religiosa foi atacada por
Schleiermacher, e em círculos pietistas de Berlim". Como
sintetiza Regnier: "Alguns... de Marheineke a Brunstäd, julgam
que Hegel é fiel ao cristianismo autêntico. Opostamente alguns
viram nele um panteísmo, até mesmo um ateísmo, como recentemente
K. Löwith".
A controvérsia
exegética tem sido extremamente útil para expressar a variedade das
correntes em teologia: "A renovação actual das investigações
teológicas nas diferentes confissões provocou novos estudos sobre a
filosofia religiosa de Hegel, e isso mesmo nas correntes inspiradas
por Kierkegaard e Heidegger". ("Lógica e teo-lógica
hegeliana", in: Hegel e o pensamento moderno, op. cit. p.
253, 256 ).
Se Deus é em si e
o pensamento é o "em si e para si", o que se fez até
recentemente foi colocar a questão de se é Deus o conteúdo do
pensamento, ou é sempre o homem quem pensa. Hoje que a desconstrução
da oposição pela imanência do pensamento tornou-se princípio da
crítica do discurso, compreendemos a revolução do conceito
hegeliano. O que deveríamos encontrar nele não resulta como a
redução do pensamento ao homem ou a Deus se entre ambos a questão
é a impossibilidade de discernir as origens e os fins. O impulso do
pensamente é o seu desenvolvimento. Neste porém a diferença
histórica é o que resulta na imanência, assim Hegel não é
Platão nem Parmênides.
A meu ver,
Heidegger retrocede relativamente a Hegel, quando aprisiona a
diferença histórica do logos num a priori formalista do Ser.
Derrida radicaliza esse gesto, na Gramatologia. Ambos lidam assim
com o que enunciam, acima da história, em termos de constante
histórica: metafísica-logocentrismo.Ao contrário, a terminologia
aparente teológica da origem hegeliana, Ser/Deus, libera a história
da filosofia de qualquer a priori além de si mesma, nas variações
pelas quais ela interpreta a origem de acordo com o que considera
suas possibilidades de enunciação. Se há um parâmetro crítico
sobre a história, este se coloca como o enunciado da imanência
do pensamento tout court. E seria este o seu
"resultado" - ou seja, não acima da história.
Sem o desejar,
Schelling mesmo torna claramente explícita a posição de Hegel,
como se não suscitasse qualquer dúvida, citando-o naquilo que
segundo Schelling foi a versão do texto hegeliano "a mais
popular de todas, endereçada ao grande público...", obviamente
um pastiche schellingniano, em que "esse tema da exteriorização
costuma ser conduzido do seguinte modo: Deus, decerto, já é em si
(isto é, sem sê-lo também para si) o Absoluto, e também já é
anteriormente (o que erá este 'anteriormente' em um desenvolvimento
puramente racional?) o primeiro, o Absoluto, mas, para tomar
consciência de si mesmo, exterioriza-se, contrapõe a si o mundo
como um outro, para, do mais profundo grau de exteriorização,
oscilando ainda sempre entre consciência e inconsciência, elevar-se
ao homem, em cuja consciência de Deus ele tem sua própria. Pois o
saber do homem, o saber que o homem tem de Deus, é o único que Deus
tem de si mesmo".
Ou seja, para o
próprio Schelling a oscilação não é real, há redução
humanística da teologia, o pensamento que primeiro foi religioso se
torna assumido como seu por aquele que o produziu, o homem. Ora, sem
notar a própria inconsequência, a crítica de Schelling também não
é de natureza religiosa, mas sim, bem inversamente, política, indo
incidir a partir daí sobre o conceito hegeliano de História: "Com
tal exposição é dada a nota mais profunda da afabilidade a esse
sistema: por ela já se pode avaliar em que camadas da sociedade ele
tinha ainda de afirmar-se por mais tempo".
Aquilo que irrita
Schelling é que estas não são as camadas aristocráticas da
sociedade: "Pode-se bem admitir que essa ampla divulgação de
seus pensamentos deu ao próprio Hegel o mínimo de prazer".
Pois, ao ver de Schelling, o que agrada às multidões é a mensagem
hegeliana inteiramente contrária ao que Schelling mesmo considerava
verdadeiro: que "certas ideias sempre surgem primeiro nas
classes superiores, a saber, nas euruditas ou em geral de cultura
superior; se, em seguida, já perderam sua validade junto a estas,
mergulharam nesse meio tempo nas camadas inferiories da sociedade e
ainda se mantem, nestas, quando nas superiores já não se fala mais
delas". Ora, é tanto mais instigante a crítica schellingniana
porque, se assim ele diz que o destino da filosofia de Hegel foi bem
esse, de perder a validez onde importava retê-la, o alento que ela
insufla em seu grande público só vivifica aquela classe que
Schelling despreza. Hegel faz sucesso "entre industriais,
servidores de comércio e outos membros dessa classe da sociedade
que, de resto, em outra referência, é muito respeitável..." -
ou seja, como podemos bem compreender, aquele público que não é
apenas "sequioso de ilustração" como se limita a dizer
Schelling. Mas que se caracteriza por ser composto de homens de ação,
o que é porém gritante nas entrelinhas.
Podemos inferir
assim que Schelling não concorda com a noção hegeliana da história
na qual não são notáveis eruditos ou aristocratas da "classe
superior" aqueles que a fazem. Com efeito, o trecho dessa
crítica schellingniana ao hegelianismo, termina, após o vaticínio
de que é entre aquele público que a filosofia hegeliana "passará
também os últimos estágios de sua vida", do seguinte modo:
"Tudo isto, no entanto, deriva deste único equívoco
[hegeliano]: que relações verdadeiras em si, ou seja, tomadas
apenas logicamente, foram transformadas em efetivas, o que as
despojou de toda a sua necessidade". O ser se transformou em
ação, efetividade, justamente porque ele era Ideia, podemos
ajuntar. Mas isso não nos parece um pecado. Nem configura uma
inconsequência, como se endereçasse apenas, por via da lisonja aos
grandes homens de ação, os herois da história efetivas que segundo
Hegel fazem a história, a vaidade do leitor comum que poderia assim
se identificar com eles. Creio ser mais defensável que "Hegel
sabe o que fala" como expressa de costume Luis Carlos de Morais
Junior. Considero pois que a Lógica contempla, na tríade que
comporta o grau máximo da generalidade, justamente as três
possibilidades enunciativas quanto ao ser: de ser, não-ser ou devir.
Sem anular a equipossibilidade que enunciava Schellling em sua
própria filosofia, a instalação de direito do pensamento acima de
toda oposição, Hegel inclui porém o devir, que Schelling opõe
como que secundariamente, ao seu primeiro par de opostos, de ser e
não-ser.
Mas a modalidade
do possível na tríade hegeliana engendra-se pois, como história
- na medida em que temporaliza-se além da instantaneidade
tautológica do Ser, e em que enseja de fato os enunciados da
história da filosofia. Não por qualquer fator extrínseco,
relativamente à pressuposta oposição de necessidade e efetividade
para fazer desta o derivado relativamente àquela. Na história
hegeliana o que não há não é a necessidade, é a transcendência,
só o que se coaduna com essa oposição.
Entre Ser,
Natureza e Espírito, a tríade maior que enseja a Lógica, é o
Espírito que inicia porém a série enunciativa sobre o Ser,
constituída na história da filosofia. Esta que é entretecida
na - e como a - história efetiva, o mundo axiológico-político.
Considero interessante que se pudéssemos ver alguma incongruência
aí, seria que nesta história da filosofia, a equipossibilidade da
maior generalidade não apresenta a mesma ordem sucessiva que a
Lógica procede. Heráclito, Parmênides e Gorgias enunciaram
sucessivamente o devir, o ser e o não-ser, como horizonte inaugural
da história da filosofia.
Assim também as
duas posições contrárias que acima examinamos a propósito da
teoria do Estado em Hegel, ora que ela é uma teoria histórica desde
o que posiciona como origem, ora que ela é a teoria da radical
ausência de gênese, parecem-me igualmente equivocadas naquilo que
negam como o seu contrário, estando certas pelo que afirmam. Por
isso que na Filosofia do direito, o momento em que nasce o Estado é
aquele em que o logos hegeliano ultrapassa a fronteira do gênero
"lógico" no sentido comum do termo, aquele que se
restringe à validez das oposições do entendimento.
O texto transita
propositadamente ao gênero que conforme a terminologia hegeliana se
designa dialético, mas que na história da filosofia era praticado
na cena inaugural heraclítea como a assim designada "antilogiké".
Aí os contrários são equipossíveis, coexistem na realidade em que
se alternam assim como Deus que preside a todos; e no discurso assim
como alguém que defendendo por jogo uma tese contra o adversário
que defende a oposta, subsequentemene, com um outro adversário,
teria que defendar essa oposta. Esse jogo, em que se trata de um
interrogante levar o adversário a contradizer-se, caso em que o
interrogante ganha, é o que os gregos inicialmente
designavam"dialética". Já o conceito heraclíteo do logos
como alternância de contrários, por ser filosófico, paideia
(cultura, educação) e não paidia (jogo, brinquedo), nunca foi por
ele mesmo designado dialética. Após Heráclito é que Parmênides
introduziu na nascente filosofia grega, a hipótese contrária ao
devir, como da fixidez e unicidade do Ser.
Ora, na sua
Filosofia do Direito, Hegel expressa como o momento em que nasce o
Estaddo, o seguinte juízo: "Através da divisão da sociedade
civil, a moralidade objetiva evolui, pois, até o Estado, que se
manifesta como seu verdadeiro fundamento. Esta evolução é a proca
científica do conceito do Estado, e não há outra". A divisão
da sociedade civil aí refere-se às duas esferas que Hegel define
como componentes dela, a família e a corporação profissional a que
alguém pertence - certamente aqui Hegel fala de "indústria"
como progresso acontecendo na história, mas na verdade as
corporações são prática ante-capitalística, Hegel já tendo
notícia de desempenhos independentes possíveis, porém
considerando-os subversivos da ordem social vigente.
Conhemos a história e
sabemos que de fato eram, o capitalismo tendo sido uma luta
sistematica, em seus inícios, contra as corporações de ofício,
porém sabemos também que estas podiam ser corrompidas internamente
e não formam uma oposição tão límpida entre dever comunitário e
rebelião egotista como Hegel parece pretender. Em todo caso, se ele
apoia as corporações, não deixa de notar que aqueles que ganham
muito fora delas tentam sempre compensar a sua marginalidade civil
agradando a sociedade por outros meios, tamanha é a força da
sociedade sobre os indivíduos desde sua origem.
Ora, o importante
aqui é então que a evolução histórica ocorre em três estágios
sucessivos: a) Família: campo, moralidade em acordo com a natureza,
relações afetivas, ausência de atribuição de individualidade; b)
corporação de ofício: cidade, industria, reflexão, atribuição
de papeis identitários; c) Estado, realidade do absoluto, atribuição
da subjetividade a cada pessoa.
E o juízo que
citamos apenas mostra a interligação da evolução histórica e
fundamento de essência, este ideal sem gênese, na existência do
Estado. A essência do Estado é correlato do que designei
fundamento de existência no direito, enquanto a proposição
filosófica deste. Hegel define-o como o primeiro princípio da
sociedade civil, a existência imediata que se dá a liberdade na
forma da propriedade como posse. ("Princípios da filosofia do
direito", São Paulo, Martins Fontes, 1977, p. 41 e p. 168)
Essa atribuição
originária do direito, é já o Estado em seu fundamento, porém na
realidade histórica apenas como condição exterior. O fundamento
desenvolve-se até o Estado objetivo na história, em que a
atribuição da existência como status da posse se generaliza à
individualidade da pessoa existente. Assim o Estado que fundamenta e
o Estado que se desenvolve podem ser o mesmo em função do que
se desenvolve, a consciência do ser da "pessoa". Na
condição exterior, a posse é primeira. Na objetividade realizada,
interiorizou-se a consciência, a pessoa é primeira. O Estado é
então "interior", realidade efetiva. Hegel deplora assim o
Direito Romano, onde o escravo não era pessoa por não ter status de
posse. Aquele não pode pois ser considerado o direito vigente na
mentalidade do Estado contemporâneo.
O segundo
princípio da sociedade civil é a forma da universalidade da pessoa,
pelo qual todos tem que reconhecer os outros como pessoas dotadas de
direitos. O que porém só vai poder ser efetivamente afirmado desde
a coalescência do Estado, mas é o que já está se realizando, em
suas modalidades efetivas, na história, o porque da história
existir, não obstante não haver esse "porque" se não há
história, uma vez que o motivo é inerente ao ser da pessoa.
Exigir que a
inserção histórica do Estado dependa de um acontecimento inaugural
preciso, pode não ser apenas estar respeitando a famosa distinção
de estrutura e acontecimento. Mas, em se tratando de Hegel e seu
contexto coincidente com o nascimento da História como ciência,
poderia denotar o esquecimento do que foi transposto relativamene ao
passado da memória, a saber, o conceito historiador que informa uma
pesquisa documental, a qual se torna assim referente a um processo de
que podemos julgar quanto à pertinência e coerência de sua mera
posição como tal.
Como filósofo
pioneiro da história, e não propriamente historiador, Hegel
demonstra estar bem ao par disso. Ele transpõe a exigência
conceitual ao ser mesmo da História. Hegel procede na filosofia a
ruptura que na História estava acontecendo relativamente ao que se
fazia antes como o que hoje se designa "história erudita",
oposta à "história como ciência". Neste caso a ruptura
não é relativa à memória tradicional ou individual, mas a uma
concepção dos fatos que os subsume a uma visão moralizante do
mundo e totalizante do sentido. Seria interessante assim o contraste
da marcha progressiva da filosofia da história hegeliana, com os
ricorsi de Vico.
Nesta primeira
forma da filosofia da história como ciência, Hegel não hesita em
empregar o termo "teodicéia", mas sua concepção é
inteiramente avessa à tradição totalizante cristã, da queda à
redenção futura. Como assinalei, trata-se de progresso contínuo.
Se é Deus como Espírito que se realiza em nós assim que assumimos
a objetividade do Saber, na independência perfeita da ciência, já
vimos que há muita dúvida fundada sobre se esta concepção
permanece teísta ou é um artifício da mera Razão.
A forma hegeliana
pioneira da filosofia da história como ciência difere porém
especificamente de uma dentre as concepções precedentes da
totalidade da história erudita, a de Hume. Nesta, a história
manifestaria o progresso do espírito na acepção da civilidade, a
gentileza de maneiras no trato mútuo ou protocolar. Assim não há
aí filosofia da história de sentido contemporâneo, mas a História
mesma, o que os acontecimentos teriam que estar expressando. Hegel
apresenta uma filosofia da história em sentido estrito, e vemos que
ele não estabelece o ser da historicidade senão como um conceito.O
progresso histórico resulta em algo estritamente conceituado, o
Estado. A luta de classes em Marx pode ser considerada uma inversão
no sentido de um deslocamento desse conceito. É certo que a luta de
classes seria subjacente aos processos da história, mas como o que
deve resultar na consciência de classe.
É também
interessante que esse progresso do Estado como da consciência em
Hegel se faça desde uma origem que é o sentimento animal - ainda
que ele explique que a animalidade do homem não é igual a de nenhum
animal da natureza. O telos é a inteligência, e por isso a
concepção teleológica aristotélica é relativizada. Hegel fala em
enteléquia evolutiva, do bando e da província ao mundo
realizado na história como o cosmopolitismo de que Kant pudera já
se conscientizar mas sem jamais suspeitar do que Herder de fato
inovou como o processo histórico da nação.
Mas o
interessante é que, declarando-se Hegel inteiramente fiel ao
espírito do cristianismo, a este é incomum a inteligência acima do
amor ou mesmo que não se abandone ou abomine o mundo, como Cristo,
que venceu contra o mundo. Estes dois quesitos que são tão caros a
Hegel. É possível que a consciência história neste, assim como
nas correntes do misticismo desde o pré-romantismo aos românticos,
envolvesse realmente uma crença na evolução interna ao relato
cristão, e a revolução constitucionalista fosse vista como a
realização da profecia do reino de Deus na terra.
Ora, o que
devemos evitar aqui é confundir a moralidade em acordo com a
natureza, o que é coerente à realização mais simples da pessoa,
com o "estado de natureza" enquanto o locus da teoria
política clássica, que Hegel trata, ao invés, como um problema
independente. Numa perspectiva antropológica, parece que para ele
não é a mesma ciência. O conhecimento das sociedades arcaicas ele
já parece conceder como objeto a ramos de pesquisa correlatos. Mas
nisso realmente permanece criticável, como a carta geoegológica do
Ocidente, a preconceção de Hegel acerca das sociedades tribais
contemporâneas.
Por essa crítica,
podemos considerar toda essa concepção do Estado, ao mesmo tempo
dentro e fora da história, forma e realização, sistema e
acontecimento, etc., a contradição neurótica do fundamento. Pela
qual, misteriosamente a civilização, que não tem origem
necessariamente europeia, só é atribuída à Europa. A Grécia, que
como já se sabe amplamente não pode ser reduzida a Roma, e tanto
que na partição antiga do Império ficou cartografada oriental, se
torna o protótipo da sociedade européia contemporânea. Pode-se,
como Heidegger, ao mesmo tempo dizer que o cristianismo não tem
conceito, que a ciência é metafísica, mas que a ciência vem do
cristianismo por ser este afirmação do mundo existente. E a
interlocução transcontinental, na qual a Europa constitui os
conhecimentos humanísticos e o liberalismo político, é impossível
de ter registro no próprio conhecimento suposto assim constituído
sobre um "todo outro".
Na atualidade, o
Estado está considerado o âmbito de leis públicas constante em
todas as sociedades conhecidas, qualquer que seja a sua escala, como
a propósito expõe E. Willems ("antropologia social")
A concepção de
Hegel a propósito da sociedade civil anterior ao Estado não pode
ser considerada correta. Porém, se for conservado o conceito do
Estado como universal da consciência, então Hegel teria enunciado o
que está evidenciado hoje pela antropologia social, ou seja, que
todas as sociedades tem Estado - e se há agora exceções, são
daquelas que estão sendo depredadas pelo banditismo do capitalismo
ocidental, de multinacionais a máfias de crime organizado.
Já não
subsiste prova de que as sociedades de pequena escala conhecem apenas
obrigações de parentesco. Pelo contrário, estão documentadas já
as instituições de representação legal de querelantes e vigência
estritamente observada de leis públicas irredutíveis ao costume
privado. Além disso, a consciência restrita a mito, sem história,
atribuída aos povos não-moderno-ocidentais provou-se falsa crença.
Mesmo tribos de bem pequena escala mantem linhagens de informantes
que guardam a história efetiva de geração em geração, cobrindo
vários séculos, como registro das rotas de migração originárias
até a fixação local, e eventos da história intertribal local,
inclusive eventos que se imbricam à história da colonização até
a atualidade. A propósito, o livrinho dos Vilas-Boas, mas também o
importante "O processo de assimilação dos Terena", de R.
Cardoso de Oliveira.
Neste trecho espero
ter tangenciado algo da ambiguidade do Sujeito pensável na
emergência do Estado constitucional. Hegel, pensando a constituição
nacional, teria superado a confusão de público e privado inerente à
teoria política clássica do "contrato social". Porém na
sua filosofia da história há dificuldade na caracterização da
subjetividade independente. Parece solver-se na "intersubjetividade"
do Estado, e desse modo o Anti-Édipo de Deleuze-Guattari seria
apenas hegeliano ao solver a síntese da subjetividade inconsciente
em "povos" como zonas de intensidade ou regimes de signo.
Em todo caso não heterogeneidade intrínseca à sua história, mas
apenas fórmula identitária única de cada povo, definida o povo
como uma posição ocupada no inconsciente como virtualidade do
sistema de signos, o que em Hegel se estabelecia pela posição de
consciência de cada povo na progressão dos Estados.
Assim o protesto
deleuze-guattariano contra a história, a favor do devir, conforme a
um vocabulário inadequado que confunde história e filosofia
sócio-progressista da história, e coloca fora da autoconsciência
histórica os povos não ocidentais, não basta. A ambiguidade resta,
afinal a história mesmo naquele sentido equivocado retorna, pois não
é possível, ao contrário do que pretendem estes autores, conservar
a tripartição morganiana de selvagens, bárbaros e civilizados sem
ao mesmo tempo estar fazendo a filosofia da História "universal".
O
esquizofrênico fora do socius, de Deleuze-Guattari, tem um correlato
em Hegel, que são os herois da história. Estes são sujeitos
outsiders, que se expressam as exigências de justiça contra a
iniquidade de um povo afrontado pelo estado de coisas decadente que
demarca o limite de uma época e a necessidade da revolução, não
são de modo algum como ideais-tipos de sua sociedade. Eles são
grandes homens que se destacam dela por isso que, mesmo a mais
sincera revolta contra a injustiça, por parte do homem comum, não
chega à clarividência da ordem social porvindoura.
Hegel rebateu a
relativização do grande homem que amiúde se fazia com a
consideração de que ninguém é grande para o seu criado de quarto,
observando que por isso mesmo se limita alguém à condição de
criado de quarto. Não é porque o homem é pequeno, mas porque o
criado não tem grandeza nem do ponto de vista da consciência da
realidade.
Contudo o
esquizofrênico deleuze-guattariano é idílico. Anjo de candura, nem
pode ter traço sádico, caso em que, contrastado como o preto e o
branco ao masoquista, se diz que está limitado apenas ao instinto
de morte, não alcançando a esquizofrenia como procedimento de
criação permanente do signo. Já o herói de Hegel não reproduz o
ideal. A fim de romper a ordem vigente, ele ultrapassa não apenas as
convenções desta última, como também as da moralidade ordinária,
mas não como se isso fosse o que se devesse fazer em circunstâncias
igualmente ordinárias.
Em termos
literários do tipo, de fato Hegel parece-me pioneiro na
ultrapassagem do Fausto como limite romântico da temática da
grandeza e do mal no homem.
A mundanização e
realidade histórico-factual do grande, que como tipo apaga ou
confunde as fronteiras do bem e do mal, e que instaura a
transformação necessária na história, não parece ter precursor
na literatura antes do heroi hegeliano que se tornou porém, depois,
o tipo comum do gênero policial. Habitualmente a invenção do
gênero romance policial é atribuída ao estilo fantástico
hoffmaniano, mas de fato o traço da ambiguidade moral não é
inerente a Hoffman, que fica nitidamente no limite do Fausto
romanticista.
Hoje creio que
seria oportuno recuperar os motivos hegelianos do heroi na história,
que vem sido tão estereotipada para servir de criada a sociologias
bem duvidosas, que se negam como tal para se alçarem a evangelhos do
sujeito originário maniqueísta, proletário ou outro qualquer.
Lembrando que não
foi exatamente o criado de quarto, falando por si, quem tentou
desqualificar a grandeza do heroi revolucionário, podemos aquilatar
a genialidade e a ambiguidade de Hegel expressas por meio desse tema.
Ele foi capaz introduzir a relativização pela circunstância na
leitura moral da história, porém não tendo sido capaz de
introduzir a mesma relativização necessária na leitura da própria
história, aquilo que seria preciso que mantivéssemos em vista
quando se trata de justificar a atribuição inerente ao status de
heroi. Se é possível que Marx tenha feito exatamente essa crítica
a Hegel, posto que a teleologia do Estado nunca se relativiza pela
circunstância do domínio de classe, pode ser que isso é o que
Althusser quis expressar. Porém, se conservarmos Althusser como
expressão genuína da intenção de Marx, vemos que apenas melhor se
perpetua a ambiguidade em si mesma.
Hegel começa pelo
sujeito, mas o anula pela teleologia, observa Althusser, como
estudamos acima. O que se deixa de notar é porque aquele início
foi necessário ou, pelo contrário, como foi nada além de
inteiramente fortuito. Se necessário, é porque a heterogeneidade
dos Estados na história, e de Estado e sociedade, deslocou a unidade
do intelecto supra-subjetivo classicista, surgindo a questão do
sujeito, irredutível ao meio mas em relação com este. Porém a
teleologia dos Estados, de modo que a garantia das liberdades
constituicionais aparece como telos, realização da trajetória
greco-cristã na cultura, etc., anula incontinente ao sujeito, cuja
consciência se solve inteiramente na trajetória.
É inteiramente
certo isso, mas o próprio marxismo não faz outra coisa, apenas
deslocando a teleologia da consciência-Estado pela teleologia da
produção-Comunismo. Em Hegel pode-se considerar que o sujeito
virtualmente retorna, naquilo que lhe é atribuído na realização
final do Estado de direitos individuais. Em Marx, que o sujeito é
realizado no final comunista da história, mas assim do mesmo modo o
sujeito é ao mesmo tempo pensado e não pensável, indivíduo e
universal.
Ambos, Hegel e
Marx, procedem a contradição ge-ego-lógica. O sujeito só se
tornou pensável na fímbria da História, porém esta, do mesmo modo
que o sujeito, nasce para o heterogêneo, o ultramarino homo
storia, e, contudo, na mesma hora se reduz à teleologia
homogênea do Ocidente eurocêntrico - assim construído.
///
Bréhier trata
o sistema da lógica hegeliana em termos de algo que pode ser
reduzido ao misticismo generalizado entre o pré-romantismo e os
românticos. Ele considera que cada tríade é concebida como uma
transmutação alquímica, uma espiritualização do dado: "A
filosofia de Hegel é uma vasta alquimia: trata-se de transmutar em
pensamentos os dados dos sentidos e as representações, de
introduzir universalidade e necessidade lá onde nos são dados
individualidade e justaposição" ("História da
filosofia"/ internet, p. 436).
Ao ver de
Bréhier, como só se compreende o sistema hegeliano habituando-se "à
ideia de que uma mesma realidade pode ser situada em diversos
níveis", localiza a mesma inteligibilidade em Platão e
Leibniz. Aí o pivô é que a relação do pensamento com seu
referente não é "entendimento", mas muda a natureza do
referente anterior à relação. Hegel conserva a terminologia da
"reflexão" (Nachdenken), mas não se tratando da ideia
como cópia da coisa: "Pensar o mundo empírico, é mais
essencialmente (plutôt essentiellement) trasmutar (umänden) sua
forma empírica e a mudar em um universal" - conforme a citação
de Bréhier.
Não obstante
Bréhier utilizar-se de Platão e Leibniz, de fato compreende-se
melhor o seu conceito de transmutação neste segundo, pois o
platonismo conserva a semelhança de sensível ao inteligível num
plano de imagem, mas em Leibniz, como salienta Bréhier "o
aspecto do mundo muda conforme o ponto de vista das mônadas".
Não há uma relação biunívoca, mas a multiplicidade dos pontos de
vista.
Na verdade a
perspectiva de Bréhier se constitui por um compósito sui generis. O
momentum da citação que introduz o estudo da Lógica de
Hegel, é precedido por uma consideração a propósito do misticismo
dominante na época, visando antes acomodar nele do que situar Hegel
como ruptura, e envereda pela relação de Hegel com a história da
filosofia, a partir do exame da sua teoria da essência. Aqui a
proximidade com Leibniz se torna crucial, e como minha intenção é
contradizer o parentesco de Hegel com a teosofia da época, será
melhor começarmos nós pela Lógica. A colocação de Bréhier nesse
sentido é pertinente.
Ele nega que na teoria
da essência, Hegel seja aristotélico. Já a proximidade ao "modelo
leibniziano dos compossíveis" (p.. 438) se coloca por isso que
nele, um possível, definido por seu caráter não contraditório,
tem nessa identidade o princípio de sua definição própria, mas, o
que Aristóteles não conceituou, ao mesmo tempo a definição de um
possível é o que o liga a outros possíveis ou essências que se
tornam assim entredeterminadas num sistema. O ponto de proximidade de
Hegel a Leibniz consiste nessa relação de conteúdo e manifestação,
interior e exterior. O conteúdo ou interior de uma essência se
torna unido à exterioridade dela, como à sua manifestação na
Realidade (Wirklichkeit). E conforme Bréhier, é "esta
identidade do conteúdo [com a manifestação] que faz a realidade"
ao ver de Hegel.
A essência contem o
ingrediente da causalidade porque "ela suprime sua simples
possibilidade", faz passar do possível ao ser, mas também é
substância porque "é a totalidade dos seus próprios
acidentes", e cujo conteúdo é manifestação, atuando a
essência em reciprocidade às demais essências.
Quanto ao conceito
(Begriff), conforme Bréhier não há uma teoria clara, mas um
conjunto heterogêneo de traços, e cuja união é dialética. Na
lógica formal, Hegel estuda o conceito junto ao juízo e o
raciocínio. Na Filosofia da Natureza, quadros conceituais são
referenciados como mecanismo, quimismo e teleologia. E há as
"especulações metafísicas sobre a ideia", que compreende
em si vários pares de opostos: alma e corpo, possibilidade e
realidade, ser possível e ser existente".
Conforme Bréhier "a
união dialética destas três partes entre elas", lógica,
natureza e metafísica ideal, "e a integração do todo ao
movimento dialético de contjunto não é fácil apreender", mas
resulta um conhecimento bem estabilizado da "atitude mental
designada sob o nome de Begriff: um tipo de liberação e vitória
sobre a negação, uma afirmação mediatamente posta pela negação
de uma negação".
Todas as formas até
agora determinadas, tornam-se já conceitos nesse sentido da atitude
mental, o produto de um movimento dialético. Mas até aí, são
conceitos determinados e limitados, e se trata para Hegel de algo
mais: "trata-se agora do conceito em geral, como liberdade real.
O conceito, nesse sentido, é o oposto dialético da essência, que é
necessidade; ele é como uma retonada da iniciativa escapando deste
fora (dehors) que é a essência".
Agora a relação
de Hegel com a história da filosofia é ruptura determinada. Hegel
opera a ultrapassagem da liberdade em si de Spiniza, para quem a
liberdade é a consciência feliz do intelecto que se compreende como
um modo decorrendo eterna e necessariamente da substância divina. Em
Hegel trata-se da liberdade para si, a alegria de vermos as
determinações particulares do ser nascendo do movimento dialético
que os depõe para chegar pelo seu desenvolvimento até nós enquanto
sujeitos.
Assim creio que
se pode observar como Hegel de fato rompe com todo o sistema clássico
de que Spinoza seria o corolário perfeito. Não somos nós os
derivados da substância, em meio às coisas que igualmente o são.
As coisas são derivadas da substância enquanto nós mesmos como
sujeitos do pensamento em que a realidade delas não apenas se
inscreve, mas de fato se expressa. Pois a relação do pensamento
subjetivo com a realidade não se faz diretamente como adequação
instantânea, e sim historicamente pelo progresso da consciência.
Porém a esse
progresso, quando se trata do horizonte em que ele acontece
factualmente, a História, Hegel tanto designa utilizando-se do termo
leibniziano "teodiceia", como do termo aristotélico
"entelequia". Aqui poderíamos fazer intervir a
incompreensão da História da Filosofia de Bréhier relativamente à
magnitude da trasnformação de Aristóteles pela filosofia árabe, e
sua influência a Oeste. A concepção de potência ativa, o ato em
se realizando ao invés de platonicamente segregado da efetividade, é
inteligibilidade que podemos reconhecer na história hegeliana como
realização ontológica da consciência. Mas se Hegel explicita que
a subjetividade conceitual nunca foi realizada antes na História,
Tudo o que se
compreende na designação da lógica formal nasce da oposição e
união dos momentos que preenchem o intervalo entre a determinação
e o conceito subjetivamente realizado. Estes momentos do conceito são
a Algemeinheit (universalidade) atribuída ao movimento dialético; a
Besonderheit (particularidade ) produzida por este movimento; e a
Einzelheit (individualidade) que une o universal à determinação.
O juízo é a união entre os dois extemos do conceito, como corpo e
alma, coisa e natureza universal, o raciocínio une a deterninação
individual, por um meio termo particular, à conclusão universal.
A multiplicidade das
mônadas em Leibniz, como dispersão de objetos independentes que
perfazem a totalidade absoluta do conceito, ao ver de Hegel é a
contradição entre a independência dos objetos ou mônadas e a
harmonia pré-estabelecida do todo. Hegel faz desta diversidade
apenas multiplicidade de momentos em que a contradição é
desenvolvida: o mecanicismo, tipo mesmo da justaposição, vai se
concentrar na interioridade nocional das forças. O processo químico
relaciona os seus termos integrantes. A justaposição se solve
completamente na homogeneidade da teleologia orgânica, na qual o
objetivo do todo preside quaisquer atividades das partes. Um
pensamento se torna corporal, resulta em ação. (p. 439)
Essa união, na
humanidade, do espírito ao corpo na ação, é o que Hegel sublinha
como o cerne da sua teoria da essência. Bréhier cita Hegel: "O
homem é interiormente como ele é exteriormente, isto é, em suas
ações". Assim demonstrando que "este exemplo faz ver
porque Hegel recusa admitir que a essência seja pura interioridade".
(p. 438) Assim porém creio que Hegel é anti-platônico, o que não
considera Bréhier.
A lógica de fato
conduz, da ação que na humanidade resolve a contradição
leibniziana do objeto, até a ideia que é o retorno a si mesmo do
conceito. Mas a ideia "é essencialmente processo",
conforme Hegel. Ou, nas palavras de Bréhier: "ela só existe
nessa dialética imanente que apreende todos os modos de ser e os
relaciona à sua subjetividade; ela é pois método e conteúdo,
método capaz de se dar um conteúdo." Até aqui concordaríamos
com Bréhier, mas ele prossegue: " Não há outra realidade,
pode-se interpretar numa linguagem um pouco livre, que a atitude
mental; expulsamos de início tudo o que poderia dar um conteúdo
qualquer a um objeto; o resultado dessa expulsão, é a ideia do Ser,
que, idêntica ao nada, é o desvanecimento do objeto. Assim é
isolada a atitude especulativa pura: só se dar o objeto para fazê-lo
desvanecer, e enriquecer-se dessas negações". (p. 440)
Interpretação
de um Hegel antecipando Heidegger e derivando do platonismo. O
problema aí a meu ver é que não se poderia por esse meio
identificar a dificuldade que Hegel tinha perante os olhos e que
devia ultrapassar. A saber, a descoberta romanticista da imanência
plural da cultura, que não é propriamente a diversidade das mônadas
lógicas leibnizianas, mas verdadeiro ser-aí histórico das
essências enquanto determinações atribuíveis.
A ultrapassagem é ao mesmo tempo que a conciliação de uma
lógica cultural, a redefinição do significado do Saber e do
pensar.
Pode ser que a
conciliação seja mais pós-kantiana do que apenas hegeliana,
tratando-se da resolução da polissemia da ideia, a contradição da
essência plural, pela autoconsciência, não denegada de todo ser
humano relativamente ao objeto atribuído como atribuição sua. Mas
a autoconsciência em Hegel tem um sentido de realização histórica
que funda o Saber novo das humanities, assim ela é o primeiro
enunciado da geoegologia ocidental.
Até aqui, o que
vimos da Lógica conduziu, partindo do início como teoria da
essência, e transitando pelo sentido da dialética, até o conceito
e à realização da ideia. Ao que parece podemos definir a essência
como a determinação atribuída por um movimento dialético que
perfazendo-se em conceito, realiza-se como momento dessa totalidade
que é a ideia. A meu ver podemos afirmar que o So-sein ou
"ser assim" das coisas elas mesmas não aparece senão como
a fantasia de sua natureza segregada da ideia. Mas esta, a ideia, é
o que se realiza na história do mundo. A história do mundo é a
soma contínua dos conceitos, como Saber, atribuídos às coisas em
seu Dasein ou existência, o seu "ser-aí".
Conceitos que resultam como pensamento do homem histórica e
culturalmente situado, também ele mesmo capaz de agir, e, assim,
circularmente historicizar - agora pela via dos fatos - a essência.
O Dasein da
essência, tem seu So-sein na Ideia, e este não deve ser
procurado além ou na própria essência. Em princípio, a
objetividade hegeliana não se incompatibiliza com o que só agora
sabemos nós ser possível ao homem, criar elementos químicos não
preexistentes na natureza. Conforme Bachelard expressou, esse feito
laboratorial é incompatível com a distinção kantiana de noumeno e
fenômeno.
Vimos então que
Bréhier considera, ao cabo da sua exposição da lógica de Hegel
enquanto a reconfiguração da matéria como definida desde o Organon
aristotélico. a ideia como a realização do pensamento. Assim ao
mesmo tempo "método e conteúdo, método capaz de se dar um
conteúdo" (p. 440). Mas antes ele se pronuncia sobre "o
método hegeliano" como não tendo "essa clareza"
preconcebida pelo ritmo triádico da exposição filosófica, "senão
de um modo todo ideal, e é impossível reconhecer claramente esse
ritmo triádico, sobretudo na lógica". (p. 437)
Ao introduzir as
tríades que Hegel conceituou como aquilo que perfaz a totalidade da
filosofia, Bréhier as interpretou, como vimos antes, em termos de
alquimia transmutatória. Ele considera assim que as tríades,
enquanto a enunciada "tradução do real na forma do
pensamento", cumpririam um objetivo que "invoca a invenção
de linguagens místicas, que a época colocava em moda". (p.
433) Para Bréhier, as tentativas de Kannes e antes, de Saint Martin,
de reconhecer na língua hebraica "a língua do espírito",
em que uma palavra expressa uma variedade de coisas, aparentemente
separadas mas ligadas pela conjunção de um "parentesco
íntimo".
Porém de fato
Hegel se opõe ao que designa "a velha ideia de um estado
paradisíaco e primitivo do homem que fora aperfeiçoada pelos
teólogos à sua maneira ao afirmarem, que Deus falara com Adão em
hebraico". ("A razão na história: São Paulo, Centauro,
2001, p. 109)
Em todo caso, é
válida a consideração de Bréhier sobre que "a tríade
hegeliana é o movimento de uma realidade que, primeiro posta em si
(an sich) (tese), se desenvolve em seguida fora de si ou para si na
sua manifestação ou seu Verbo (antítese) para retornar em seguida
em si (in sich) e estar junto a si (por si) como ser desenvolvido e
manifestado. O conjunto da filosofia é a exposição de uma vasta
tríade, Ser, Natureza, Espírito.
O Ser é o
conjunto dos caracteres lógicos e pensáveis que em si condensam
toda a realidade. A natureza é a manifestação desse real em seres
físicos e orgânicos. O espírito é a interiorização dessa
realidade". Mas cada uma dessas três ordens ou níveis do Real
reproduz o desenvolvimento em tríade. (op. cit. p. 436) A lista das
tríades desenvolvidas consta dos seguintes vinte e sete termos:
= Tríade do Ser: ser
em si, ser para si ou manifestação do ser que é Essência
(Wessen), e um ser retornado a si ou conceito (Begriff);
= Tríade da Natureza:
natureza em si como conjunto das leis mecânicas; natureza para si ou
manifestada que é o conjunto das forças fisicoquímicas; natureza
em e para si que é o organismo vivo;
= Tríade do Espírito:
espírito em si, ou subjetivo, sede dos fenômenos psicológicos
elementares; espírito para si ou objetivo, manifestando-se como
direito, costumes e moralidade; e espírito em e para si, ou espírito
absoluto, sede da arte, da religião e da filosofia.
A partir daqui,
segue-se o desenvolvimento de cada um dos termos acima listados,
sendo necessário lembrar que se em cada tríade os três elementos
são consecutivos como tese, antítese e síntese, entre as tríades
subsiste a mesma relação de superação do anterior pelo seguinte:
= Ser em si / é em si
qualidade; para si quantidade; em e para si medida;
= Ser para si / em si
essência; para si fenômeno; em e para si realidade;
= Ser em e para si ou
conceito / em si conceito subjetivo; para si objeto; em e para si
ideia;
= Natureza em si / em si
é espaço e tempo; para si é matéria e movimento; em e para si
mecanismo;
= Natureza para si ou
física / em si é matéria universal; para si corpos isolados; em e
para si processo químico;
= Natureza em e para si
ou organismo / em si é reino geológico; para si reino vegetal; em
si e para si é reino animal;
= Espírito em si ou
espírito subjetivo / em si é alma; para si consciência; em e para
si é espírito;
= Espírito para si ou
espírito objetivo / em si é Direito; para si são os costumes; em e
para si é a moralidade;
= Espírito em e para
si ou espírito absoluto / em si Arte, para si é a Religião
revelada, em e para si é Filosofia.
Como Bréhier
considera, podemos conceber que cada um destes vinte e sete termos
pode desenvolver tríades por ele mesmo. Ele julga porém que não se
compreende a razão que ligaria os termos de modo tal que o
desenvolvimento aportaria a termos últimos, esgotando a realidade.
Na verdade ele não atinge vínculo necessário mesmo entre os termos
listados, por exemplo, entre a medida e a essência.
Para Bréhier, o modo
pelo qual Hegel coloca a medida como precedessora dialética da
essência é "bastante artificial". Trata-se da medida como
"quantum qualificado", que reúne os dois elementos em que
se dispersa o Ser, que são assim a quantidade e a qualidade. A
medida relaciona o Ser a si mesmo atraves de suas negações, mas "é
essa relação consigo mesmo, essa identidade reencontrada que
constitui a Essência", e é por essa reflexão, essa relação,
que a Essência se torna oponível ao Ser. Ao ver de Bréhier, a
teoria da essência é o ponto central da filosofia de Hegel. (p.
438)
Em todo caso,
mesmo que a sucessão dos termos segundo o hegelianismo seja menos
demonstrável do que proposta, para Bréhier uma vez que desde o ser
abstrato até o pensamento filosófico, o que as tríades permitem
ver são "todas as formas possíveis do real", ela permite
reconhecer "a cadeia ou série de formas cuja ideia, desde
Leibniz, domina a filosofia do XVIIIº século". (p. 437)
Essa ideia tem
contudo consequências bem singulares quando se trata do citado
século. Na apresentação de Bréhier, ela formou aí a base de um
misticismo anti-Aufklaerung, o qual se revela o fermento próprio da
Revolução. O estudo de Bréhier a propósito, constando na mesma
História da Filosofia e estreitamente relacionado ao exame do
pensamento de Schelling, é bastante instrutivo e deveria ser mais
consultado.
Oto Maria Carpeaux,
em sua História da literatura ocidental, é eloquente a propósito
desse tema. Também visando Scheling, mostra assim como esse
misticismo da ligação dos seres numa vasta corrente da natureza é
capital na compreensão das primeiras formas de ciência que já
deviam equacionar o rompimento para com a ideia do fixista, o
universo relógio à Voltaire. Schelling influenciou realmente não
apenas vários cientistas que lançavam então teorias importantes na
defrontação pioneira de fenômenos como a eletricidade, mas até
mesmo a adoção de políticas ministeriais de saúde nos primeiros
anos do século XIX.
Bréhier relaciona
mais aspectos da época ao misticismo pré-romântico, proeminente
desde a recepção de Rousseau. Forma um vasto quadro que
inter-relaciona o misticismo, a literatura e a poesia, a ciência, a
filosofia e correntes políticas, tanto populistas quanto de
sociedades secretas como a maçonaria, todas então muito influentes,
relacionadas a ideias revolucionárias.
O demoninador
comum era uma rejeição do intelectualismo Aufklaerung, bastante
paradoxal. Não se tratava apenas do que o Romantismo expressa com
nitidez, a descoberta do Sujeito na emergência da questão cultural,
assim como do ultrapassamento do fixismo que até aí autorizava a
referência da natureza adequada a um conceito de razão
perfeitamente imutável, transparente a si do mesmo modo que o mundo
a ela. Pois, ambos os termos da ultrapassagem poderiam ser
considerados científicos de um modo que permaneceria num âmbito de
prerrogativa da razão científica.
Certamente o
Aufklaerung era rejeitado como essa razão científica, na medida que
se colocava como pura, relegando a cultura à condição da
superstição, sem conceito da visão de mundo e da História
enquanto axiologicamente constituída.
Mas o paradoxo é
que desde aí, o cientificismo aufklaerung do século passou a ser
relacionado à aristocracia enquanto a cultura como o conjunto de
religião, arte e expressão sentimental, era relacionado ao povo.
Por outro lado, o igualitarismo da razão aufklaerung, cujo correlato
é o dado imediato dos sentidos conforme o reducionismo sensualista
da mente conceitual à percepção sensível, se tornava inteiramente
anatematizado.
A cultura se alçava
a verdade mais profunda, a fé que sente o seu objeto como a mais
íntima realidade sua, e de modo algum o correlato da pedra ou da
madeira talhadas de um altar, conforme reproduziu Hegel na
Fenomenologia do Espírito, a resposta do crente ao niilismo
Aufklaerung. Porém o que os atuantes mais influentes nas áreas de
atuação do pré-romantismo faziam ao assim responder, não se
limitava a esse subjetivismo. Eles enfatizavam o conteúdo
tradicional da cultura como a atração mais ingênua do "coração",
e, assim, não pretendiam que o caráter sagrado do povo fosse ao
mesmo tempo a objetividade do político, mas sim, antes, a adesão à
hierarquia dos valores conforme a religião.
A inteligência do
objeto sem mediação conceitual, seria o que qualquer crente por
mais humilde experimenta como a revelação da arte religiosa e sua
"verdade" sentida de dentro, nos bancos da igreja, e esta,
como a ordenação do cânon moral da sociedade, nada teria a ver com
a flexibilidade das leis conforme as convenções refletidas dos
homens.
O comunismo de um
Boneville podia ser só o desse povo igualmente sujeito da revelação
e da "moralidade" pré-instituída na igreja. Para ele o
cientista que nega a religião é um orangotango - piada engraçada,
já que aparentemente o orangotango não tem religião. Hoje em dia
alguém poderia ter a ideia de pesquisar a manutenção de rituais
entre os macacos. Mas se isso é feito, não se deixa de fazer a
conexão para efeitos de continuidade tanto quanto de ruptura das
espécies, entre rituais de macacos e de primitivos humanos. Não é
a toa que em 1782, precedendo a revolução, um congresso da
maçonaria decretava a expulsão de todos os correlatos do
cientificismo "esclarecido" do seu credo observável, e o
rei da Prussia decretou o exílio do cientista Nicolai. Eis o maior
valor de exemplo quanto à evidência histórica da precedência do
misticismo, relativamente ao cientificismo, na ordem dos motivos da
ação revolucionária efetiva.
O momentum hegeliano
já é posterior à Revolução, como sabemos. Não creio que
Schelling não tenha conceituado a realização do reino de Deus na
terra, mas se em termos de projeção místico-filosófica sobre a
história que nascia como ciência, vemos que realmente ele não
pensou nela em termos de Estado, mas sim como religião futura, que
amalgaria o politeísmo e o monoteísmo. Assim ele antecede Nietzsche
na transposição da potência ativa do aristotelismo oriental ao
caráter do símbolo, que era a verdadeira senha por trás do
pré-romantismo. A Bréhier o vínculo de pré-romantismo e
simbolismo, e o que neste vínculo importa ao próprio romantismo,
não passou despercebido. Tratando dos "sistemas aparentados a
Schelling" comentou que deles emanava uma tal confiança no
homem como "animal perfeito, sede do entendimento divino",
e nos herois guerreiros como o tipo do homem superior divinizado,
que "como em Carlyle e em Nietzsche, o romantismo deságua no
super-homem". (p. 427)
Aí também
podemos localizar a origem do conceito de inconsciente. Conforme o
que podemos ler em Bréhier, Kerner e Carus exemplificam a
antecipação do inconsciente freudiano, enquanto H. Steffens a do
sistema pan evolutivo de Spencer, onde a evolução tende à
subjetividade, o que se realiza plenamente com o ser humano. Quanto
ao conceito de inconsciente, Kerner privilegiu o estado de hipnose
como fenômeno inspirado, enquanto Mesmer utilizava-se da noção
geral de um magma ou força unindo o seres para induzi-lo. Os
fenômenos de sonambulismo, hipnose, exaltação amorosa, entusiasmo
incontrolável até o fanatismo, começaram a ser considerados fatos
da vida psíquica, que deviam se compreender. A comunicação de
ciência, filosofia, misticismo, literatura e arte em geral tem nesse
interesse um ponto em comum. Na altura do simbolismo a retomada
desses temas, suspensos pelo positivismo, aparece restrita à
literatura, mas aí concentra o interesse de algo pelo qual a
pesquisa médica está objetivando redefinir a partir da pesquisa do
cérebro, e, com efeito, o trajeto se completa na psicopatologia, que
nasce às vésperas do início do século XX. Na época de Hegel,
Carus especialmente antecipa Freud. Conforme Bréhier, ele pesquisou
"na região inconsciente da alma a origem dos fenômenos
conscientes", tentando apreender "o momento em que o
consciente emerge do inconsciente". A consciência de si é
precedida pelo sentimento de si que, num grau inferior, se distingue
a custo do seu objeto. Essa consciência não separada do objeto é
Weltbewusstsein, ou consciência do mundo, e o seu desenvolvimento é
devido à concentração de impressões pelo sistema nervoso, o
afluxo de novas impressões vindas do mundo exterior, e sua
consolidação pela memória.
Uma vez que seu
"Psyche: Zur Entwicklungsgeschichte der Seele" é
referenciado por Bréhier de 1846, seria hoje interessante uma
pesquisa sobre as relações dessa tendência da pesquisa com o
hegelianismo. O que a meu ver continua sendo um tema importante a ser
investido naquilo que concerne ao próprio Freud.
O paradoxo
pré-romântico pode parecer de algum modo resolvido pelo romantismo
enquanto um cenário de consolidação da teoria do Estado. Supera-se
assim, desde Hegel, o que pareceu já a ele o obstáculo da
ambiguidade no rumo da definição dos temas como exclusivamente
científicos, e é uma ironia que o neohegelianismo, o retorno da
influência não paradoxal de Hegel , após as inversões de
Nietzsche e Marx, tenha pelo contrário sido o efeito de um ambiente
cujo fruto mais proeminente foi a hermenêutica como um horizonte
que, concentrando-se em Heidegger, guarda como trunfo justamente ter
desbravado o caminho para uma nova era da linguagem, para a qual as
divisões estanques não são já limites à expressão das missivas
que o Ser envia aos idiomas.
Vimos que o
julgamento de Heidegger sobre Hegel pode ter relação com a
percepção dessa importante diferença. Porém Hegel permite
observar como Heidegger de fato abstrai aquilo mesmo de que depende a
possibilidade da nova expressão, que ele preconiza como autêntica.
Essa possibilidade, como a emergência do Sujeito pensável, não foi
de fato enviada, como missiva, aos antigos.
Conclusão:
Se o romanticismo
é o primeiro momento da geoegologia, o auto-enunciado do Ocidente a
partir da posição externa a si de um objeto, o primitivo da
história, ele é bem essa oralidade polissêmica da ideia.
Pluralizada na multidão de sentidos da essência, porém universal
da objetividade como função da consciência. A geoegologia nasce
naquele instante em que o gênio que interpretou a "ideia"
em termos de "história do mundo", internalizou o seu
próprio gesto ao mesmo tempo como teleologia das coisas e como
resultado da marcha do conceito.
Não é que depois
a geoegologia vá relativizar esse princípio, pelo contrário, ela
apagará a polissemia.
A polissemia da
ideia romanicista era a função da universalidade da consciência
enquanto autocerteza da atribuição. É essa
universalidade que a seguir se negará ao ser humano enquanto
consciência de si em geral - anterior à hegeliana autoconsciência
da subjetividade realizada como reconhecimento, em nível político e
social. O que muda a seguir, entre Hegel e Marx, é um retrocesso à
representação, apagamento do reconhecimento como referencial da
consciência.
O espantoso, mas apenas
enquanto o sintomático, é que quanto mais a conversão da história
do mundo em teleologia ocidentalista se demonstrou improvável,
devido à independência objetiva das culturas, mais se fortaleceu a
teleologia cujo verdadeiro significado é a geoegologia.
Mas o retrocesso
da representação desde Marx em diante, pode-se afirmar kantiano,
pois a representação, seccionada em estágios da objetividade, só
conceituará a autoconsciência atributiva como realização do
sujeito na história, pelo capitalismo ou seu agente, a burguesia.
Para qualquer outro efeito, a objetividade se relaciona apenas ao
entendimento kantiano do objeto.
Lacan dirá por
exemplo, que o sujeito, o microcosmo renascentista, a psicanálise
revela que nada tem a ver com o macrocosmo, e ele poderia
acrescentar, desde Kant - porém esquecendo que assim mesmo é o
"microcosmo" quem o estabelece.
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